ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Sérgio Sant’Anna


Dois contos inéditos    

Escrito num guardanapo

 

Nesse momento em que o álcool ainda não me encharcou.

 

O botequim só meio cheio, Já tem tempo que ela morreu,
mas agora estou feliz. Penso que afinal eu a tive por alguns meses. Uma preta velha me dizendo que depois de desencarnar a gente podia encarnar até num animal, até num inseto. E depois, em encarnações sucessivas, acabaria por viver tudo de novo nessa vida.


Ela morreu assassinada pelo cara que me sucedeu. Mas morta eu a amo ainda mais, pois não vai me trair no mundo. E espero aqui nesse botequim que também eu morra. Mas por que não esperar mais algum tempo? Não valho nada, mas sou todo o universo.

 

Lá fora dois tiros, mas ninguém aqui se importa.

 

Cheiro de fritura e de mijo. O balconista boceja. É ele mesmo quem serve as mesas.

 

Peço mais um cálice e observo os ventiladores de teto em volta do velho lampião. Mariposas voam em torno dele até que entram ali por um vão. Logo, logo, vão morrer chamuscadas. Mariposas suicidas. Hipnotizadas pela luz. E se uma delas for a minha amada? Deveria eu imitá-las, para encontrá-la? Seduzido por esse pensamento.

 

O pensamento do nada também me seduz. Desencarnar de todo e para sempre. De todo modo haverá os momentos em que terei vivido com ela. Mesmo que agora suado e com as roupas sujas. Peço mais uma. Os outros frequentadores não são melhores do que eu, cada um com a sua história encardida. Numa das mesas há uma mulher com três homens. De vez em quando soltam gargalhadas e adivinho que um deles soltou uma piada suja. Não gosto disso e peço para eles diminuírem o barulho. Na radiola fanha está tocando "Por una cabeza", de Gardel, e quero ouvir o tango que me emociona. Por uns instantes eles se calam e me lançam olhares hostis. E voltam a comer de boca aberta os seus pasteis gordurosos.

 

Vejo a lagartixa que desce vagarosamente das vigas e hipnotiza um papa-moscas. Este não leva a menor chance. E se a lagartixa for "ela", nua e sinuosa? Mas na outra mesa a coroa feia, com uma roupa de mocinha, de repente dá um grito, arrasta sua cadeira, se levanta, aponta para a lagartixa e grita: "Uma lagartixa."

 

Um dos homens que tira um dos sapatos, sobe numa cadeira e já vai esmagar a lagartixa. Com uma velocidade que eu não imaginava ter, pulo até a cadeira dele e o empurro com força. Ele se estatela no chão e geme, pode ter quebrado algum osso. Um dos amigos e a mulher vêm socorrê-lo, enquanto o terceiro homem se dirige até mim. Antes que ele me dê o primeiro murro, olho para a parede ao alto e a lagartixa desapareceu. Depois apanho muito, inclusive da mulher e, se não fosse um guarda chegar. podia até ter morrido. O guarda ameaça prender todo mundo.

 

Vou até o banheiro, olho-me no espelho e estou muito inchado e horrível. Também estou enjoado, debruço-me no vaso e vomito muito. Depois ainda sinto dores, mas o enjoo passou. Na porta está escrito: "dou o rabo e chupo pau". E um número de telefone que deve ser de algum desafeto de quem o escreveu, penso. Lavo meu rosto na pia, olho-me de novo no espelho e, apesar do rosto inchado, sorrio. Volto para a minha mesa, o pessoal da outra mesa agora fala baixo e não olha para mim. O guarda permanece à porta. Escrevo de novo no guardanapo, com a letra miudinha:"Ela escapou, ela escapou."

 

 

 

 

 

 

Eterno

 

Não bastasse ele fazer setenta e oito anos naquela data, o que antes parecia impensável, o país, o seu país, se deteriorava cada vez mais, com o seu presidente estúpido, ignorante e fascista e com boa parte do povo que o apoiava, a própria natureza fora exaurida até um ponto inacreditável, as árvores ceifadas, as florestas pegando fogo, matando os animais, os índios atacados, e os mares, as melhores praias, o oceano impregnado pelo óleo grosso e viscoso.

 

O que lhe restava se não olhar para o espaço, embora os trilhões de astros estivessem ocultos pela névoa? Mas lhe bastava saber que existiam. E ele se consolava contemplando o planeta Vênus, fiel todas as noites e ele pensava: eis que existe sem mim, em algum ponto do espaço ele está lá.

 

Uma outra perspectiva que se abria era a arte, a imaginação, a memória. Ele se sentia também fascinado em acompanhar os bichos pela televisão, mas tinha de reconhecer que era um devorar sem fim, impiedoso, muitos filhotes que não vingavam.

 

Nervosamente, começou a zapear na TV e passou por um canal que acabara de mostrar um programa com Jim Morrison & The Doors e lamentou que já fossem os créditos, mas junto com os letreiros ainda havia a imagem de Morrison cantando "Light My Fire" e ele se arrepiou todo. Jim Morrison belo e imortal como um deus e com o seu olhar fixo adiante, contemplando o infinito dentro de si mesmo.

 

Morrison que morrera, provavelmente drogado, numa banheira, aos vinte e sete anos, mas ele o invejou.

 

Ele, o artista-escritor, se atirou também no passado, indo para a praia com a jovem atriz dirigindo o carro, ele bebendo uísque e a moça com um baseado na mão e Jim Morrison cantando no toca-fitas. E eles dois trocavam, o copo para a moça, o baseado pra ele, eles haviam passado a noite assim, bebendo e fumando maconha e trepando, e agora na rua a realidade parecia irreal. Ou ao contrário muito real. A moça vestira apenas a camiseta e ele a sunga e pararam de qualquer modo na fila dupla, pularam para a areia, tropeçando.

 

Foram andando em direção à água e, a meio caminho, ele a ergueu e a pôs deitada em seus braços, carregou-a e a depositou de costas no mar, era um tempo de liberdade e ele a beijou e acariciou seus seios. Depois ele a trouxe de volta e no toca-fitas do carro Jim Morrison continuava a cantar, agora "The end, this is the end", a canção apocalíptica, mesmo quando ninguém o estivera escutando, eterno.

 

 

SÉRGIO SANT'ANNA nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. Venceu quatro vezes o prêmio Jabuti, três vezes o APCA e uma vez o prêmio da Biblioteca Nacional. Sua obra foi traduzida para o alemão, o italiano, o francês e o tcheco, além de ter sido adaptada para o cinema.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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