ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: SONHO    

Nunca fui de sonhar. Na verdade, seria mais certo considerar que não costumo lembrar-me das falas de meu inconsciente enquanto durmo. Melhor assim. A impressão recorrente é de dormir sono mais reparador sem andanças por fantasias noturnas. Se, em casos raros, consigo repetir com começo, meio e fim algum enredo, geralmente foi pesadelo, acordo assustado, coberto de suor, indisposto.

 

Quando era menino tinha medo de lidar com o sombrio de narrativas nem sempre apropriadas aos corações infantis. Deitava-me cedo, e a perspectiva de repetir dormindo algum horror ocorrido durante o dia assustava-me. Assim, desde a mais tenra idade, procurei treinar-me a pensar em coisas boas e bonitas ao esticar-me na cama. A imagem de um cavalo branco correndo por campos floridos acompanha-me até hoje. Agora, depois de tantos anos, ela continua incrivelmente recorrente. O estirar-me tornou-se penoso, os ossos da coluna estalam e frequentemente chegam a doer, mas insisto no hábito. Aguardando o efeito do remédio, acompanho o galope do velho corcel cor de neve a mover-se com as crinas revoltas pelo pasto em disparada. Em minha imaginação, ele sempre esteve ali trazendo o bucólico ritmado da situação, quase posso ouvir o som dos cascos batendo na terra. Tantas vezes busquei tal quadro, pintura de má qualidade, apenas decorativa... Jamais falhei em colocar sobre o travesseiro o fantasmagórico equino. Não seria capaz de encontrar o momento certo do início do costume. Mania? Sei apenas das razões da criança. Embora houvesse presente toda a possibilidade de um encontro desagradável durante o repouso, aquela visão intimada era capaz de acalmar o garoto e garantir-lhe sossego.  O alvo animal tinha o dom de clarear o quarto, acender luzes na escuridão assustadora do ambiente.

 

Ontem o cavalo não veio. Chamei-o logo ao me deitar. A noite fria de inverno, acompanhada de umidade capaz de penetrar entre as cobertas e trazer a impressão de estarem molhadas as calças do pijama, colocava-me em posição sofrida e vulnerável.  Já gostei mais das temperaturas baixas. Antigamente sentia prazer em encolher-me, aconchegar-me ao corpo quente de minha mulher ao lado e passar a madrugada imóvel, aquecido, em total conforto. Hoje as cobertas pesam, e nada é suficiente para apagar a impressão de meus pés terem se tornado pedras de gelo. Agoniado com a temperatura baixa, tentei vislumbrar entre as pálpebras cerradas meu companheiro de infância cruzando os vales da campina. Inútil. Não surgiu pomposo, recusou-se a me trazer conforto. Adormeci intrigado. Por onde andava? Nunca recusou um chamado meu, bicho ensinado, sempre ponto a me atender. Dormi. Sonhei.

 

Descobri então por onde andava Silver, montaria cedida às vezes ao meu amigo Zorro. No branco de seu pelo, algumas manchas vermelhas davam-lhe aparência pedrês. Retorcia-se no campo verde, as quatro patas para cima, ferido. Um relincho zangado, enfurecido, de quem não aceita a dor sentida, a incapacidade de erguer-se. Um grito engasgado repetia-se varando os cobertores. Meu amigo estava morrendo e nunca mais poderia vir livrar-me dos pesadelos. Alguns tiros haviam maculado seu corpo musculoso. Aos poucos foi se aquietando, conformando-se com o seu destino, talvez intuindo o pior.  Os olhos muito arregalados.

 

Acordei triste e me lembrei de cada detalhe do sucedido. Angústia, aflição. Qual seria o significado de tudo aquilo?

 

Agora quando me deito tenho medo de buscar o quadro de segunda categoria que me acompanhou a vida inteira. Seria ruim reencontrar o cavalo defunto.  Busco imagem diferente capaz de trazer-me igual conforto. Em vão. As imagens bonitas ficaram em outro tempo, apenas o menino sabia fabricar.

Novembro/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Paginação:

Nuno Baptista


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