ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Cecília Piscarreta


A natureza humana    

O que me apaixona no teatro é a Liberdade. O espaço onde tudo é possível. O lugar do encontro e muitas vezes do desencontro.

 

Gosto de acompanhar os olhares sobre o teatro e sobre a representação através do tempo. Observar linhas que embora pareçam não são as mesmas que hoje vivenciamos. Começo a minha experiência no teatro como filha de uma senhora que amava o teatro e com quem eu ia assistir às aulas e ensaios de um teatro amador encenado por um actor do teatro nacional, Costa Ferreira. Recordo-me de me apaixonar e de me sentir especial por estar por dentro do processo da construção de um espetáculo.; da intensidade que tinham os ensaios e a alegria de quem neles participava. Mais tarde sou levada pelo meu pai com um grupo de amigos para as oficinas de teatro dirigidas pelo João Mota na Comuna Teatro de Pesquisa. Recordo que este teatro era naquela época o centro de mundo, do meu mundo e de milhares de pessoas que esgotavam todas as noites os espectáculos, café teatro, sala 1, concertos, festas, exposições, livraria, cinema, casa da criança, colóquios. Os jovens tinham espaço para criar, à nossa volta as pessoas acreditavam que o mundo podia ser diferente. E todos os dias assistíamos a um passo mais na direção dos sonhos partilhados e realizados, pela companhia e por todos que ali iam sonhando, casa da criança, bébes clac, clac, etc. Este lugar foi um privilégio de encontros com muitos mestres, longas conversas, reflexões partilhadas, sobre tudo o que a vida e a suas experiências nos inspiravam.  O teatro era um lugar de festa, de celebração. Quando mais tarde realizo Mestrado de Teatro, em Encenação, encontro os textos onde se espelham estas experiências iniciais. E onde enquadro as palavras com que hoje descrevo e partilho nas formações que desenvolvo a minha experiência do teatro como processo preferencial de encontro. Começo com o mais antigo tratado do teatro. O Mito Natya Shastra, diz “O Teatro é a representação do Mundo Inteiro (…) Não há máxima de sabedoria, ciência, arte, oficio, procedimento, ação, que não se encontre no teatro…

 

Nesse tratado o Teatro surge como Espelho Global, reflete o Mundo, convoca o público a participar, a identificar-se nos papeis que comporta, que pode vir a ter ou que escolhe nunca querer representar. Os muitos papeis convocados, na representação, na encenação, nos cenários, nas luzes, na música enfim em todos os elementos criados que devem ser saboreados.

 

Quando vou ao teatro gosto de ser convocada para me envolver: nos símbolos, na palavra, na representação, na história. Gosto da ação transformadora, integradora do espetáculo. Falo do espetáculo que acontece no momento, falo de pessoas em palco. Falo de um processo criador consciente dos seus inconscientes.

 

Influenciada pelo primeiro dos mestres com quem trabalhei, João Mota, procuro esse espaço genuíno com que fomos habituados a trabalhar como atores.

 

O trabalho do ator é o desafio da representação de muitos papeis. Neste processo acontece a partir da criatividade a partilha da sua própria vida, na vivência íntima da criação de tantas características particulares dos personagens. A criação convoca a natureza pessoal do ator, do encenador e de toda a equipa artística envolvida.

 

Assim como o nosso famoso neurologista afirma: a criatividade resulta da nossa memória; o processo artístico passa pelo lapidar de ações que reproduzem, convocam e espelham a natureza pessoal do seu criador. O ator, encenador, conscientes das questões pessoais envolvidas, produzem objetos artísticos carregados de simbolismos. Nestes, o público é contagiado, consegue preencher as formas representadas com as suas interpretações. Este espaço de contágio é vivificante, produz confiança, entusiasmo. Liberdade.

 

Segundo um estudo do professor Edward Tory Higgins, psicólogo (1946, Universidade de Columbia), ”What do people really whant? To be effective in life pursuits”. O homem não procura o paraíso para ser feliz, ele escolheu antes o fruto proibido da árvore do conhecimento. Trocando por isso o paraíso oferecido pelo que lhe era mais necessário, o conhecimento da sua própria história. O poder sobre si próprio e o seu destino.  Relembra a frase no palácio de Delfos “Conhece-te a ti próprio”. Observo o Teatro nesta perspetiva, a prática eleita para ser vivenciada desde a infância de forma a dar resposta às questões que perturbam a criança, e em simultâneo permite experimentar criativamente o mundo de forma segura. O artista, homem, mulher, adulto, reflete, constrói a sua obra, utilizando os instrumentos de Brincar para reencontrar, reunir e construir a melhor forma a dar à natureza que se revela. A natureza genuína procurada e referida em tantos autores de teatro ao longo da história.

 

Encontro, graças às práticas teatrais com João Mota, ao trabalho de um encenador,  psicodramatista esloveno – Tomi Zanejic, a resposta para o melhor acesso a essa tão procurada e genuína natureza. Integra os instrumentos do psicodrama de forma a tornar conscientes os processos inconscientes dos criadores, permitindo encontrar a natureza do momento, a liberdade criadora e as interligações consequentes desse lapidar em cada obra.  Desta forma, brincando detalhadamente, ponto a ponto no caminho do guião, o actor sabe, acredita e encontra o que vai criar e solucionar para o que quer que seja necessário.  A sua espontaneidade mantém-se no que melhor responde a esse processo de recriação pessoal. O Teatro como instrumento e espelho do Homem na demanda do seu auto - conhecimento.  Um instrumento criativo que comporta em conjunto com todas as questões, todas as respostas para todas as questões do mundo.

 

Voltamos a falar do homem e daquilo que verdadeiramente o une aos outros homens:  a partilha, o encontro com a sua natureza.

 

 

Cecília Piscarreta é actriz, encenadora e formadora

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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