ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: DO SISO AO RISO    

Uma vez foram perguntar ao grande cineasta Fellini, o que ele achava da frase que seu feroz rival Visconti afirmara, bombástica e provocativamente: “Todo mau diretor tem o nome terminado em “INI”. Fellini riu gostosamente e revidou com bom-humor: — “Isto só pode ser coisa do Viscontini"... O episódio me veio à tona quando ouvi um ator parodiar a mesma frase do Fellini, só que se referindo a um diretor de televisão brasileiro...

 

Alfinetadas (alheias) à parte, acho o humor essencial nas respostas a entrevistas, no trabalho, no dia a dia, e nas artes. Desde criança ouço o provérbio: "muito riso é sinal de pouco siso" (portanto, de alienação, de bobeira, de destrambelhamento, de estultice, de imaturidade). Começamos desta maneira nosso aprendizado para a tristeza; mas por quê precisa ser assim? Umberto Eco responde em "O Nome da Rosa", um livro filosófico (extremamente sério) que debate justamente o perigo do riso – na Idade Média, em um mosteiro beneditino –, censurado por ser capaz de desviar o foco religioso, de afrouxar a rigidez dogmática, de abrir uma brecha causando desmoronamento nos preceitos ortodoxos, o que para os ascetas moralistas levaria ao caos. Então, mais do que ameaça ou praga devastadora era pecado mortal, uma heresia. Anátema!!!

 

Muito riso. Mas como aferir o que seja muito ou pouco riso? Qual o critério? Quantos risos por dia caracterizariam o exagero? Às vezes, um só sorriso de zombaria causa grandes danos e estragos; ao contrário, apenas um único dirigido a um doente ou a um amigo triste pode fazer acontecer milagres. E, entre tantos tipos, que espécies de risada revelam a falta de juízo?... Em si, o riso não é pernicioso ou salutar: sendo um ato exclusivamente humano, como a fala, depende do momento e das circunstâncias em que ocorre. No ocultismo, o riso é força poderosa contra certos feitiços (lá vem cinema de novo: lembram-se, das “Bruxas de Eastwick”, dirigido por George Miller?); no nosso cotidiano, ele relaxa a tensão muscular, predispondo a pessoa a desarmar-se, ou, como diria Wilhelm Reich, a destensionar sua armadura corporal. Pode ser destrutivo, sim, porém, também sem ele não há lazer, recreio, festa, alegria, brincadeira, descontração.

 

No Brasil, rimos para não chorar em um período paradoxalmente muito mal-humorado (talvez e principalmente por isso). A partir de 1964, sobressaiu o humor negro dos cartuns, o humor corrosivo das charges, dos quadrinhos, das tiras, do FBAPA (Festival de Besteira que Assola o País, através do livro de autoria do jornalista Sérgio Porto). Esta prática também atingiu a poesia, conforme expôs Nicolas Behr, um dos representantes da Geração Mimeógrafo: "Sarcasmo sempre foi fundamental. Só ele tira este ranço de capitanias hereditárias e acaba com o discurso e com a retórica na poesia". Leminski também fala do "RIR", como característica desta poética que estreitou laços com a ironia e o senso de humor, considerada em geral, ainda, “estilo menor" em relação aos poemas intimistas, épicos ou dramáticos.

 

Infelizmente, quando uma sociedade prioriza a sobrevivência em detrimento da vivência plena, é compreensível que o riso, o sorriso, a leveza assustem e até sejam repreendidos, por quebrarem a severidade, a austeridade, a seriedade; mas quem precisa deles o tempo todo? É hora de respeitarmos a revolução emocional do riso, em vez de exaltarmos, como modelo, uma vida carrancuda e desprazerosa, embebida exclusivamente em lógica formal mantida em formol.

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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