ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Henrique Prior


Editorial    

As eleições legislativas de 6 de Outubro trouxeram a Portugal algo de novo. Em primeiro lugar a enorme diferença de votos entre esquerda e direita. Nestas eleições, o conjunto da esquerda teve a maior percentagem eleitoral de sempre, desde o 25 de Abril de 1974, 63% dos votos expressos. E o conjunto da direita o seu pior resultado de sempre, 37% dos votos. Portugal é o país europeu que vota mais à esquerda.


Para isso terão contribuído três fatores: primeiro - a recuperação de rendimentos por parte das classes médias e baixas durante estes últimos quatro anos de governação do Partido Socialista apoiado pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda, contra a opinião da direita que anunciava com isso a vinda do diabo; segundo-o equilíbrio das contas públicas conseguidas pelo Ministro das Finanças Mário Centeno, apesar dos aumentos de vencimentos generalizados dos trabalhadores por conta de outrem e das pensões de reforma mais baixas; terceiro- a estabilidade governativa dada pelo acordo das esquerdas, agora consensualmente denominado de geringonça.


O PS foi o grande beneficiário desse acordo, parecendo o mais prejudicado o Partido Comunista. Na realidade não foi assim. Não fora esse acordo e o PC teria uma votação muito inferior à que teve, caminhando para o destino de todos os partidos comunistas europeus que é a irrelevância eleitoral. Aliás, à semelhança do que sucedeu ao CDS que colapsou eleitoralmente e, hoje, se encontra em séria dificuldade para encontrar um líder.


O que sucedeu de novo nestas eleições foi, por um lado, a entrada no parlamento, pela primeira vez, de um partido que se reclama do liberalismo económico, totalmente contrário à intervenção do Estado, com um discurso que ignora as experiências trágicas de liberalismo económico extremo no Chile de Pinochet e na Argentina de Mauricio Macri, agora caída na falência.


Por outro lado, assiste-se, pela primeira vez depois do 25 de Abril, à entrada da extrema direita no parlamento português, embora só com um deputado e com a votação concentrada em Lisboa. Sabe-se que esse partido denominado Chega é apoiado financeiramente por Steve Bannon e a sua organização racista, xenófoba, protofascista, o MOVIMENTO, nome copiado do partido fascista espanhol de Francisco Franco.


Ao contrário do que afirma com arrogância o seu líder, André Ventura, o CHEGA nunca chegará a ter em Portugal a expressão que outros partidos protofascitas europeus têm nos seus países. Mas serve para alertar os democratas que o fascismo não desapareceu com o 25 de Abril.

 

 

UM PRÉMIO NOBEL JUSTÍSSIMO


O Prémio Nobel da Paz de 2019 foi, muito justamente, atribuído ao Primeiro Ministro Etíope Abiy Ahmed Ali. Surgido dentro dum partido de poder totalitário e corrupto, Abiy Ahmed Ali, filho de um muçulmano e de uma cristã, desde Abril de 2018, data em que ascendeu ao poder, levou a cabo uma transformação radical da sociedade etíope: libertou presos políticos, acabou com a censura, encorajou a liberdade de expressão, permitiu a livre formação de partidos políticos, instaurou a paz social e fez a paz com a vizinha Eritreia, com a qual a Etiópia tivera uma guerra sangrenta, possibilitando que famílias separadas nos dois países se voltassem a unir.
Abiy é um exemplo de  respeito pela liberdade, pela justiça e pela tolerância numa África dilacerada pelos totalitarismos criminosos, pela guerra e pela corrupção. Por isso, o Prémio Nobel da Paz foi-lhe muito justamente atribuído. Esperamos que esta Europa que trato preza a liberdade apoie o atual regime etíope.


Uma nota final para a ex-deputada socialista Ana Gomes que muito contribuiu para a defesa da democracia na Etiópia. A sua coragem, o seu amor à liberdade e a sua contribuição para que a Etiópia seja um país decente são reconhecidos pelos muitos etíopes que põem o nome de Ana Gomes a suas filhas.


Seria justo que Ana Gomes tivesse um lugar especial na cerimónia de entrega do Nobel da Paz a Abiy Ahmed Ali.

 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR