ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Nilo da Silva Lima


E a poesia se faz carne: anotações sobre a poesia de Maria Ângela de Araújo Resende    

Confessa Harold Bloom em, A anatomia da influência: literatura como modo de vida (2013), que a crítica literária, como ele entende e pretende realizar, há que ser feita com paixão. Paixão pela literatura, paixão pela vida, paixão pela poesia, paixão pelos poetas que ama. E traz para a crítica literária um olhar que, também movido por essa paixão, pensa poeticamente o pensamento poético.

 

É a luz da vertente dessa paixão por pensar poeticamente a poesia de Maria Ângela de Araújo Resende que desejo para essa visitação inicial.

 

Não sei explicar porque essas coisas acontecem. Elas acontecem. Especificamente, quero me referir, a princípio, a duas pessoas, duas poetas – Ana Cristina Cesar e Maria Ângela de Araújo Resende, para abordar, em especial, aqui, a poesia (fragmentos) da poesia de Maria Ângela. Pra mim elas são, se é que se possa pensar assim, a corporificação de que a Poesia é incapaz. A poesia não tem corpo, senão o corpo da palavra? Por vezes, desejamos, romanticamente, que a poesia tenha corpo (não há pecado nisso há? – pecado?). Talvez seja querer demais para a poesia. Ou desejar para ela o que não interesse à sua essência, quando se pensa que está dando muito à poesia, e, na verdade, se está retirando dela essa essência. Como se a poesia encarnasse, de fato, o verbo, a palavra, o corpo poético, na carne, no corpo físico, histórico e idealizado dessas duas mulheres e poetas. A poesia se faz carne.

 

Como se a poesia fosse elas. Pudesse ser elas. (Isso não tem a ver com a leitura em si da poesia de Maria Ângela, nem teria, claro a ver com uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar). Há um mistério, um encantamento, um desejo, uma invenção que não acredito esteja apenas em mim. Nos meus olhos. No jeito com que olho pra elas, sem conseguir olhá-las de outra forma. No jeito com que permito essa superfície do corpo na leitura da poesia delas.

 

A linguagem poética na consistência do corpo delas. Delicado, em que a sensualidade adquire a força e a precisão femininas com o que sempre se identifica à poesia – fazer poético, criação de linguagem, de vida, de verbo e carne. A poesia se faz com o corpo todo. Afinal, diz Walt Whitman (2005): “a alma não é maior que o corpo [...] o corpo não é maior que a alma” (p.125). Os poetas precisam desse despojamento incondicional que a entrega à poesia exige, e dessa ambiguidade, uma vez que o poeta é, portanto, “poeta do corpo e da alma” (p.71).

 

Por outro lado, a poesia não é um jorro inesgotável que sai inundando o mundo. Pelo contrário, o seu ser é sempre comedido em correntezas e ecos. Não em vozes. Da ordem do simples e do essencial. Sua correnteza prescinde dos imensos e caudalosos volumes e se atenta aos pequenos fluxos que resistem, isolados, mas por toda extensão da linguagem. À sede enorme do chão, dos cadernos, do tempo, que, evocando Graciliano Ramos, na travessia pela aridez nordestina de Fabiano, a pino sol, que ainda chupa os açudes (RAMOS, 1964.p. 137).

 

Mesmo a obra poética de Ana Cristina Cesar não sendo, do ponto de vista da quantidade e, sobretudo de uma quantidade publicada, tão volumosa, apesar do destaque recente que tem recebido, tanto da crítica quanto do leitor, ela supera a poesia de Maria Ângela, por esse aspecto, posto que o objeto poético dessa teimosa leitura inicial da poesia de Maria Ângela, constitui-se de alguns poucos poemas, que ela tem ousado publicar pela internet, em sua página de rede social. Portanto, mínima, desse fluxo menor que caracteriza sempre a poesia.

 

Há o risco, claro, de não se atentar, nessa leitura, para a multiplicidade, a força, as conexões e a consistência da poesia de Maria Ângela, tomada por esses núcleos legíveis. Assumo esse risco. Por outro lado, ainda na metáfora da água, do rio, de que essa leitura que se apropria, mesmo que não se mergulhe a grande profundidade, encharque-se de corpo e alma, é possível que sirva à sede que, mesmo mais necessária, pode ser que exija menos volume do que os mergulhos ou os banhos demorados.

 

E é a partir dessa certeza e riscos que se propõe a leitura dessa coletânea de poemas da Maria Ângela.

 

Começo pelo “fim”, porque tomo o último poema que ela publica. Fragmento de fragmento poético: “Na manhã de hoje, ouvindo o poeta, uma borboleta nos visita”. Esse poema, certamente, pensado enquanto poema, foi publicado quase como mero comentário de uma foto mostrando uma borboleta colorida numa janela aberta para o mundo, porque aberta para o quintal. O quintal é a porta de abertura para o mundo. Passagem e chegada continuada no mundo. O quintal de um poeta é sempre maior do que o mundo?

 

A simplicidade poética de que se constitui. Há quem diga que isso não tem nada a ver com poesia. Pode ser que não tenha. Mas a poesia está onde? Define-se pelo quê? Evoco, mais uma vez, a lição de Mallarmé, na dicção de poetas como Manuel Bandeira e Manoel de Barros, que podem ser um dos poetas que ela ouve enquanto a borboleta transita pela janela quotidiana do quintal. Quem sabe Bashô, a quem o poema, um haikai, transvertido de uma frase sintática despojada da forma poética, certamente traz à memória poética do poema. Poéticas caras e em sintonia com o pensamento poético de Maria Ângela, talvez mais do que com a poesia, propriamente dita, que diz que a poesia está em tudo, nas coisas lógicas e nas disparatadas. Está nesse poema, sem dúvida, de sua simplicidade. O simples não é um descuido, uma imperícia de iniciante. Pelo contrário, trata-se do derradeiro grau das artes, e, por conseguinte, do rigor maior da poesia. Walt Whitman, no prefácio de Folhas de relva (2005) se refere à simplicidade dizendo que: “A arte das artes, a glória da expressão e os raios solares da luz das letras estão na simplicidade. Nada é melhor do que a simplicidade” (2005, p. 23).

 

Por que o encantamento por esse poema para iniciar essa caminhada, esse passeio inaugural pelos bosques da poesia de Maria Ângela? Pela simplicidade com que, ao mesmo tempo, convida e arrebata para os caminhos, os fluxos de sua poesia, que não se revela, senão nesse contato, nesse colocar e colar o corpo, a alma e o desejo nesses fragmentos permitidos. Pela delicada linha que reúne, numa mesma escrita, a visita da borboleta, colorida, destoando e mentindo as cores rotineiras emperradas nos olhos e nos sentidos, e o que o poeta diz, canta. Como se fosse compondo uma sintonia entre a voz do poeta, o voo e a visita da borboleta nessa hora em que o dia se inicia, e se abre para o mundo, para a cidade e para o homem.

 

Pensem no livro O meu quintal é maior do que o mundo (2015), de Manoel de Barros. É provável que ele e que a sua poesia sejam o pensamento poético a mover esse poema da Maria Ângela.

 

Semelhantemente, na manhã dessa visita à poesia de Maria Ângela, embora com a visita da borboleta apenas no poema, predisponho-me a ouvir a poeta.

 

Os primeiros poemas que li de Maria Ângela são de antes da aparição de seus poemas publicados nas redes sociais. Trata-se de um livro artesanal do I Encontro Universitário de Poesia de São João del-Rei, promovido pelo Diretório Acadêmico São Tomás de Aquino, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São João del-Rei, impresso pela gráfica da APAE, em 1982, conforme se depreende do texto de apresentação, do jornalista Adenor Simões Coelho Filho, redator chefe do jornal Ponte da Cadeia. Uma publicação artesanal, um livro pequeno, fino, de folhas encardidas, descartado numa estante da Livraria Ponto Literário, no Centro de São João del-Rei, com poemas de 12 (doze) poetas, jovens estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São João del-Rei, dentre eles, Maria Ângela, que participa da edição com dois poemas: “Ao meu amigo poeta” e “Cicatriz”. O livro não traz as páginas numeradas.

 

É possível que essa não seja a primeira publicação de fragmentos da poesia de Maria Ângela. Porém, tenho certa paixão por esse livro. Primeiro, pelo seu resgate dos bastidores do acervo de literatura da Livraria Ponto Literário. Segundo, por se tratar de publicação de jovens, estudantes, poetas. Não são iniciantes, mas jovens poetas. Nunca se sabe quando se dá o início, propriamente dito, de um poeta. Quando vê ele já escreve uma vida toda.

 

Os dois poemas são bons. Contêm o esboço do eco do que será o tom da voz e das vozes de poesia de Maria Ângela: a sua paixão pela liberdade. Liberdade de ser, de amar, de viver, de criar, de delirar a linguagem para fora de seus sulcos costumeiros, de suas rotinas linguísticas e poéticas, como Deleuze diz em Crítica e clínica (1997, p. 7). Maria Ângela é poeta por essa sua paixão pela liberdade. Por resistência ao que “obriga a não sonhar”. Nesse sentido é que o poema “Cicatriz” parece conter e ecoar com mais precisão essa voz libertária da poesia de Maria Ângela. O seu “amor imortal pela liberdade” (2005, p.11) reiterando a citação de Walt Whitman que não sei se Maria Ângela lê. Possivelmente, posto que quase todos os poetas, de uma forma ou de outra, concebem Whitman como uma fonte imprescindível da poesia contemporânea, sobretudo quanto ao aspecto da liberdade, tornando-se, assim, mais do que uma mera influência, uma leitura, um estudo, uma paixão continuada aos que fazem poesia e aos que também ou apenas se dedicam a pensar poeticamente o pensamento poético, que outra coisa não me parece do que também um dedicado fazer poético.

 

Daí esse olhar que insiste ler na poesia de Maria Ângela, em especial nesse seu amor incondicional à liberdade vestígios poéticos de Walt Whitman a quem a liberdade, distinguem-se como um dos mais preciosos elementos de sua poética e do que se confia aos poetas: “... a liberdade é confiada a eles e eles devem sustentá-la. Nada tem procedência sobre ela e nada deve deturpá-la ou degradá-la” (2005, p.29).

 

Não é inconsequentemente que Harold Bloom (2013, p. 16) diz ser “enganosa toda tentativa de separação entre vida e literatura”, posto que a literatura seja modo de vida. O que não significa pressupor que a literatura seja representação ou cópia da vida. Um poema publicado em 1982, cujo título é cicatriz, criação de uma jovem poeta num contexto em que a resistência, a luta renhida pela liberdade, pela libertação está no palco da história e da linguagem, ambas estancadas, amordaçadas, reprimidas pelas praças, pelas ruas, pela vida, pelo cânone literário. Num acúmulo de poeira no coração do século XX, como canta a poeta. Essa poeira reúne em si todo sofrimento, toda mágoa, todo cerceamento, toda repressão que envolve os dias e os caminhos dessa época.

 

Ao mesmo tempo, essa cicatriz no corpo, na alma, na escrita, na poesia de uma jovem poeta acena para a possibilidade de alguma esperança que acalente o pranto do homem, que acredita e constrói a paz que continua sendo embriagada, envenenada, silenciada, nos becos da noite, na agonia do desejo. A insubmissão castiga o corpo com a mordaça, com as feridas, com o silêncio imposto. Castiga a poesia, que é resistência, não com o silêncio, ao contrário, com a saturação de um discurso que se lhe atribui, com o que se deseja identificá-la como um ato em si, uma escrita, uma criação, uma atitude de pessoas alienadas, sem compromisso com a história e o país, arraigada a uma loucura que querem fazer crer pertencer à literatura, à arte que não são, senão resistência, insubmissão.

 

A cicatriz é testemunha legível desse estado de estilhaçamento que o homem, as cidades, o país, a arte e a poesia enfrentam diariamente.

 

Depois é que vêm os poemas publicados, em pouca quantidade e com intervalos significativos entre essa publicação, em sua página pelas redes sociais. Os poetas ainda têm certa desconfiança da pertinência desse meio de publicidade para a poesia.

 

Os poemas demonstram o rigor formal dos versos contemporâneos. Livres, porém, de forma a libertar mais a poeta e a poesia do que uma mera insubordinação formal. O ritmo pulsa, pelos cortes do verso, o estado físico de uma linguagem em plena ação de resistência, de busca, de invenção de caminhos por entre frases rotas e becos fechados, proibidos. O ritmo é um tipo de cartografia ou de cartografar fugas dessas praças que se bifurcam pelas cidades, pelos dias, pelo país. Por isso são curtos, exatos, fragmentos (estilhaços?). Não têm raízes. Não criam eixos. Fazem conexões. Múltiplas. Traçam trajetos de fugas. Cartografias de desterritorialização. Substantivos cortantes, como lâminas de resistência pela arte.

fuga
pássaros mortos
na praça
velas tortas
no porto
frases rotas
no prato
apresso

passo
parto.

m. angela – 1986

 

A inseparabilidade entre vida e literatura não desautoriza a desconfiança, em poesia, de datas que constam da própria carne do poema. Vergões legíveis, porém, invisíveis aos olhos, às mãos, ao corpo. O poema é datado de 1986, o que implica, quase de imediato, não resistir ou a resistir menos possível à tentação de conexão entre a biografia da poeta e o cenário histórico dos longos,  dolorosos, e ainda não superados, anos de ditadura militar.

 

A promessa que se revela mais engodo do que um esforço efetivo, político e histórico pela redemocratização, apropria-se do tempo cronológico desse poema (o que não determina nem garante que ele tenha sido escrito em 1986). Também não desautoriza nem torna apócrifo o olhar que enxerga nele a corporeidade desse tempo para a encenação do período difícil, triste e doloroso que se prolonga. Por isso a fuga.

 

Fugir, não numa atitude covarde, pelo contrário, fugir, arrastar a pátria, os dias a céus cinza, de corpo triturado sangrando pelas ruas e silenciado pelos cômodos das casas ou pelos becos das cidades para um novo tempo. Abrir no corpo da pedra dos dias um lugar em que os corpos, as cidades, o homem e a linguagem poética, em cicatrizes, ou pelo menos marcados por essas cicatrizes, possam desejar e sonhar dias de primavera, céus azuis de abril, flores, liberdade.

 

Fugir, não dessas ruas, mas fugir essas ruas, esse tempo em que as praças estão repletas de pássaros mortos, em que os altares e os corpos, o amor e a paixão estão imersos em úmida escuridão, na úmida escuridão dos porões que tomam os dias, as praças, os lares.

 

Fugir desses dias, em que a poesia, mais do que o poeta, coagula-se lambuzada de sangue estática no porto, de rotas frases no prato da página e do corpo do tempo.

 

Fugir, apertar o passo, levar os dias, os homens, a pátria para outro tempo; tempo dos caminhos abertos na pedra, que são a utopia do poeta e da poesia. Entretanto, não são desvarios inúteis.

 

Por outro lado, cabe agora perguntar – para que lugar, tempo e dias arrastamos aqueles dias? Que céus fazem hoje por aqui? Que vestidos estendemos pelos quintais? As ruas, as cidades, os jardins, enfim, o coração do homem, o que sentem, o que partilham, o que herdam e o que ofertam em herança?

Sonho
um sonho rural
numa madrugada qualquer.
Ouço Lady Jane
e respiro ainda
o cheiro dos esgotos 
no chão.
Da rua
um gosto vazio
invade 
meu sono de moça.
m.angela

 

Tudo se mistura nesse poema, reiterando o cenário de certa desolação diante da vida que se impõe. Há uma desconfiança na voz do sujeito, eu-lírico a se "confessar" no poema. Imagino dois tempos, em que um não anula o outro, mesmo que não se completem. Um, o tempo da mulher despertada da menina de seu sono de moça. O outro, o da moça que, de fato, é despertada pelas insubordinações que ecoam na voz do poema. Uma longa história, no exímio espaço de um poema mínimo.

 

 Insisto na ideia de que “às vezes nem é o caso de usar palavras” – tantas palavras. O gosto vazio que ambos os sujeitos poéticos sentem à flor da língua são frutos originados da insubordinação que ruína o tempo: a ambição, as paixões, os ciúmes, o afã pelo poder – podres poderes. Daí, o cheiro dos esgotos vindo desse chão contaminado, como o cenário ardiloso de que Lady Jane se vê vítima, em seu reinado de nove dias, semelhante à menina com as ruínas de seu sonho rural, eivado de paz, amor, liberdade, oportunidade, encantamento, maculado pelo cheiro de esgotos e pelo gosto vazio vindos das ruas. Menina, mulher, poetas, vítimas desses tempos em que ainda falta tanto pudor e respeito por elas.

 

Penso ser possível evocar, aqui, o conto “Procissão” (RESENDE, 1997, p. 142-144), de onde acende da linguagem poética, à semelhança do cheiro bom de folhas secas do balaio do homem lavava, todo ano, as igrejas de São João del-Rei, na Semana Santa, (mistura de alecrim, rosmaninho, manjericão), um cheiro bom, atemporal (p. 142). “Um cheiro que faz a alma sair do corpo, as lembranças fluírem involuntárias. Um cheiro de coisas boas da vida” (p.142), para o enfrentamento dos cheiros de esgotos que mal cheiram a cidade e os sonhos da menina e da mulher. Pelo gosto e pela necessidade de inventar um novo gosto a encher os sonhos de moças e moços pela cidade nessa procissão quotidiana da vida inseparável da literatura.

Abro a janela
pra paisagem cinza
do dia.
O sol não se arrisca
na geometria
dos edifícios.
A retina embaça
o coração abraça
voos náufragos
sem condição de rima.
ácida fera
tão ávida
de mim.

 

Lá fora, na cidade, na rua, no coração do homem faz um tempo a céus e esperança cinzentos, pesados, dias mal cheirosos. Ao corpo, os olhos de retinas embaçadas. Na alma, voos náufragos. Na escrita do homem, da cidade e dos dias, a despoesia. Ronda a ácida fera, ávida.

 

Há um eco nesse poema que se escuta e que ainda se acolhe com muita dor ao peito. Voz que se escuta quase à sua superfície. Percussão ainda no fluxo do sangue e da linguagem. Ou somos nós que estamos voltando de alguns abismos da história para uma superfície possível à luz dos dias em que ainda persiste uma névoa cinza na página do dia, da cidade, do homem por onde a fissura e amargura “do tempo sem fim dos tempos partidos e dos homens partidos”, como diz o poema “Vazio”, de Antônio Luiz Assunção, um dos doze poetas, que publica no livro do I Encontro Universitário de Poesia de São João del-Rei, exigem que o próprio sol, a claridade despontada desses tempos, arrisque-se na geometria dos edifícios.

 

Ora, esse sol há de se arriscar, ainda, pela travessia pelo cinza dos dias. Como o cheiro atemporal de rosmaninho inventa os novos gostos no enfrentamento dos mal cheiros dos esgotos urbanos e existenciais. Há de iluminar a escuridão e o embaço que cegam as retinas, o coração, os voos impossíveis a uma visão nítida do caminho ou arredia à fera ácida, ávida do homem, dos dias, sem condição de rima, de poesia, de vida. Não é apenas uma visão memorialista do passado, antes, um olhar pela janela dos dias atuais que, à semelhança dos céus e dias a cinza, ouve-se a ronda da ácida fera, ainda ávida, de mesma fome, que mutila o corpo de que se nutre.

poesia
pôr à prova
o pulsar do peito e do punho
e explodir em palavras
no vazio branco
correndo o risco
da vida.
m. angela

 

Escrever, e ainda mais escrever poesia, é menos do que um risco, a certeza de correr sempre o risco da vida. Viver é perigoso. Não, exatamente, pela pedra no meio do caminho, todavia pelo caminho que se há de rasgar, a cada dia, a cada palavra, a cada poema, no corpo da pedra. Por vezes, nua das metáforas com que os poetas, pudicos, cobrem-lhe as vergonhas do corpo.

 

Os poetas não servem para nada, diz a poeta portuguesa, Filipa Leal (2015). Não que os poetas não sirvam para nada (não servem?), é que o mundo não os escuta. Não lhes permite lugar nas repúblicas, democráticas ou não. Elas temem o jeito com que os poetas põem a vida à prova – por explosão de palavras.  Por que não suportam a poesia? Por que temem a poesia? Os poetas não servem para nada, mas a poesia é feita de palavras. As palavras, elas, sim, rasgam caminhos na pedra. Melhor manter os poetas na própria inutilidade da poesia. Na periferia da linguagem e das repúblicas. Talvez pelo que ela tem das características que Calvino (1990) destaca com fundamentais à escrita desse milênio em que a poesia ainda é um incômodo. Pela consistência, pela exatidão, pela rapidez e pela leveza com que se impõe como modo de vida.

 

Persiste Filipa Leal, dizendo que os poetas só servem para ler e escrever. Pois bem, eis o modo com que fazem a vida. Fazer poesia e fazer vida são ações coincidentes nos poetas. Mesmo ou sempre sob o risco da vida. Ao homem comum, quando o mundo se sente incomodado, sacrifica-se a vida, mutila-se o corpo. Ao poeta não basta essa tortura superficial, condenam-no ao silêncio que é para o poeta o mesmo que lhe ceifar a vida.

 

O poema, reiterando Bloom (2013, p. 16) pensa poeticamente o pensamento poético, propondo, de sua brevidade, um conceito de poesia que implica uma criação artística em que se prova, pela linguagem, o pulsar da vida, o vigor, a resistência, a esperança – o risco da vida – por uma escrita da própria vida que pulsa no peito, porém, explode em palavras, posto que a poesia é feita de palavras e na palavra.

black friday

enquanto isso
num outodoor qualquer
michael jackson
atrás dos seus óculos
me olha desconfiado
m. angela - 25/11/2017

 

 

quero a luz da primeira estrela
diz Bandeira.
eu quero a lua primeira
achei-a
prata amarela
tão bela
tão cheia
bela bela

(m.angela/julho 1997)

 

A contradição da poeta – enquanto entopem as ruas com as presas antigas de um encantador de consumo anunciando aos gritos, pelos meios de comunicação, o famigerado "black fridy", que nem vale a pena a tradução, a poeta aquietada, em sua língua de onde se vê o mar, e, sobretudo esse mar de pessoas que vai na onda por onde não precisaria ir, mas vai, deseja a lua cheia, "tão cheia/bela bela". Para que lhe servirá a lua, ainda que esteja bem no meio de sua sala ou de suas mãos vazias dos móveis adquiridos pelo ilusório “nada” que as lojas ofertam na sua imposição do consumo? De alma plena da lua, que traz ao corpo a memória das estrelas do poeta Manuel Bandeira, a poeta se regozija desses pequenos nadas e dessas pequenas coisas sem importância com que inventa a vida.

 

Desconfiada, não apenas do olhar do Mickael Jackson por trás dos óculos escuros, metáfora a entrelinhas, postos aos olhos cegados pelo consumo, desconfia do próprio mundo e de si, insegura fora da palavra.

 

A fuga desse círculo de consumo, que também impõe, oprime e superficializa o homem e as relações humanas, procura e funda abrigo na palavra. Mais precisamente, na palavra poética. Na poesia, metonimicamente, concebida, no poema, pela “primeira estrela de Bandeira”.

primavera
desejos minguantes
na escassez da estação.

m.angela (31/08/2016)

 

Lendo esse poema, isoladamente, tem-se o olhar da poeta, numa contemplação, efetiva ou imaginária de jardins pela cidade, à véspera da primavera – a data no poema, tanto pode se referir a essas vésperas da primavera que, do ponto de vista de calendário, inicia-se em 21 de setembro quanto se referir apenas ao dia de publicação na página. Desse ponto de vista, o poema cria uma relação de conexão entre o minguar dos desejos e a escassez da estação. A primavera que está a chegar vem repleta de esvaziamentos. Os desejos tanto quanto as flores, a floração, porque a floração é sempre maior do que a flor propriamente dita, como o desejo é sempre maior do que o objeto desejado, todos atravessarão um período de escassez e míngua.

 

Lido, no conjunto, ainda que mínimo, dessa coletânea tomada por essa leitura, estabelece-se uma conexão entre a escassez dessa estação e o minguar dos desejos com o estado de desejos de liberdade que paira sobre os poemas anteriores, datados entre 1982 a 1997, acenando para a possibilidade de que aquele tempo da “ácida fera” dá ares de retorno, causando, talvez, antecipadamente, a escassez das flores e o minguar dos desejos, que não tinham atingido uma floração plena em flores, frutos e desejos. Ou seja, a primavera que se anuncia não é, de toda, desconhecida.

 

Quando se mínguam os desejos e a floração, e as flores se tornam escassas, talvez seja o tempo de se retornar a essa manhã, do início dessa leitura, em que se ouve o poeta enquanto voa a borboleta colorida, viva, alegre, que visita um tempo, possível às metamorfoses, à esperança de voos, à abundância de flores e à permanência dos desejos. Afinal, “o menor broto mostra que a morte na verdade não existe” (2005, p. 53), nem para o corpo físico nem para os sonhos, os desejos, o pensamento.

 

Ana Cristina Cesar diz num poema ao estilo desse: “Na manhã de hoje, ouvindo o poeta, uma borboleta nos visita”, de Maria Ângela, que “É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”. Com certeza, por essa razão é que ambas as poetas, ainda citando Ana Cristina Cesar, insistem “na maldade escrever” (2013, p. 27), por acreditar que por essa maldade, por essa resistência da poesia, da literatura é que seja possível esse tempo em que a floração, a primavera da liberdade se firme, ganhe consistência entre as demais estações e estados que envolvem a vida. E que os desejos minguados dessa míngua de que se tornaram vítimas, enfim, voltem a proliferar e a manter o que talvez mais caracterize o desejo – a pulsão de vida. E, então, o navio desse tempo de liberdade e de paz ancore sobre as cidades, no mundo e no coração dos homens.

 

Encerro com dois poemas (mulheres; poesia), ambos grafados em minúsculas corroborando a pertinência tanto das mulheres quanto da poesia no âmbito do quotidiano, do necessário à vida, do imprescindível ao “risco da vida”. Sobretudo nesses tempos em que as mulheres e a poesia sofrendo diariamente violência a que respondem com esse “pulsar do peito e dos punhos”/ “correndo o risco da vida”. Vasos de flores nas janelas do dia, do tempo.

mulheres

mulheres são vaso 
de flor na janela
um risco qualquer
no horizonte
uma tristeza estranha
de repente
mulheres são
poesia
guerrilhas
e preces
apenas mulheres
m angela (1982)

poesia

pôr à prova
o pulsar do peito e do punho
e explodir em palavras
no vazio branco
correndo o risco
da vida
(m. angela)

 

 

Referências bibliográficas:

 

ASSUNÇÃO, Antônio Luiz. Vazio. I Encontro de Universitário de Poesia de São João del-Rei. São João del-Rei: Gráfica APAE, 1982.

BARROS, Manoel de. O meu quintal é maior do que o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

BLOOM, Harold. A anatomia da influência: literatura como modo de vida. Tradução Ivo Korytowski e Renata Telles. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

BORGES, Jorge Luís. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Junior. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Tradução Ivo Barroso. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

LEAL, Filipa. Pelos leitores de poesia. Porto: Abysmo, 2015.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. São Paulo: Martins Fontes, 1964.
RESENDE, Maria Ângela de Araújo. Cicatriz. I Encontro de Universitário de Poesia de São João del-Rei. São João del-Rei: Gráfica APAE, 1982.

______. Procissão. Vertentes. n.10, jul/dez. 1997. São João del-Rei: FUNREI, 1997, p. 142-144.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Tradução e posfácio de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2005.

São João del-Rei, 13/12/2018.

 

 

Nilo da Silva Lima, natural de Ponte Nova (MG), graduado em Letras pela FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei, onde também fez pós-graduação em Estudos Literários. Mestre em Teoria da Literatura pela UFMG. Sócio correspondente da Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova. Tem artigos publicados pela Vertentes - Revista Universidade Federal de São João del-Rei; pela Ato, revista de literatura de Belo Horizonte; Cronópios, revista eletrônica especializada em crítica e literatura brasileira; Em Tese, revista da UFMG; resenhas sobre a obra de Adriana Lisboa e Denise Emmer no Caderno Prosa e Verso, do jornal O Globo; Revista da Academia de Letras de São João del-Rei; jornal A Gazeta de São João del-Rei. Mantém o blog www.literaturalima.wordpress.com.br onde publica com regularidade apenas textos literários.

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Paginação:

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