ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Fabrício Marques


UM POETA CONTRA A INFINITA SURUBA CAPITALISTA    

Um leitor que se depare pela primeira vez com um poema de Sebastião Nunes fatalmente estranhará aquela mistura sem floreios de escatologia, sátira, ironia, escracho e humor em conluio com imagens e palavras cruas, a parafernália gráfica reunindo no mesmo espaço versos rudes e diretos ao lado de fotos, ilustrações, colagens e montagens.  O casamento de textos e imagens díspares, dissonantes, incombináveis, de forma que a leitura visual dos poemas resulte numa terceira via: uma forma poética aberta, passível de várias leituras, que resulta num todo ambíguo.  Uma ambigüidade que nasce dos choques frontais entre texto e imagem: atritos, colisões, explosões. É assim, tudo: seco, direto, enxuto, quase sempre trabalhando nos limites do humor satírico ou da elegia agressiva e grosseira. Vale o mesmo para as imagens, também despojadas, rudes, rústicas, grotescas: um cérebro roído por ratos, o riso de uma caveira. A despeito desse estranhamento, o eventual leitor saberá que está diante de algo novo.

 

Mineiro de Bocaiúva, nascido em 1938, Sebastião Nunes escreveu dez livros de poesia, de 1968 a 1989, que foram reunidos nas “Antologias Mamalucas”, em dois volumes programados visualmente pelo próprio autor, que também é artista gráfico. A partir daí, decretou o fim de sua produção poética e passou a considerar-se “ex-poeta” . De sua obra pode-se escolher três poemas representativos, que deem conta de seu modus operandi: “Serenata em B Menor”, “Enfisema pulmonar” e “Ode ao ponto final”.

 

“Enfisema pulmonar” é o último dos sete poemas de “Papéis higiênicos” (83/85) e, para mim, o melhor livro de Tião. “Fiquei impressionado demais com a virilidade (no sentido de vital) das tramas. Foi o manifesto mais provocativo que já vi contra a morte. Tem gente que acha que pode corromper a morte com agradinhos, festas, enfim, “poesia”. Você vai lá e toca-lhe a mão na cara”, escreveu Henfil, depois de lê-lo. Boa parte dos textos elege um personagem central: os poetas Ascânio Lopes e Augusto dos Anjos, o pintor Elias Augusto de Deus . A elegia rupestre “Enfisema pulmonar” gira em torno do pai do poeta, “o menor dos Nunes”, Levi Araújo. É um dos mais tocantes poemas da poesia brasileira. Como em um documentário que martela, na sequência de páginas, a reprodução insistente da foto em três por quatro de Levi, em variadas formas, ora faltando um pedaço, ora multiplicando-se, a “câmera” detém seu foco sobre o corpo no caixão, “algodoais no nariz” do “tímido noivo de vermes”. Em apenas 19 versos, toda uma vida passa diante dos olhos fatigados. A câmera desvia-se para o coveiro, que sua e pragueja: “antes ele do que eu”. E tudo se encerra com o dístico definitivo: “e então é verdade: então a vida não passa disto:/ um sopro: um cisco no olho: um sopro: e nada”. O sinal de dois pontos só acentua a vida em sobressaltos, truncada. A capina do tempo faz é devastadora e cruel.  É a “vida danificada” de que fala Adorno, no contexto de uma sociedade baseada na exploração, em que as pessoas são confrontadas a todo momento com o tédio e a aurea mediocritas de sua existência sem sentido. Ao mesmo tempo, é preciso resistir, mesmo que o fracasso esteja à frente.

 

“Serenata em B Menor” (78/79) pode ser vista como a recriação de reportagem em que as imagens de violência de uma cidade brasileira são contrastadas com pequenos textos  que têm como títulos locais do Rio de Janeiro (Avenida Atlântica, Avenida Vieira Souto etc). O que se passa nesses espaços? “belas bundas tropicais abanam”; “maconha cai do céu”; “a polícia saqueia os mortos”; “baiano enraba cearense”; “e etcetera e viceversa porque/ nessa infinita suruba capitalista/ quem pode fode e quem não pode/  dança.” Nunes promove, aqui, “a suruba alegórica entre poesia e morte”.  O poema se completa com fotos de um corpo caído no chão de uma rua qualquer de Sereno, pequena cidade mineira: é um registro um pouco à maneira de jornais que exploram crimes e notícias policiais. Na última página do poema lê-se o aviso discreto do poeta: “só enquanto recupero o fôlego”. Essa é a senha para que se entenda o texto como um poema confessional, por dois motivos, segundo Nunes: na época de criação do poema, ele estava sufocado pelo trabalho como publicitário em agências do Rio de Janeiro; e desenvolvera uma insuficiência respiratória bastante acentuada.

 

“Ode ao ponto final” é o poema que encerra “Inédito: Poesias” (85/87). O tom altamente irônico começa logo pela capa, que anuncia um livro “em estilo new romantic ou mesmo pornô nouveau, por Sebastunes Nião, um dos 10 mil candidats ao títul de “maior poet brasileir viv”, um dos 10 milhões de candidats ao Prêmio Nobel de Liberatur, um dos 10 melhores escritors de Bocaiúv, MG / e dedicados à Sra. Vagina Suxpirosa e a seu Nobre Esposo Azul da Prússia”.  Os erros de português, avisa o autor, não são erros de português. Muito menos as elipses datilográficas, que engolem letras. Também entregam, como nos exemplos anteriores, o gosto do autor por experimentação e rupturas, de qualquer ordem.  Se em seus primeiros trabalhos o predomínio é quase total de imagens, nos últimos, como nessa ode, a configuração privilegia mais o texto do que a imagem, ainda que, evidentemente, haja diálogo entre ambos. Neste Duchamp mameluco não há espaço para contemplação, para rodeios ou circunlóquios: “Cadê o futuro que estava aqui? Fodeu-se.” Nesse mesmo sentido, pode-se fazer, não por acaso, uma compararação. Chico Buarque canta, em “Passaredo”: “Ei, pintassilgo/ Oi, pintaroxo/ Melro, uirapuru (...) Bico calado/ Toma cuidado/ Que o homem vem aí/ O homem vem aí/ O homem vem aí”. “Sebastião Nunes urra: “ Sabiás, curiós e sofrês./ Sacis, caaporas, jecas-tatus. Todos tomando nos cus”.

 

O contato com poemas como esses dá a impressão de um cruzamento de várias linguagens: a tendência para o mórbido e para o pútrido, de Augusto dos Anjos. A aspereza e a secura de Graciliano Ramos. A mesma ênfase na denotação e no símile encontrada em João Cabral de Melo Neto. A truculência e o gosto pela crueza tal como Gregório de Matos (Se bem que o próprio Nunes vê um equívoco em vincularem sua poesia a uma tradição que remonta a Gregório de Matos, de quem diz ter lido pouquíssimo).

 

Essas aproximações foram notadas pelo poeta Sebastião Uchoa Leite, em uma carta a Sebastião Nunes, que havia lhe enviado “Papéis higiênicos”, em 1985. Uchoa Leite gostou “de tudo, a partir do arranjo visual do livro”. A carta resume adequadamente as características principais da poesia de Nunes: “Os códigos dialogam e produzem essa linguagem viva. Você é um poeta do impacto da denotação, da crueza que se liga às vezes à crueldade e à violência. Diz as coisas sem peias, com secura e dureza. Há mesmo um singular isomorfismo entre a língua verbal ‘truculenta’ e o impacto da realidade que ela refere. Dá a sensação de ser o produto de uma liga forte e não apenas um artifício ‘estético’”. Sobre “Enfisema pulmonar”, Leite ressalta o “estranhamento tocante em sua extrema secura”, remetendo-nos “ao universo de uma existência material e finita. Talvez desesperada por isso” (“grandes ilusões rastejam entre lagartixas”). E reserva um comentário para os demais poemas do livro: “Os outros me parecem textos faiscantes, a construção de um mundo dilacerado pela sintaxe dilacerada”.

 

         Ao arco de interesse ligado à palavra escrita, mencionado mais acima, soma-se outras referências a que podemos associar a poesia de Sebastião Nunes: Marcel Duchamp, Paul Klee, Juan Miró, Saul Steinberg, Millôr Fernandes. Com os concretistas, percebeu a dureza formal. Com os beatniks, a descontração.

 

Contudo, em meio a essas referências, encontrou seu próprio caminho, que lhe permitiu assinar não apenas os livros de poesia, mas outros cinco de ficção experimental e oito infanto-juvenis. Sem contar “Adão e Eva no paraíso amazônico” (2009), seu mais recente lançamento, de crônicas, entre as quase 300 que vem publicando no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, desde 2001.

 

         Alguns dos lances biográficos que protagonizou só reforçam a coerência com que este socialista anarquista utópico (em sua própria definição) conduz sua obra. Criou um movimento, logo depois extinto, chamado de atoísmo, sentiu na pele a ação da ditadura militar, quando gráficas recusaram publicar o poema “O suicídio do ator”, publicou a maioria de seus livros por processo de subscrição, editou um fake Mais! (suplemento semanal de arte e cultura da Folha de S. Paulo, substituído pelo Ilustríssima), lançou um livro (“Decálogo da Classe Média”) enviado pelo correio dentro de um pequeno caixão de defunto, viu a Secretaria de Cultura de Minas fechar um jornal institucional por ter publicado um poema satírico de sua autoria (“As rampas do palácio”), atacou os publicitários, escreveu livros para crianças tendo em mente que “criança não é um idiota pequeno, mas pode ser o projeto de um idiota grande”.Um motivo de comemoração: “História do Brasil”, uma legítima obra-prima, completa 20 anos agora, em 2012.

 

         Mas voltemos aos poemas. Neles, o autor exercita sua “estética da provocaçam”, em português arcaico mesmo. Uma estratégia para, como autêntico guerrilheiro cultural, pilhar, arriscar-se, atacar seus alvos preferidos: as elites (intelectual, econômica, política), as instituições, a classe média, a mídia, jornalistas, publicitários, escritores, poetas, sexo, religião, a noção de verdade (sempre sob suspeita), as estruturas de poder em um triste país periférico. Perguntem a Sebastião Nunes como ser um guerrilheiro em um mundo cada vez mais avesso a guerrilhas, e ele responderá: “não tenho regra nem método, cada trabalho é único e é totalmente diferente do anterior e do próximo. É isso que os termos [estética da provocaçam, guerrilha cultural] querem dizer, provocar o pensamento crítico, exigir o pensamento alerta, fugir de regras e de fórmulas”.

 

         Como bom (ou mau) guerrilheiro, ele prefere um assaltante a um banqueiro, um bêbado a um industrial e um pivete a um publicitário, pelo mesmo motivo que prefere um pobre a um rico, um pais do terceiro mundo a um do primeiro: “Porque banqueiros, industriais e publicitários vivem se borrando de medo todo o tempo, na defesa mesquinha de suas posses, do que ganharam furtando os pobres, já que toda propriedade é um roubo. Está certo que os pobres também vivem com medo, mas aí já é o medo da polícia, da violência e dos que estão lá em cima, mamando no poder”.

 

         Em uma entrevista, nessa mesma linha de raciocínio, lembrei ao autor de “Somos todos assassinos” que ele havia dito que “a história oficial é uma palhaçada” e que “o Direito é pura ficção a favor dos poderosos”. Para arrematar, disse o seguinte: “Como bacharel em Direito, aprendi que o Direito é imposto pela força. A lei é a lei de quem detém o poder. Todas as ditaduras mostram isso claramente e todos os regimes políticos mostram isso também. Democracia, por exemplo, é o direito de a maioria oprimir a minoria, ao mesmo tempo que a maioria é manipulada pela meia dúzia de poderosos que a controlam. Então não existe maioria nem democracia. Existe manipulação. Mas a realidade existe, e ela é a realidade da fome, da desigualdade social, da educação desigual, da cultura da violência e da droga imposta pelas elites contra os pobres. Os discursos só são falsos quando vão contra as evidências. Mas não a evidência mentirosa que a mídia instila, e sim a evidência da miséria”.

 

         Na mesma entrevista, provoquei Sebastião perguntando se ele concordava que o lirismo pode ter um lado grotesco. Ao que ele retrucou, invertendo a pergunta: “o grotesco tem muito de lírico. Veja o grotesco dos filmes de Fellini, por exemplo, um cara essencialmente lírico. Gosto muito do lirismo grotesco e não gosto nada do lirismo adocicado.”

 

         Uma forma de pensar a poesia de Sebastião Nunes é percebendo-a como partidária, em alguns momentos, desse grotesco por vezes lírico. É sob esse signo que ela aproxima imagens e textos que repousam nos livros, livros que esperam ser lidos, e que falam com tanta propriedade da morte, um jeito disfarçado de falar da vida, E, como diria Carlos Drummond de Andrade, a vida, quando se recolhe aos livros, é para voltar mais vida."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sebastião Nunes

Fabrício Marques

 

Fabrício Marques é poeta memorialista natural de Manhuaçu, no território Caparaó, Brasil. Trabalha a relação entre o homem e a máquina para dar corpo à sua poesia. Foi editor do Suplemento Literário de Minas Gerais em 2004. Publicou os seguintes livros de poesia: “Samplers” (Relume Dumará, 2000, Prêmios Culturais de Literatura do Estado da Bahia), “Meu pequeno fim” (Scriptum, 2002) e “A fera incompletude” (Dobra Editorial, 2011, finalista dos Prêmios Portugal Telecom e Jabuti). Também é autor de “Uma cidade se inventa” (Scriptum, 2015, finalista do Prêmio Jabuti), “Dez conversas” (entrevistas com poetas contemporâneos, edição bilíngue, Gutenberg, 2004, finalista do Prêmio Jabuti) e “Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski” (ensaio, Autêntica, 2001). Organizou, para a Editora da UFMG, “Sebastião Nunes” (2008) e “Papel Passado” (seleção de poemas de Libério Neves, 2013). Juntamente com Tarso de Melo, organizou a antologia digital “Inventar la felicidad. Muestra de poesía brasileña” (Vallejo & Co., 2016). Participa de antologias e festivais de poesia no Brasil e no exterior.
Sebastião Nunes nasceu em Bocaiuva, em 1938. É um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro. Publicou 19 livros de poesia e prosa para adultos. Em 1980, fundou a Edições Dubolso, com o objetivo principal de editar seus livros e de outros escritores, chegando a um total de mais ou menos 50 autores, em livros individuais ou antologias, numa época em que não existiam os sistemas de produção sob demanda e de baixas tiragens. O nome Dubolso explica-se pelo fato de que ele fazia toda a programação e o acompanhamento gráfico de graça, ficando por conta de cada autor pagar a gráfica e c
uidar da distribuição. Em 2018, às vésperas de completar 80 anos, completa também 50 anos de atuação marcante nas artes e na cultura brasileiras.
Em 2019 foram lançados dois livros editados pela Lote 42, “Um Caso Liquidado: Memórias e Desvarios de um Poeta Inacabado”, com textos inéditos do homenageado, e “Sebastião Nunes: Delirante Lucidez”, de Gustavo Piqueira, com uma análise sobre a obra do artista que originou  exposição homônima no Centro Cultural da Escola de Design da UEMG. Recebeu o Prêmio Governo de Minas Gerais pelo conjunto da obra.
Atualmente escreve aos domingos, no portal GGN, de São Paulo: http://jornalggn.com.br . Suas crônicas ali já renderam o livro “Começa a Envelhecer a Mulher mais Bela do Mundo”, publicado pela Dubolsinho em 2017 e deverão resultar em novo livro, ainda sem título. Prepara ainda outro trabalho de ficção experimental, “Discurso de Estocolmo”. A publicação de ambos está prevista para 2020.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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