ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Propina na terra dos sonhos    

Fontes fidedignas e outras nem tanto me informaram que um determinado parlamentar ficou revoltado com o que publiquei cá nesse vibrante mensário. No texto, citei o humorista Chico Anysio, que em um antigo comentário feito no programa Fantástico ironizou com a verve costumeira a decepção de um deputado eleito e que, ao assumir a árdua missão no Congresso, não recebeu as graúdas benesses que imaginara, apenas as consideradas miúdas.

 

Considero que pelo intróito já deu para identificar o mote da crônica e quem ainda não leu, pode fazê-lo, bastando para isso conseguir um raro exemplar do jornal, embora já esteja, como sempre, com a edição esgotada. O título da crônica é Decepções de um deputado, que dá para inferir o que foi escrito. 

 

Mas o dito cujo – designação que não sei se será recebida com bons ou maus bofes pela excelência parlatativa, se me permitem o neologismo – teria ficado abespinhado ou até mesmo enraivecido por saber que um colega teria se acomodado com tão poucos mimos.

 

 - Isso – disse ele – é um desprestígio para a laboriosa lida de um homem público que se esfalfa em defesa do povo.

 

O leitor que ouviu a gravação com o desabafo de tão extremado deputado disse que não deu para entender direito o áudio, não podendo garantir se ele usara em sua fala o verbo transitivo esfalfar na terceira pessoa do presente do indicativo ou o substantivo alfafa, próprio para alimentação de alimárias ruminantes.

 

Mas isso são firulas do bestunto, o que importa é o cerne da pendenga. O homem, enfatiotado com as vestes pagas com a tal “verba do paletó”, teria (terceira pessoa do futuro do pretérito) dito que a grana é dele e ninguém tasca. E quem está preocupado com isso? Afinal, são apenas míseros R$ 80 milhões anuais destinados ao bem vestir dos ilustres parlamentares, cujo rateio não chega nem a R$ 70 mil para cada um.

 

 Ele citou o caso daquela ministra temerista que tentou acumular dois gordos ganhos: da aposentadoria como desembargadora e o salário do cargo de ministra dos Direitos Humanos. Dona Luislinda Valois, entre outras alegações, argumentou que um ministro tem muitos gastos com a aparência e que não poderia se vestir como uma pobre coitada. E ainda disse que trabalhar sem receber “se assemelha a trabalho escravo”. Diante do clamor geral, o presidente golpista engoliu boa dose de simancol e descartou a espertalhona, que perdeu a pose de ministra e o acúmulo salarial, que totalizaria mais de R$ 6l mil mensais. Com essa dinheirama toda, qualquer um dos 99,99% dos brasileiros aceitaria ser “escravo”.

 

Voltemos às questiúnculas do deputado federal velho de votos. Ele teria dito – sempre no condicional, pois provas aceitas por alguns julgadores que se imaginam mais justos do que outros não há – e assim devemos crer apenas no disse que foi assim.

 

 - Compreendo que o fato pode ter acontecido antigamente, lá pelos anos 1980, quando um lídimo congressista ainda não havia percebido o valor que tem. Naquela paupérrima era de magros retornos à atividade parlamentar se admitia a presença de lobistas nos gabinetes com um ou outro envelope ou pasta com dólares, mas hoje não. Atualmente a vigilância aumentou muito, exigindo mais esperteza de todos. Quem opera direito apenas informa o número de uma conta nos paraísos fiscais, cabendo ao lobista, através de um doleiro, providenciar a transferência do agrado. E falo agrado e não propina porque agrado é sinônimo de satisfação, enquanto propina, dependendo do valor, pode não agradar a quem recebe. Afinal, todo homem público tem seu preço, embora não se deva tornar público o valor de cada um para não se amesquinhar os acordos.

 

 - E os homens públicos honestos?

 

 - Ora, esses candidatos a santos se contentam com o que dirão deles os livros de História. Acrescento que agrados são dados a torto e à direita, quase nunca à esquerda, mas no estalar dos ovos, se alguns são patos, outros são pintos e só pipilam quando ciscam ninharias.

 

O defensor das causas que lhe enchem os bolsos da calça questiona: quanto vale um voto a favor de uma lei que favoreça o agronegócio, embora arrase o meio ambiente? E a aprovação de uma droga a ser liberada para venda no país, mesmo sendo proibida em outros países? Em grandes obras públicas os empresários fazem um conchavo, vence o valor menor na concorrência, mas em seguida conseguem alterar o contrato, reajustando os preços, sem qualquer justificativa. Uma delas, muito criativa, aconteceu em São Paulo. Para conseguir muitos milhões acima do valor licitado a alegação foi de que os custos teriam que ser revistos por causa das grandes rochas que surgiram no trajeto inicial. Claro que não havia rocha nenhuma, mas o governo pagou o cobrado fora do combinado inicial.

 

 - E o perdão de dívidas previdenciárias e outras várias? Só aí são centenas de milhões, bilhões, que se vão e boa parte cai nos bolsos de quem faz e aprova leis ou oportunas medidas provisórias. É bem verdade que a maior parte no reparte fica com os executivos, os gestores que ainda se arvoram de benfeitores da causa pública.

 

Superfaturar, construir obras faraônicas, pontes inacabadas, comer merendas escolares, desviar medicamentos, pagar por transportes escolares que nem existem e mais, muito mais, é rotina sem qualquer punição. Desde que a mídia seja parceira e beneficiária das maracutaias e não denuncie. E que os atentos parlamentares nada questionem ou denunciem. É tudo uma questão de se conversar para os devidos acertos.

 

Esclareço: o texto, que parece uma denúncia de fatos que teriam acontecido em solo pátrio, não se refere às acontecências daqui e sim muito além da fronteira, lá em Pasárgada, onde dólares não são necessários e quem é amigo do rei dorme em rede tecida com fios de ouro ao lado das mil virgens do imaginário. Mais modesto, o poeta pernambucano Manuel Bandeira, no livro Libertinagem, publicado em 1930, parece agoniado com o vivido, mas esperançoso com o imaginado.

 

Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei/Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei/Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Os versos em redondilha maior exibem o escapismo não das dores de um amor não correspondido e sim um refúgio em lugar distante, de preferência fortificando o espírito e driblando a morte.

 

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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