ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Claudio Portella


Maresia do rock    

 

Um homem sozinho anda devagarinho e o vento sopra seus cabelos longos. Sobe devagar, com passo firme, o amontoado de areia. A areia lhe vai aos olhos. Mas seu olhar é negro e forte feito sua passada que avança e vence a última duna antes do cajueiral que abriga sua gente. Uma gente talhada da maresia que condensa e enverniza a vida.

 

No alto da duna, pousa a mão no tronco de um cajueiro. A casca do cajueiro lhe faz uma carícia distante. Uma carícia do tempo de criança em que subia no alto deste mesmo cajueiro para tirar o mais doce fruto.

 

Num ímpeto, sobe a árvore da infância e de lá, como antes, vê o quintal do barraco de sua mãe. Vê uma cadela que certamente é filha da cadela Nina. A que o acompanhou até o alto da duna no dia em que resolveu partir.

 

Agora voltara e estava no alto do velho cajueiro. Olhando o quintal de sua infância, ouvindo os assobios do vento marítimo, do vento que vinha da praia do Futuro, vinha da maior maresia do mundo.

 

2

 

No alto, sobre o cajueiral, havia uma igreja que ostentava uma cruz. Um enorme cruzeiro, de uns vinte metros, que figurava imponente sobre a favela.

 

Favela do Pau Fininho, que ficava na porta de entrada do bairro Dunas. Precisamente na subida das dunas da praia do Futuro. O bairro Dunas começara a ficar nobre nos anos oitenta. E era agora um dos bairros chiques de Fortaleza. Casas enormes, verdadeiros castelos, se encontravam nas Dunas, entre o mar do Futuro e a favela do Pau Fininho.

 

Como falei, o Pau Fininho era a porta de entrada para as dunas. Mas até chegar ao mar, distante um quilômetro e meio do Pau Fininho, haviam outras favelas. Cito a favela do Gengibre, que ficava a alguns metros do Pau Fininho.

 

O Gengibre ficava mais no alto e, assim como o Pau Fininho, tinha uma lagoa. Lagoa do Gengibre, bela e suja. Contudo, se falo nessa lagoa é para situar o leitor. Situá-lo do ambiente onde se passa esse aprendizado de vida. O ambiente, como já perceberam, é uma das maiores cidades do continente chamado Brasil: Fortaleza.

 

A cidade de Fortaleza possui várias lagoas. As mais famosas são a de Messejana, onde a imortal personagem do escritor José de Alencar, a índia Iracema, banhava – há hoje na lagoa uma grande estátua de Iracema –, e a de Parangaba. Em Fortaleza há também um enorme parque florestal: o parque do Cocó.

 

O parque abrange uma grande região da cidade, e parte dele fica nas proximidades do Pau Fininho. A favela onde o menino Ramon cresceu.

 

Cresceu entre os corpos desovados na lagoa do Pau Fininho e a lua refletida em suas águas sujas.

 

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Fortaleza vista de cima é linda! Quando o avião inicia o pouso sobre a cidade abre-se um panorama de mar, vegetação, edificações, dunas e lagoas, de embevecer os olhos. Era a primeira vez que Ramon descia no Aeroporto Internacional Pinto Martins. A primeira vez que via sua cidade natal de cima. A primeira vez que voltava depois que partira sozinho com sua guitarra para São Paulo.

 

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Logo ali, próximo ao Pau Fininho, havia um conjunto habitacional construído no começo dos anos setenta, Cidade 2000. Hoje o conjunto é um bairro.

 

Foi lá que tudo começou. O encontro entre o letrista e o músico. O músico vinha da favela e o letrista de um conjunto habitacional de classe média.

 

Lembro claramente de como se deu o encontro. Era uma noite estrelada e eu estava sozinho no topo das dunas, olhando o céu a procura de um disco voador, quando Ramon veio caminhando, subindo as dunas devagarinho. Seu cabelo preto e longo ofuscava os olhos:
─ Viu alguma coisa? – Perguntou Ramon.

 

─ Até agora nada.

 

─ Há quanto tempo está aqui?

 

─ Uns dez minutos.

 

─ Você também viu a notícia na televisão?

 

─ Olha lá!!! Está vendo aquilo?!

 

─ Nossa mãe, como brilha!

 

─ E está vindo em nossa direção!

 

─ É um disco voador!

 

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Ramon Seixas era filho da faxineira da minha família. Fruto de um namoro com um pedreiro analfabeto e alcoólatra, fã do Roberto Carlos. Comum encontrar o pai de Ramon, completamente embriagado, pelas alamedas da Cidade 2000, cantarolando as músicas mais populares do Roberto.

 

O filho também gostava do Rei. Mas fã era mesmo do Elvis, do John Lenon, das bandas Led Zeppelin, Black Sabbath, Kiss, Iron Maiden, entre outras do Rock’n’rool. Tinha muitos vinis, passava as tardes em seu barraco, no Pau Fininho, onde morava com a mãe, ouvindo seus bolachões de rock. Sacudindo a cabeleira e sonhando, enchendo o Pau Fininho de música e de sonhos.

 

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Eu degustava meus discos dos Doors e do Bob Dylan. Escrever, sempre escrevi. Comecei escrevendo poemas de amor feito os adolescentes. Meus cadernos escolares viviam cheios de poemas apaixonados. Depois passei para os poemas de protesto e só então comecei a escrever contos. Eu já escrevia contos quando conheci Ramon Seixas. Mostrava os contos para ele que me dizia, balançando as madeixas: “é uma merda!”.

 

Ramon sempre foi exigente. Deve ter herdado os exageros da mãe, uma perfeccionista na limpeza da casa. Exagerada quando o assunto se tratava de higiene. O chão de barro do seu barraco parecia um tapete, de tão batido e limpo.

 

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A questão é: dar para fazer alta literatura e ser feliz? Do alto do meu assento na Academia Brasileira de Letras e com cem milhões de leitores em todo o mundo, atesto que sim.

 

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Ainda hoje quando ouço o som do triângulo sinto arrepios. O som mavioso desse instrumento musical me persegue alameda acima. É que Ramon vendia Chegadinha. Espécie de casquinha de sorvete feita de trigo. Reza-se que a mulher que criou chamava-se Dinha, daí o nome da iguaria. Tradicionalmente a venda de Chegadinha é anunciada pela batida de um triângulo.

 

Ramon passava vendendo sua Chegadinha, todas as noites, pela minha alameda. O som de seu triângulo era diferente dos outros vendedores. Sua batida mais vibrante e harmoniosa. Não simplesmente vendia Chegadinha, ele enchia as alamedas da Cidade 2000 de música. Instaurava um levante no que havia de adormecido dentro de nós. Como conseguia isso num instrumento tão rudimentar? Não sei. Sei apenas que não posso ouvir o som do triângulo.

 

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A faxineira de minha família, mãe de Ramon Seixas, Sra. Lourdes dos Anjos, me dizia sempre: “o Homem esquece rápido demais!”. Guardem bem esse ensinamento meus queridos leitores: “rápido demais!”.

 

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Tavares Raposa era um letrista nato. A poesia parecia escorrer de suas veias. Fizemos muitas composições juntos. E todas foram sucessos em nossa cidade. Montamos uma banda. O Raposa foi o agente. Ele não sabia cantar e nem tocava nada. O negócio dele sempre foi escrever e produzir. Gravamos três discos, tocamos em todos os palcos de Fortaleza e do Nordeste, ficamos famosos. Até que um dia Tavares Raposa foi para São Paulo e eu fiquei. Ele me dizia que havia chegado a vez dele. Na verdade a família dele bancou a ida dele para o Sul, e como eu era um favelado... Mas, Tavares me prometeu que quando chegasse minha vez, abriria as portas para mim.

 

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Ontem tive um sonho curioso. Sonhei que eu e Ramon Seixas estávamos na casa de John Lennon. Ramon falava inglês, eu só ouvia a conversa dos dois e sorria. John perguntou a Ramon o nome de um brasileiro ilustre. Ramon respondeu gaguejando: Café Filho! Nunca entendi o que quis dizer esse sonho.

 

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A notícia recente que tive do Raposa, quem me contou foi o baixista de nossa banda, Marcos Pé. Um jovem que também morava na Cidade 2000 e que foi para São Paulo com o Tavares Raposa. Pé veio passar as férias com os pais e aproveitou para matar a saudade da banda, fazendo apresentações especiais com a velha turma. Marcos me contou que Raposa havia publicado um livro de contos, independente, e que havia sido um fiasco de crítica e de público.

 

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A morte de Ramon Seixas é um mistério. E acredito que sempre será. Morrer no auge do sucesso, aos quarenta e quatro anos, de uma dor de cabeça sem explicação? O cara foi dormir com uma dor de cabeça e não acordou.

 

Ramon foi um caretão a vida toda. Lembro dele se engasgando com fumaça de cigarro, na primeira e única vez que o vi fumar: numa tarde cinzenta sobre as dunas da praia do Futuro. Um caretasso! Tudo confluía para que Ramon Seixas fosse doidão; a favela do Pau Fininho, onde muitos jovens consumiam drogas abertamente; o alcoolismo do pai e, sobretudo, seu virtuosismo musical. Impensável alguém ser tão genial musicalmente e sequer tomar café. Não havia ser humano tão paradoxal e tão cheio de força. Conseguia emergir quando tudo conspirava contra.

 

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Olhando as fotos é como se a cabeleira daquele que foi – só após sua morte percebi isto – meu melhor amigo, ganhasse vida. Sua cabeleira era seu troféu. Saudade de vê-lo de braços abertos, imitando o cruzeiro do alto do morro, nas dunas, olhando o mar e gritando; sua cabeleira cantando um hino. Gritava para mim, que do outro lado das dunas, também de braços abertos, esperava um novo disco voador. Ele gritava que um dia sua música o levaria para o alto, para o ar, para o espaço, voar com os discos voadores.

 

E realmente aconteceu, Ramon foi para São Paulo e virou astro do rock. Ele realmente acreditava no sonho.

 

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Tavares Raposa no discurso de posse na ABL, falou que certamente, eu, Ramon Seixas, estaria no momento lá, em espírito – eu havia passado dessa pra melhor. Acertou em cheio. Eu estava lá sim, rindo da cara do palhaço.

 

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Passei uma temporada em Paris. Morava maritalmente com duas belas jovens. Dormia entre as duas: uma japonesinha de dezenove aninhos e uma balzaqueaninha francesa.

 

Meu maior sucesso é um livro intitulado O Alpinista.

 

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─ Você verá, vou tocar em pleno centro de São Paulo. Minha música saindo em cinco mil alto-falantes e o povo gritando meu nome.

 

O filho da faxineira não diria “e uma multidão gritando meu nome”. Sonhava em ser popular. E efetivamente conseguiu. Veio para São Paulo e aqui fez, não apenas uma, mas várias apresentações no centro da cidade, com o povo alucinado cantando nossas parcerias. As canções que compomos em Fortaleza foram sucesso no país inteiro. Sua música é um verdadeiro agasalho para as minhas letras de fácil apelo popular.

 

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A brisa que vem do mar, o vento da praia do Futuro invade a sala de minha cobertura no trigésimo quinto andar do edifício no alto das Dunas. Sempre quis morar com vista para a praia do Futuro. Ainda bem jovem, morando na Cidade 2000 com meus pais, sonhava em morar num luxuoso apartamento com vista para o mar do Futuro. Meu sonho é hoje realidade, moro no lugar mais alto das Dunas. Moro não, na verdade possuo o mais valioso imóvel da área, minha residência oficial é um apartamento em Copacabana, e uma casa na França onde oficialmente escrevo meus bestsellers.

 

 Da janela do apartamento nas Dunas, o mar do meu futuro se abre até se perder de vista. E olhando agora, no exato momento, para a favela do Pau Fininho, vejo um cabeludo de jaqueta preta, com uma guitarra nas costas, no alto de um velho cajueiro.

 

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         Havia uma trilha conhecida apenas por nossa banda, Maresia do Rock – demos o nome à banda porque todos nós: Marcos Pé no baixo, Gê (se chamava Jeremias) na bateria, Cleiton na guitarra base, Ramon Seixas no vocal e na guitarra solo e eu, Tavares Raposa o compositor, frequentávamos as dunas da Praia do Futuro e adorávamos, tanto que a votação foi unânime, a enorme maresia que vinha do mar e roía nossos corpos –, que começava no início da favela do Pau Fininho, passava no muro da casa do governador, e ia dá, cortando caminho, na Praia do Futuro. Eu e Ramon fazíamos muito essa trilha. Foi nela que a ideia de montarmos a banda brotou. Nela também fizemos nossas parcerias de maior sucesso.

 

         Tá tão claro em minha memória: descíamos as dunas, nossos pés vencendo a areia macia e quente, cantarolando, criando versos e melodias, até chegarmos ao mar, com a canção pronta, tomarmos banho, rindo e olhando o céu.

 

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         Uma noite, vendendo Chegadinha, Ramon encontrou seu pai deitado na calçada de uma alameda da Cidade 2000. As alamedas tinham nomes de flores. Era a Alameda dos Cravos e seu pai estava semimorto. O laudo médico constatou coma alcoólico.

 

         Ramon se aproximou do pai que lhe sussurrou umas últimas palavras. O filho beijou a face do pai e continuou a vender Chegadinha tocando no triângulo, em homenagem ao pai, um sucesso do Roberto Carlos.

 

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         Foram cinco anos de parceria, em São Paulo, com Tavares Raposa. Isso depois que ele decidiu abrir a porta. Era engraçado vê-lo em processo de criação, ficava rodando em círculos na pequena sala do minúsculo apartamento no Bexiga, feito uma raposa atrás do próprio rabo.

 

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         A parceria com Ramon é a parte obscura de minha vida. Não sei o que nossas canções, que tocam no rádio até hoje, significam no sentido específico para o meu ser. E recuso-me a admitir que não tenham passado de um trampolim para minha carreira literária.

 

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         Afirmo que se houvesse uma magia capaz de fazer com que trocássemos de lugar, eu e Tavares Raposa nos submeteríamos a essa magia de bom grado. A verdade é que sempre invejamos um ao outro. Eu sou um escritor frustrado e o Raposa... Ah!

 

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         Ramon, o primogênito de Dona Lourdes dos Anjos. Os dois irmãos mais novos morreram ainda adolescentes. Os irmãos se marginalizaram e entraram na vida do crime. Um foi comparsa da polícia e o outro liderava o tráfico de drogas na favela do Pau Fininho. Os dois tiveram final trágico que abalou definitivamente a vida de Ramon. Um dos irmãos matou o outro na presença de Ramon. Poucos meses depois o que matou foi assassinado por um policial amigo do irmão falecido.

 

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         O pai de Raposa, Dr. Abelardo, defensor público, vivia se engraçando para a minha mãe. Sempre dava um jeito de roçar nela nos dias de faxina. Mamãe me contou isso exatamente no dia de minha partida para São Paulo, rumo ao endereço do apartamento de Raposa.

 

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         Sempre valorizei os sinais da vida. O sucesso e a fortuna que tenho devo às interpretações dos sinais que permeiam meu existir. Não tive dúvida nem receio, sequer remorso, quando me afastei totalmente de Ramon e da música. Tive um sonho, o mesmo sonho, por três noites: eu estava no meu velório, olhava meu corpo no caixão sob um solo intenso de guitarra, quem solava era Ramon Seixas, e de uma chuva de letras. Em vez de água, chovia letras sobre o caixão.

 

         O caminho estava claro. O ciclo música havia se fechado, era a hora do escritor mundialmente famoso e endinheirado.

 

27

 

         Era o único da banda que não bebia, o mais cabeludo e careta. Meu cabelo grande era o meu troféu. O conservava enorme numa espécie de compensação à minha caretice. E foi justamente no auge do meu cabelo grande, quando ele atingira o maior comprimento, que tudo aconteceu. Raposa e Marcos Pé, que dividiam o apartamento em São Paulo, vieram passar o Carnaval em Fortaleza. Maresia do Rock se reuniu e após uma apresentação na barraca, em plena terça-feira de Carnaval, Estação Futuro, na praia do Futuro, a turma começou a beber. Quem mais bebia eram o Pé e o Gê. Eu, que só bebia água de coco, Cleiton e Raposa, que bebiam rum, tentávamos compor uma canção. Marcos Pé e Gê, o Jeremias, estavam na cachaça.

 

         Pé falava animado, gesticulando, de sua vida em São Paulo. Jeremias, calado, não tirava os olhos do amigo. Pé tira a roupa, de cueca resolve tomar um banho de mar. Tentei em vão, o único àquela altura que estava sóbrio, demovê-lo da ideia maluca. Não teve jeito. Pé corre em direção ao mar, mergulha na primeira onda e desaparece. Foi a última vez que ouvi o baixo de Marcos Pé.

 

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         Para que rememorar a parceria com Ramon? As músicas estão todas aí! Fazem sucesso ainda hoje. São descobertas, a cada década, por novas gerações de ouvintes.

 

         Ramon Seixas morreu, bestamente, faz tempo. Por que será que ainda me apavora tanto? Olho para as ondas do mar do Futuro e vejo o passado. O passado brincando de ir e voltar, na beira da areia. Olho e vejo um mar de cabelos, ando, e é a pegada enorme de Marcos Pé que reconheço na areia da praia. Rememorar pra quê?

 

29

 

         Foi uma surpresa geral quando apareci no velório de Pé com a cabeça raspada. Todos sabiam que meu cabelo grande era minha carteira de identidade. Resolvi cortar em memória do falecido e em nome de minha insignificância. Queria que meu cabelo fosse o salva-vidas, que Marcos Pé se agarrasse nele e tivesse saído do mar com vida. Mas o mar, realmente, não tem cabelo.

 

30

 

         O apartamento ficou maior, e silencioso, sem o Pé. Aprendi a ver as coisas do lado bom. Agora podia escrever sossegado, sem o baixo de Pé, que ensaiava praticamente o dia inteiro, nos tímpanos. Escrevia o primeiro romance, O Alpinista, de autoajuda. E os sinais diziam que seria um sucesso, que o caminho era aquele tipo de literatura, já que meu livro de contos não dera certo.

 

31

 

         Fui criticado no seminário sobre Rock, organizado pela Associação Rock Ceará. Os roqueiros e a plateia em geral não entenderam a crítica que fiz à Jovem Guarda. No íntimo, nem eu concordava com o que falei. Estava apenas com saudade de meu pai. Ele não fora um pai presente, mas foi quem me deu todos os discos de rock. Por um momento achei que as canções da Jovem Guarda que o Roberto cantava fossem culpadas dele beber tanto.

 

32

 

         Nas orações sempre pedia para que meu filho Ramon tomasse outro rumo na vida, que largasse a história de rock. Mas o santo dele era forte. A cada dia via meu filho feliz em sua carreira de músico. Não gostei da ideia dele ir morar com o Raposa em São Paulo. Daquela família, apesar do Raposinha demonstrar simpatia por mim, não presta ninguém. Um bando de fingidos, isso é que são.

 

33

 

         Meu livro de autoajuda, O Alpinista, foi publicado por uma grande editora e em um mês vendera cem mil exemplares. Eu queria mais. Sonhava em vender milhões. E ninguém, nem mesmo um rústico tocador de triângulo, iria intervir na cifra.

 

34

 

         O solo de nosso quintal era fértil. As bananeiras e os mamoeiros viviam carregados. Mamãe, além da faxina, vendia doces de banana e de mamão. Adubávamos o quintal com titica de galinha. Criávamos duas dezenas de galinhas. Pardas, amarelas, brancas e marrons. Quando criança contemplava as galinhas. Suas cores, seus ovos e suas ninhadas exerciam em mim um fascínio sobrenatural. Nosso galo então! Um garboso e colorido galo, com matizes de vermelho e azul, uma entidade. Acreditem, seu cantar, nas manhãs, influenciou o meu rock.

 

35

 

         A verdade é que amava aquela mulata! Não entendo por que ela me difamou daquela forma. Nunca, nunca toquei num fio de cabelo dela. Meu amor sempre foi platônico. Acreditem, sou defensor público, um homem das leis. Mas não tenho, nessa história toda, do que me defender, ou acusar ninguém. Sobretudo, a mulher que sempre amei, e, acima de tudo, respeitei. A mãe de Ramon é uma Deusa para mim. A cor de sua cútis, suas pernas... Nunca vi par de pernas tão formosas. Quantas vezes cheguei atrasado ao Fórum porque me demorava no sofá de casa, na leitura do jornal, para com os olhos acima das notícias, arder de paixão, sonhando com aquelas pernas maravilhosas? Mas nunca, isso não, jamais toquei, mesmo involuntariamente, naquela pele tão desejada.

 

36

 

         Toquei novamente a campainha. Dessa vez percebi um olho a observar no olho mágico da porta. Passados alguns segundos o olho se afasta. Toco outra vez e nada. Pensei está no apartamento errado. 712. Não, não havia erro. Bato na porta. Nada. Raposa não abre o apartamento. O que fazer? Era o primeiro dia em São Paulo. Vim da rodoviária direto para o apê do Raposa, como havíamos combinado. Não conhecia ninguém. O jeito é procurar uma pousada. Pego a mala e a guitarra e desço as escadas. A Praça Roosevelt se abre à minha frente, sento num banco. Minha cabeça fervilha. O que vim fazer aqui? Olho para guitarra e num gesto automático, involuntário, começo a solar. Um homem com sua guitarra, sua arma, seu fuzil, em plena guerra. Uma guerra sem bandido e sem mocinho.

 

 

CLÁUDIO PORTELLA (Fortaleza, 1972) é escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Autor dos livros Bingo! (2003; segunda edição, 2015), Melhores Poemas Patativa do Assaré (2006; edição e-book, 2012), Crack (2009; segunda edição, 2015), fodaleza.com (2009), As Vísceras (2010), Cego Aderaldo (2010), o livro dos epigramas & outros poemas (2011), Net (2011), Os papéis que meus pais jogaram fora (2013), Cego Aderaldo: a vasta visão de um cantador (2013; edição e-book, 2014), Elíptico (2014), O livro das frases & outros diálogos (2014), Picos Hotel (2015), Fraturas de Relações Amorosas (2016), O panfleto das frases & demais textos (2016), Paraphoesia (2017), Melhores Poemas Torquato Neto (2018; também em e-book), Crônicas Velozes (2018), Melhores Frases, Sentenças e Pequenos Contos de Cláudio Portella (2018) e Maresia do Rock – Recriada parceria de Raul Seixas e Paulo Coelho (2019). Ganhou o concurso de conto da UBENY - União Brasileira de Escritores em Nova York.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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