ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

José Arrabal


As palavras podres    

Naquela cidade havia no coração da cidade a estátua de um gigante tal qual uma grande estrela sobre um alto pedestal, estrela de quatro pontas, em cada ponta uma letra de idioma esquecido, nas duas pernas abertas, nos dois braços levantados do imponente monumento, sombra envolvendo a cidade determinando destinos. 

 

O povo lá do lugar ia três vezes por dia à praça do gigante. Prestava suas reverências ao sagrado deus de pedra e prosseguia sua vida com esse ato secular, remota obrigação, mandamento registrado num antigo pergaminho em língua há muito perdida, sendo a oração bordada com finos fios de linho devidamente entranhados nesse eterno pergaminho de origem desconhecida, escondido das pessoas, mas sempre obedecido por toda a população crente com ardente fé nessa sua saudação.    

 

A sombra do monumento atravessava a cidade, indo de ponta a ponta, vasta nuvem sempre escura e todos lá do lugar, com promessas e esperanças, pediam tudo à estátua mesmo jamais conseguindo o que se quer conseguir, uns falando para outros “não é tempo, não é vez” e outros falando ainda “não é bem a ocasião”, mais a grande maioria dessa população, num balançar de cabeças em sinal de concordância, para um dito, quando não, para outro dito também, e desse modo viviam sob a sombra do gigante, crepúsculo evidente com sabor de frustração.

 

Eis que em certo amanhecer, montado no seu galope, num cavalo de bom porte, um jovem de outras terras adentrou nesse lugar com gritos à multidão sem mais cessar de gritar “help me toquem help, help me toquem help, help me toquem help”. 

 

Não sabendo o que fazer para atender ao rapaz, uns e outros mais deixaram que ele ouvisse canção de nome assemelhado, o que ouviu várias vezes e bem mais vezes gritou “help me toquem help, help me toquem help, help me toquem help”. 

 

Houve ainda quem trouxesse outras canções similares, o que não cessou os gritos do jovem na cavalgada. Também trouxeram regalos, vinho, sal e temperos à tensão do aventureiro certamente à procura de alguma nova história para outra história viver – o que ninguém percebia, imaginava ou sabia - sendo conforme chegou cavalgando com seus gritos, em seu cavalo, aflito, índio, amante, guerreiro que veio àquela cidade na manhã daquele dia.

 

Ninguém já mais entendia o que o jovem desejava com esse jogo de palavras gritadas em cavalgada e a cidade reunida, lá na praça do gigante com seus braços levantados e suas pernas abertas firmes no pedestal sombreando o lugar, mais assustada ficou com outros gritos do moço avançando em seu desejo: “Eu quero em toda a história fazer história sem sina, sem essa carnificina dessa sina na aventura, violando violeiro as regras deste lugar. Help me toquem help! Help se toquem help! Multipliquemos a vida para ser bem vivida plenamente iluminada sem as sombras na existência”.

 

O povo todo na praça já um tanto apavorado não vendo em seu destino o cavaleiro guerreiro sem mais nada adiantar, muito menos alcançar o que queria o rapaz, pôs-se a entabular: “Se aparece fortuna ou princesa encantada, ele em seu percurso cessava essa amolação”.  Lá na praça do gigante. O que não apareceu nem jamais aconteceu...
...pois, expondo sua procura sem apear do cavalo, o jovem bem mais gritava lá na praça da cidade.

 

Mas que história você traz e que história quer levar”, clama o povo do lugar num desespero sem fim com os gritos do cavaleiro. 

 

E ele, no cavalgar, cavalgar, mais cavalgar, em meio ao que gritava, diante de todo o povo, sempre e sempre repetia “help me toquem help!”, sob a estátua do gigante pousando nele o olhar.

 

Eis que então com seu olhar, justo olhar de ver olhar, vê na estátua do gigante, o “help” talvez por lá. 

 

Sem mais tardar entretanto nota que o monumento sombreia seu corpo inteiro com sombra sobre seus braços e também sobre as suas pernas, no cavalo em que cavalga sua vida viajante. 

 

Bem logo após perceber o seu corpo sombreado, entende que o gigante pretende ser seu senhor, ocupar todo o seu eu, impedir que ele alcance a história desejada, plena luz em sua vida.

 

Surpreende todo o povo ao deixar aquela praça indo através da cidade num galope sem parar. Atravessa suas ruas, ruelas e avenidas, cavalga suas distâncias, ora alcançando um canto, ora outro canto alcançando, à procura de canção que iluminasse a estrada de suas ansiedades.

 

Cavalgada, claro, em vão, sob a sombra do gigante. 

 

Logo retorna à praça. 

 

Diante do monumento decide o que fazer.

 

Sem apear do cavalo, pega uma corda que traz, corda com que desperta acorde dele na mão. Faz na corda um forte laço. Lança no ar esse laço que alcança o gigante, laça seu corpo de pedra.

 

Aperta e puxa essa corda sem cessar de cavalgar.

 

Com a corda no lugar, ele puxa para cá, mas o gigante reage, resiste a seu puxão. 

 

Ele puxa de novo: “Desta vez eu vou puxar bem mais forte do que o ar!” – pensa, sem desistir. 

 

A estátua se contorce, aos poucos cede e assim tomba, cai de vez em plena praça.

 

Seu corpo de pedra dura se esborracha no chão em meio à população com o povo todo ferido por tamanha irreverência, ferida agora presente nessa gente escurecida pela sombra do gigante, com o gigante derrubado, seu corpo de pedra agora um corpo todo quebrado, pó de pedra esfarelado...
...e todos lá na cidade nada de nada entendendo, sem a sombra se perdendo.

 

O cavaleiro montado em seu cavalo cavalga firme e vitorioso ao redor de sua façanha.

 

Grita para todo o povo:  
-“Venham de vez comigo nessa nova viagem além do ventre rachado dessa maldita estátua, gigante que derrubei e clareei sua sombra que não mais nos escurece, tendo luz no dia-a-dia para encontrar desde já o que sempre procurei! Cuidem de me seguir para onde quero ir!

 

Ninguém, porém, foi além do medo na ocasião. 

 

Toda a multidão de gente, de pé na praça perdida, sem saber o que fazer, recusou-se a atender à convocação do moço que por lá permaneceu insistente com seu grito de incansável guerreiro. 

 

Eis que então aconteceu algo jamais esperado, pois da queda do gigante, de seu ventre rachado, dessas suas entranhas - entranhas tão entranhadas da estátua esborrachada, destrincadas desse ventre, buraco e triste destino de desfeliz esperança na história intestino das pessoas do lugar - principiaram a sair palavras e mais palavras e mais palavras palavras, palavras apalavradas por palavras mais palavras palavras assim saídas, saídas e assim jogadas, montoeiras de palavras, palavras empudoradas, pudorentas, fedorentas, palavras sempre palavras na asneira das palavras, tudo palavra cifrada, vendida ou já comprada...
...troca troca com palavras das entranhas dessa estátua, dessa estátua dessa lenda que, se é triste, é engraçada, lenda jamais pensada, palavras amontoando em palavras montoadas, uma enchente de palavras, palavras todas dentadas, palavras tudo facada com a cidade inundada por um lodo de palavras, palavrio apodrecendo, palavras assim fedendo:
Mas eu não sei que fedelho, que fedentina de espelho essa estátua derrubou” - diz a cidade assustada em cochichos e buchichos, já bastante empalavrada nas palavras soterrada...
...velha cidade perdida num blá blá blá que é de nada, nos grupinhos dos grupões, nos grupelhos dos grupais, gente que fala demais, no falando não dizendo, o povo da mascarada, por medo sempre vivendo sob a sombra do gigante, trama que tanto acontece na mais comum convivência... 
...e, na cidade inundada de palavras palavradas em fedentina fedendo, em tudo mais tudo era inundação de palavras com o gigante já no chão, palavras dele saindo...
...e o povo das palavras, nesse ar apodrecido de intimidades perdidas, igualdades esquecidas sem viva fraternidade nas ruas e avenidas de novo clama e reclama, obediente ao costume da vida no dia-a-dia: “Eu te quero, não te quero, te quero mais não te quero, no que eu quero o meu não quero, quero não quero quero, por palavras minha vida para ter o que é meu e não será nunca seu!” 

 

É só o que diz o povo, diz conforme sempre diz, em conversas de uns e outros diante do que acontece...
...mesmo em meio à fedentina da estátua vomitando só palavras de seu ventre, de sua história intestino....
...e, com o seu olhar de ver o que então acontecia, o rebelde, que ousara iluminar a cidade antes toda sombreada, observa tais palavras que formam um lodo grosso sobre os jardins, os pomares, nas calçadas e nas portas, mesmo dentro das casas, de seus quartos e banheiros, nos botecos mais vividos, mesmo em bares de amigos, as palavras inundando, um lodo da cor do sangue do prazer fazendo mangue de palavras pelo chão, dois palmos de lodo então, três palmos de lodo então, no chão todo um lodaçal, todo um lodo de palavras nessa lenda dessa história se é que a minha memória não falha, não falha, não...
...essa asneira de palavras, uma grande montoeira, em tudo, tudo palavras, e ao povo, se vivendo conforme antes vivia, só palavras mais valendo com isso representar, falar e matraquear, com tanta pose posar sem saber se libertar da vida na escuridão.

 

Já na cidade inundada com a fedentina no ar, promessas apalavradas, tanto agora, tanto antes: “Espere por esperar, pois quanto eu te quero dar e quanto mais te doar e mais te quero ensinar, gritar e conceituar com palavras coroar e de ti tudo tomar: eu não sei o que de mim você mais pode esperar” (endiabradas palavras ditas a toda hora, palavras apodrecidas palavrada apalavrada na teoria arrumada, existência escurecida, assim antes com o gigante de pé em seu pedestal, assim agora também, mesmo vencido o gigante). 

 

A cidade já sem sombras, mas ali só palavrada, uma cidade atolada e o jovem em cavalgada agora querendo ar para se retirar, de lá deixar as porteiras daquela inundação, daquele cheiro de asco de tantas palavras podres no chão apalavrinhado.

 

Eis que então percebeu que, sem qualquer cerimônia, feito criança de berço, não precisava temer o que era se perder. 

 

Por todo esse lodaçal de palavras patinava, sem medo de caminhar, sendo aí que entendeu adonde ia chegar com a sola dos seus dois pés patinando nas palavras...
...quando ele mais se sente já mascando essa semente de tudo o que acontecia, ele, no seu dia a dia (não havendo delegado, nem prefeito da cidade, padre ou autoridade que conseguisse impedir a inundação de palavras de mau cheiro alastrada), ele, por cima delas, além do que lhe diziam, tendo seus pés patinando, brincava feito um coelho com as palavras do gigante derrubado em plena praça.  

 

Já o povo, assustado, o pessoal da cidade, nas palavras se atolava, nesse mau cheiro afundava, enquanto ele patinava feito brasa voadora, ele não querendo nada, só brincar de patinar mesmo gritando “help” mais por livre fantasia, brincando de patinar, na brincadeira até mesmo, a cavalo ou apeado, se conseguia voar, ia e vinha, ora no ar, ora no chão do lugar.

 

Só por ele patinar livre do lodaçal de palavras dessa vida, de repente cada dente das pessoas na cidade nele vê o diferente. Nisto um dedo apressado e outro dedo apontado, mais de uma porção de gente, começam a acusar, principiam a culpar, a gritar e perseguir aquele que é diferente, o valente guerreiro que derrubara o gigante, trouxera luz para o povo.

 

Já na frente dessa gente corre o moço patinando no manguezal de palavras. Mostra seu coração, mostra seus pés no chão, dizendo sem só falar, dizendo sem só posar. 

 

Transparente feito o ar, só quer mesmo cavalgar, cavalgar, mais cavalgar, procurando se encontrar enquanto é perseguido pela cidade afundada em montanhas de palavras, lama que invade as ruas, ladeiras e avenidas, templos e residências.  

 

Prossegue assim a corrida, a caçada ao cavaleiro.

 

Sem se deixar pegar, o jovem grita e mais grita, tudo em vão de onde está: - “Que tal um de igual pra igual, cada um no cada qual sem a sombra do gigante!” 

 

Surdo o povo não escuta esse jovem viajante que distante do lugar já procura outra estrada, bem para além das palavras daquela triste cidade e de seu povo perdido em palavras atolado. Estrada que ele não sabe onde encontrará...
...outra história certamente que merece ser contada em ocasião de vida, sem a sombra do gigante e suas palavras podres, num tempo de em tão por vir...

 

SP/BR

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Paulinas Editora), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora), “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2014). Blog: http://josearrabal.blogspot.com.br/

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Novembro de 2019:

Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR