ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Lahissane


Poemas    

UM OLHAR NO FUNDO DO MAR

 

Quando os meus olhos
mergulham no mar,
meu coração voa no céu das ondas

minha alma ressuscita
dança xigubo
e dá risos meigos como cravos no amanhecer.

Quando os meus olhos
mergulham no mar
há sempre uma poesia de esperança
enxugando-me as lágrimas.

Sim.
Quando os meus olhos
mergulham no mar
esqueço-me dos hinos de dor
canto os mais belos e cheios de amor.

 

 

 

 

Ler poesias

 

Não há lugar
Onde não se pode
Ler uma poesia

 

A poesia
É lida em todos os lugares e em todos os tempos.

 

Leia-a, nas ruas
É mais doce assim,
Sinta-a no comboio
Pois é fresca e excelente companheira,
Cheira-a quando estiver na bicha do hospital
Pois, ela é uma cura

 

Quando estiveres nos bares
Beba-a, pois tem loucuras e sabores
De cervejas, de vinhos e flores.
Leia a poesia, em todos os lugares e em todos os tempos
Ela purifica o coração.

 

 

 

 

 

 

Se eu pudesse escrever

 

Com a tinta branca
Eu escreveria num papel azul
Um poema de versos vermelhos
Um poema de línguas de amor.

 

Se eu pudesse
Juro por minha honra
Que escreveria um poema mágico
Que trilha os mares e os ares
Defecando poesias calmas.
Tão calmas como o melodiar
Dos pássaros no alvorar

 

Escreveria um poema voador
De penas esverdeadas como algas
Seus olhos amarelos como girassóis
Suas patas finas e leves como a brisa marítima

 

Se eu pudesse
Escreveria um poema sorridente
Como as flores de todas as cores
Um poema que repudia dia-a-dia
Os espíritos fertilizantes das guerras
Sim, escreveria
Um poema que dócil.

 

 

 

 

 

 

O poema do título esquecido

 

Quando o sol
Nasce
Abro as cortinas dos meus
Olhos,
Deixo-o renovar-me

 

Quando o sol
Nasce
Renasço, saio do túmulo do desespero
Trilho as linhas que ligam o meu presente
E o meu futuro molhado de sonhos…

 

Quando o sol nasce
Há sempre uma ave
Vagando pelo azul suave
Das águas salgadas do Índico
Ela canta canções frias e emudecidas 
De penúria,
Canções que embalam o clamor dos petizes
Quando estes sentem seus estômagos
Sendo esfregados pela fome.

 

 

 

 

 

 

Já é noite

 

Já é noite
Quero soltar-me e andar
Pelos ares, galgar os céus estrelados
Palpar a carne luminosa da lua
Voar alto e esquecer a terra e os seus variáveis sabores.
(os amargos e os doces)

 

 

 

 

 

 

Uma canção de amor para minha África

 

Cantar-te-ei em todas vozes
As de mel, as de afecto e as de triunfo
Alteando a tua airosidade fina.

 

Minha África
Cantar-te-ei, minha terra virgem, de corpo
Tatuado de memórias
De belas mulheres, vestidas de missangas rubras
Tão como as brasas,
Verdes como a esperança e as palmeiras da Zambézia.

 

Minha África
Quando a noite reviver
E a lua rasgar as vestes dos céus 
Da escuridão
Da solidão
Eu vou agarrar o meu batuque
E tocar-lhe, tocar-lhe em memoração dos povos
macenas, oromos, zulus e tantos outros
Que do batuque imploraram a sua libertação
E eu? Eu?
Com o mesmo batuque imploro a paz
O fim dos raptos amaros dos meninos albinos
Raptos que semeiam prantos na minha terra humilde e saborosa Niassa

 

E quando as estrelas alastrarem-se pelo céu agraste
Da minha África
A fogueira irá bailar no fundo dos meus olhos
Como as belas donzelas da Suazilândia, quando trilham o olhar do rei
Dançando umhlanga, para serem eleitas às viagens loucas e prazerosas do rei 
Sim. Quando as estrelas alastrarem-se pelos céus, minha avó
Soltará a sua voz doce como o luar africano
E dirá: karingana wa karingana
Assim poderei ouvir as histórias do sabor de fel e, de mel
Histórias da minha velha e amada África

 

Minha África
És gira. Tão gira como o girassol
Mais gira que as águas tranquilas do Zambeze, quando a lua
Inclina sua cabeça reluzente para venerá-las e beijá-las
Minha África de cabelos verdes
De corpo florestal onde os antílopes pulsam livremente
E as girafas erguem as cabeças beijando as folhas frescas
Dos velhos embondeiros.

 

As águas das cascatas, escorrem vagarosamente pelas rochas
Cantam hinos que içam África,
Como uma bandeira branca que nunca derramou sangue
Uma rosa de pétalas airosas e cheirosas
Uma África sem guerras e sem fome
Uma terra de sol lauto, giro, fertilizante e ardente  

 

Ó filhas da minha África
Dancem xigubo em cada raiar do sol e da lua
Dancem dikanza em memória e honra 
Dos velhos triunfantes de Angola
A herança que será sempre nossa, em todos séculos
Dancem e cantem, ó filhas de África

 

Levantem as vossas cabeças e os vossos corações
E toquem os batuques que a natureza oferta-nos
Dancem, ó filhas de África
Dancem adumu do povo maasi
Um dos deuses da linda Tanzânia
Dancem, ó filhas de África
Dancem kiebe-kiebe do povo mbochi
Um dos deuses do Congo 

 

Minha África
Quando o sol galgar as nuvens azuis
Lançar os seus raios sobre teu rosto
Eu tocarei trombetas
Tocarei mais forte. Forte que os gritos dos elefantes
Tocarei em memória dos teus filhos que tombaram
Acorrentados nas fileiras da escravatura
De todos que jazem nas valas comuns
De todos que sangraram na luta, rogando a tua libertação
Tocarei incansavelmente as flautas de sonância eufórica
Quando as tuas filhas não chorarem mais de fome e de guerras
Tocarei fortemente até a tua filha Somália sorrir e dançar os hinos de paz

 

Minha África rica
De pele de ouro e sangue petrolífero
Eu tocarei todos instrumentos que teu ventre pariu
Tocarei likuti do povo maconde
Xitende que quando tocada, canta até os crocodilos dançam
No fundo das águas cristalinas e verdes do Limpopo

 

Ó filhas da minha África rica
Etiópia, Uganda, Malawi, Moçambique, Zimbabwe, Zâmbia
Belas meninas da minha África
Vistam-se de peles, juntem as vossas mãos e tamboream os tambores incansáveis
Vibrem meninas e mostrem o mundo que em África há vida, há mares azuis
Há rios de cores que fecundam as terras
Terras silvestres com rinocerontes, zebras, gazelas, aves de penas coloridas
Como o arco-íris…
Ó minha África
No teu preto rosto, desenharei os belos poemas de amor
No ouvido do teu coração, cantarei as canções de ternura
As canções que içam a tua beleza e grandeza
Nas noites luares, tocarei levemente timbila para serenar-te
Olhas minha África, pérola dos meus olhos, eu amo-te.

 

 

Lahissane, identificação artística de Lucas Silvestre Maxlhaieie, nasceu na Cidade de Maputo, aos 04 de Maio de 1987. Aos 5 meses mudou-se para Malehice Distrito de Chibuto, Província de Gaza. Licenciado em Direito pela Escola Superior de Economia e Gestão-ESEG, é professor primário na Vila de Caniçado Guijá. Co-autor das Antologias Internacionais “Numa Linguagem e Numa Sinfonia” Galiza-Moçambique de género poético e “Coletânea Inspiração” de poesias, contos e crónicas com participação de vários países, editada pela Editora Gaya do Brasil. No ano de 2017 recebeu prémio de Destaque literário no 27ᵒ Concurso Internacional de poesia, contos e crónicas da Academia de Artes, Letras e Ciências “A Palavra do Século XXI” de Brasil. Tem publicado nas revistas nacionais como: “Mahungo”, “Soletras” e “Xitende”. Membro da Associação Cultural Xitende, além de poeta é declamador, fotógrafo e tem organizado festivais de poesia entre as escolas secundárias da Província de Gaza.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

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Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Novembro de 2019:

Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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