ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Suely Bispo


Consciência negra e literatura: Novembro: o mês da consciência negra no Brasil    

No Brasil,  desde 1978, a data 20 de novembro passou a ser celebrada como o Dia Nacional da Consciência Negra. Refere-se à morte do último líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, que morreu em uma emboscada, no dia 20 de novembro de 1695. Os quilombos foram organizações de negros escravizados fugidos, uma das formas de resistência ao sistema de dominação escravista. Dos inúmeros quilombos espalhados pelo país, o Quilombo dos Palmares, localizado na Capitania de Pernambuco, região da Serra da Barriga, atualmente União de Palmares, no estado de Alagoas, teve a existência mais duradoura. Durou cerca de cem anos.  Dessa forma, tornou-se o símbolo maior da resistência contra o sistema escravagista. Após a destruição de Palmares, quilombos continuaram a surgir por todo o país, enquanto durou a escravidão.

 

Curiosamente, o significado dessa data emblemática tão importante foi sugerida por um poeta, nascido no sul do Brasil, o gaúcho Oliveira Silveira. Por esse feito, ele  ficou conhecido como o poeta da Consciência Negra, pois foi o primeiro a propor em 1971, que o 20 de novembro tivesse um significado especial. No entanto, só sete anos depois, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial oficializou  a data. Oliveira Silveira foi também historiador, pesquisador e ativista do movimento negro. Um dos criadores do Grupo Palmares e do Movimento Negro Unificado, no Rio Grande do Sul.

 

Silveira buscava uma data em oposição ao 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, em 1888. Essa lei foi a medida oficial para por fim ao sistema escravista no Brasil. Entretanto, o fim da escravidão não significou o fim dos problemas sociais para a população negra. Como afirmo no livro Resistência negra na Grande Vitória: dos quilombos ao movimento negro:  “Depois da assinatura da Lei Áurea vê-se as consequências negativas decorrentes da ausência de uma política pública, que contemplasse negros e negras como cidadãos, e que reparasse os danos do sistema escravagista. Faz-se necessário, ainda nos nossos dias resistir, reivindicar e organizar-se em  movimentos sociais negros” (BISPO, 2018).

 

Exatamente por esses aspectos históricos contraditórios, o 13 de maio era passível de muitos questionamentos. Sendo assim,  Silveira mergulhou numa pesquisa sobre a resistência do povo negro,  em busca de uma data que simbolizasse de forma mais coerente, o pensamento e sentimento da comunidade negra, no Brasil. Naquele momento de grande censura e repressão da ditadura militar no país, Oliveira Silveira ousou romper paradgmas, ao destacar o protagonismo negro na História. A figura de Zumbi dos Palmares, inegavelmente trazia os requisitos necessários para a valorização da luta e orgulho da população negra. Oliveira Silveira morreu no dia 1º de janeiro de 2009, aos 67 anos.

 

Com o tempo, o 13 de maio deixou de ser o dia da abolição e passou a ser chamado Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo. Enquanto isso, o 20 de novembro passou a ser cada vez mais, a data máxima da negritude brasileira. Em 2003 foi incluída no calendário escolar.  A partir de 2011, foi oficialmente instituída como feriado, mas não é nacional ainda. Só em alguns estados como Alagoas, Rio de Janeiro, Amazonas,  Roraima, Mato Grosso do Sul.

 

O protagonismo histórico do negro no processo de resistência e libertação, está muito presente na Literatura Brasileira, principalmente no segmento da chamada Literatura afro-brasileira. Além de Oliveira Silveira, muitos outros poetas fazem referência à figura de Zumbi. Mesmo antes de Silveira, o poeta Solano Trindade, um dos nomes pioneiros da Literatura Negra, no Brasil tem em sua obra vários poemas temáticos, como por exemplo: Sou negro, Zumbi e Canto aos Palmares.
Diversos poetas podemos ainda citar. Por enquanto selecionei alguns poemas para ilustrar a presença de Zumbi e do Quilombo dos Palmares, na Literatura Brasileira.

 

 

 

 

 

 

BANZO-SAUDADE NEGRA de Oliveira Silveira

 

Treze de maio traição,

liberdade sem asas

e fome sem pão

Liberdade de asas quebradas

como

este verso.

Liberdade asa sem corpo:

sufoca no ar,

se afoga no mar.

Treze de maio - já dia 14

o Y da encruzilhada:

seguir

banzar

voltar?

Treze de maio - já dia 14

a resposta gritante:
pedir

servir

calar.

Os brancos não fizeram mais

que meia obrigação

O que fomos de adubo

o que fomos de sola

o que fomos de burros cargueiros

o que fomos de resto

o que fomos de pasto

senzala porão e chiqueiro

nem com pergaminho

nem pena de ninho

nem cofre de couro

nem com lei de ouro.

que o que temos nós lutamos

para sobreviver

e também somos esta pátria

em nós ela está plantada

e então vamos rasgar

a máscara do treze

para arrancar a dívida real

com nossas próprias mãos.

 

 

 

 

 

 

SE ELA FAZ EU DESFAÇO de Éle Semog

 

                A treze de maio
                Fica decretado
                Luto oficial na
                Comunidade negra.
                E serão vistos
               Com maus olhos
               Aqueles que comemorarem,
               Festivamente,
               Esse treze inútil. E fica o lembrete:
               Liberdade se toma
               Não se recebe
               Dignidade se adquire
               Não se concede. (Semog, 1979)

 

 

 

 

 

 

SOU NEGRO de Solano Trindade

                      A Dione Silva



Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou
como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso.

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou.

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação.

 

 

 

 

 

 

SERRA DA BARRIGA de Jorge de Lima 
             


Serra da Barriga!

 

Barriga de negra-mina!

 

As outras montanhas se cobrem de neve,

 

de noiva, de nuvem, de verde!

 

E tu, de Loanda, de panos-da-costa,

 

de argolas, de contas, de quilombos!

 

Serra da Barriga!

 

Te vejo da casa em que nasci.

 

Que medo danado de negro fujão!

 

Serra da Barriga, buchuda, redonda,

 

de jeito de mama, de anca, de ventre de negra!

 

Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!

 

Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?

 

Serra da Barriga,

 

Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,

 

cheirando a maconha, cheirando a liamba?

 

Os teus meio-dias: tibum nos peraus!

 

Tibum nas lagoas!

 

Pixains que saem secos, cobrindo

 

sovacos de sucupira,

 

barrigas de baraúna!

 

Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!

 

De noite: tantãs, curros-curros

 

e bumbas, batuques e baques!

 

E bumbas!

 

E cucas: ô ô!

 

E bantos: ê ê

 

Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!

 

Aqui é Zumbi!

 

Barriga da África! Serra da minha terra!

 

Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!

 

Depois, minha serra, tu desabando, caindo,

 

levando nos braços Zumbi!

 

 

 

 

 

 

ZUMBI EXTEMPORÂNEO  de Suely Bispo

 

Zumbi dos palmares
Ainda vive
Ainda por muito tempo
Mais viverá.
Como morrer
Se a resistência
Não pode acabar?
Preconceitos, racismo, discriminação
Não acabarão nunca?
Os avanços e progressos da humanidade
Caminham juntos com a barbárie.
Enquanto isso Zumbi se metamorfoseia
Atualiza-se a cada instante.
Presente passado e futuro
Zumbi não pode morrer
Não dentro de nós...

 

Suely Bispo, 2018.

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

Bispo, Suely. Resistência negra na Grande Vitória: dos quilombos ao movimento negro. 2ª ed. Vitória: Cousa. No prelo.

 

Lima, Jorge de. Poemas negros. Rio de Janeiro: Alfagurara, 2016

 

Semog,  Éle. Ebulição da escravatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978

 

Silveira, Oliveira. Banzo, saudade negra. Porto Alegre: Edição do autor, 1970

 

TRINDADE, Solano. Cantares ao meu povo. São Paulo: Fulgor, 1961.

 

 

A atriz e poeta Suely Bispo é formada em História e Mestre em Estudos Literários pela UFES. Com mais de vinte anos de carreira no Teatro e no Cinema, em 2016 chegou à TV interpretando Doninha, na novela Velho Chico, na Rede Globo.

No mestrado realizou o primeiro trabalho acadêmico sobre o poeta Solano Trindade no Espírito Santo. Tem diversos trabalhos publicados na área de História e Literatura. Em 2009 publicou seu primeiro livro de poemas Desnudalmas, pela GSA, e em 2016, Lágrima fora do lugar, pela editora Cousa.

Participa também do Sarau Afro-tons, em Vitória, e do Coletivo Louva Deusas, de produção de textos e desenhos eróticos de mulheres negras, que em 2015 publicou a coletânea Além dos Quartos, em São Paulo. Foi coordenadora do Museu Capixaba do Negro (MUCANE), no período da sua reinauguração em 2012. É autora também do livro Resistência negra na Grande Vitória: dos quilombos ao movimento negro, que terá lançamento em breve, da sua segunda edição.
Seja na História, nas Artes Cênicas ou na Literatura, seus trabalhos geralmente se relacionam com a valorização da cultura negra, cidadania e ecologia.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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