ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Wélcio de Toledo


Poemas de existência nua e crua    

Fundamentos de ventilação e apneia é realmente um livro para prender o fôlego. Cada poema de Alberto Bresciani nos leva a viagens em que os segundos de leitura são transformados em eternidade por onde perpassam as angústias dos temas realçadas pela beleza límpida de cada texto.

 

A sensação é de estar nu diante de um longo deserto, savana, floresta ou fundo de mar, como se nós, humanos, fossemos aquilo que está sendo dissecado em cada poema. Poemas que tocam nossa sensibilidade e descascam as camadas de nossa couraça à medida em que somos tomados pela onda que bate como quando caminhamos a esmo em alguma localidade de ar rarefeito.

 

Habitat 1 e Habitat 2, logo na primeira parte do livro, são uma excelente mostra disso. O que acumulamos em nossa pele ao longo dos anos ou o que buscamos sem mesmo ter noção da procura nos faz ir além de expectativas mundanas racionais e nos coloca em posição de observador inorgânico ao mesmo tempo em que nos deixam muito vivos para sentir tudo isso que se acumula.

 

A poesia de Bresciani pode estar no campo das narrativas ficcionais distópicas, como se diz nos tempos de hoje. Também pode ser lida como meta-narrativa lírica, pois fica clara a reflexão sobre a poesia e/ou o poeta diante do universo desvelado pelo autor. A oposição entre poesia-vida, animal-humano, orgânico-inorgânico, terra-água está por vezes no ponto de partida de alguns dos belos poemas. No entanto, é a complementariedade e o mimetismo que ficam impregnados no leitor após a última palavra lida. A sensação é de que os seres inertes do poema nos trazem à reflexão na medida em que os mais errantes ilustram a busca incondicional, que pode ser percebida como a sina de qualquer ser, humano ou não, assim como aquilo que move os poetas. Cavalos, bisões, porcos-espinhos, cães, camelos, cardumes nos colocam cara a cara com nossa existência e a necessidade de respirar fora da humanidade para seguir sobrevivendo. O poema Bisões é aquele espelho a jogar em nossa cara o peso de seguirmos em frente a cada manhã fugindo de algo ou para algo ao sabor do estranhamento que nos move.

 

A impressão que o livro deixa em mim, mero mortal, é de que Bresciani se voltou para a crua existência nessa obra, de forma a nos posicionar em nosso lugar de animal. O poema Girafa reflete sobre essa humanização animalesca ao colocar em paralelo o exótico animal africano abatido em caçada e um velho que é atropelado em alguma urbe. Tudo tem seu fim? O poema é o fim de tudo? Leia o poema até o fim e tire suas conclusões. Exemplos como esse provocam o desnudamento e a sensação de pequeneza diante de uma natureza (humana ou não) que se mostra sem disfarces nem firulas. Ficamos minúsculos diante de tal natureza e dos poemas que se fazem gigantes com os Fundamentos de ventilação e apneia, do poeta Alberto Bresciani.

 

 

É professor, poeta, contista, fotógrafo amador e atua em movimentos sociais e culturais da cidade. Pesquisa a poesia marginal e a identidade cultural em Brasília no doutorado em Literatura e Práticas Sociais da UnB. Faz parte do Coletivo Anarcopoético, que organiza ocupações artísticas em espaços abertos de Brasília juntamente com outros amigos poetas, com música, poesia, exposições ao ar livre, performances, transgressões e o que mais surgir de arte. Possui poemas em diversas revistas e coletâneas literárias, além de três livros publicados: "Poemas, Visões e Outras Viagens” (2012); SUBVERSOS (2015); e o de contos “Rosa como o bico do meu peito” (2017). Até o fim de 2019 lança seu próximo livro de poesia, intitulado “Tudo que não cabe no poema”, pela Editora Patuá.  
www.facebook.com/welciodetoledo

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

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