ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Cláudio Parreira


Contos    

eles, o ministério ou a institucionalização do absurdo

 

    Alguém ainda duvida de que vivemos num mundo distópico? Se por acaso tal dúvida ainda existir, certamente será dissipada pelos textos deste livro de Claudio Parreira. Breves e densos, conseguem, em poucas palavras — o que é um mérito — expressar de modo contundente o absurdo deste novo século e da realidade brasileira atual. Mas não é só isso. Conseguem ainda  ser atemporais, remetendo-nos para além de outras obras do gênero como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell ou ainda Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Seu conteúdo é mais kafkiano, remetendo-nos ao livro O Processo, mas contendo indiscutível voz própria, num estilo direto que nos choca.

 

Este trabalho revela o quanto a estrutura do poder é, em si mesma, absurda, seja qual for a tendência, a ideologia dominante, as tentativas de legalizá-lo e legitimá-lo. A essência do poder é o seu aspecto manipulador, opressivo, cruel, estimulando a coletividade a tornar-se apenas a manada passiva, obediente, servil. E nos faz refletir a respeito dos conceitos de democracia existentes numa época em que esta mesma democracia é, cada vez mais, apenas uma sombra de si mesma, mero simulacro a encobrir o processo de submissão e escravização, de destruição das individualidades.  Ainda revela algo aterrador: esse sistema alienante já foi incorporado pelas pessoas, tornando-as, não raro, incapazes de perceber isso, fazendo-as crer que tais ideias vêm delas mesmas em vez de terem sido inoculadas impiedosamente a ponto de os submissos defenderem seus algozes e apreciarem a própria submissão, de modo que o ser humano vai perdendo assim a sua humanidade: é apenas massa de manobra para um grupo interessado em dominar, explorar, manter privilégios por tempo indeterminado.

 

Hoje, por exemplo, pouco do meu pensamento é escolha minha. Fazem por mim, e me sinto extremamente grato por isso: dói menos, não traz problemas. Mas não foi sempre assim.

 

   Daí a importância deste trabalho de Parreira num momento em que a opressão, explícita ou encoberta, tem a pretensão de se tornar totalitarismo disfarçado de sistema bem intencionado. Como diz o velho ditado, de boas intenções, o inferno está cheio.

 

Cleber Pacheco

 

 

 

 

 

 

 

REVOLUÇÃO

 

Já faz algum tempo que Eles, o Ministério, decretou a prisão domiciliar compulsória, a PDC. De nossa parte, apenas um rumor ácido e silencioso borbulhando em cada janela, a fermentação que cresce escondida nas sombras. 

 

Foi uma provocação, naturalmente. 

 

Acontece, porém, que ninguém se comportou como Eles, o Ministério, esperava: eu permaneço aqui, em silêncio e de luzes apagadas, cumprindo resignadamente a minha PDC. Todos os outros, sei, fizeram a mesma coisa. Nem mesmo os gatos cachorros & outros animais domésticos se atrevem a sair de casa. Os únicos que estão nas ruas, fato curioso, são os agentes d’Eles, o Ministério, armas em punho e esperando que alguém saia para servir de exemplo. Pura perda de tempo.

 

Ninguém diz essas coisas, é natural, mas o fato de acatarmos integralmente as determinação d’Eles, o Ministério, significa uma ruptura no sistema. Uma verdadeira revolução. 

 

Sabemos todos que Eles, o Ministério, em breve ruirá sob o peso das próprias decisões. É impossível permanecer de pé quando não se encontra nenhum tipo de oposição. 

 

 

 

 

 

 

O CENTRO DO PHODER

 

Eles, o Ministério, mandou três agentes à minha casa hoje pela manhã. Todos muito educados, homens de bem, ternos alinhados e donos de uma presença impactante. Fiquei muito contente com a visita, honrado mesmo. Não é sempre que. 

 

Fui conduzido pelos agentes até um carro preto que nos aguardava lá fora. Não perguntei o nosso destino; eles permaneceram calados, como era de se esperar de homens dessa estatura. Eles, o Ministério, sempre age assim: seleciona apenas os melhores para as ações em campo. 

 

O carro rodou macio e atravessamos a cidade até um ponto que eu ainda não conhecia: o Centro do Phoder. Fiquei deslumbrado com a funcionalidade arquitetônica e o luxo à minha volta. Eles, o Ministério, não poupa recursos para o seu próprio bem estar — o que, de certa forma, deveria refletir no nosso, mas essa é uma questão menor que não cabe aqui. 

 

Com muita elegância, os homens me conduziram por um longo corredor acarpetado de vermelho e ladeado por candelabros que já ninguém usa mais. Ao fim do corredor chegamos a uma sala ampla, circular. O que primeiro me chamou a atenção foram as 13 cadeiras de couro escuro que repousavam, vazias, numa plataforma elevada. No centro dessa sala, uma cadeirinha simples, madeira pobre. Era evidente que estava reservada para mim. 

 

— Espere — disseram os homens. 

 

Foi o que eu fiz, resignado. Por uma hora, duas, cinco. Dois dias. Senti uma fome infernal; sede também. Mas Eles, o Ministério, havia me chamado. Era preciso. 

 

No quinto dia, acho, os juízes chegaram com suas togas e narizes empinados. Sentaram-se todos ao mesmo tempo, seus olhos gélidos grudados em mim. 

 

A sessão durou uma hora, duas, cinco. Três dias — ao fim do qual o juiz-presidente se levantou e manifestou o veredito do tribunal:

 

— A culpa é sua!

 

Todos eles se retiraram rapidamente. Ao mesmo tempo, os agentes voltaram e me conduziram até o carro preto. Fizemos o caminho de volta, em silêncio, e logo em seguida o Centro do Phoder se perdeu na distância sombria da memória. 

 

Agora estou em casa novamente. Nada mudou de fato, exceto a minha compreensão das coisas: sim, a culpa é minha.

 

 

 

 

 

 

O MANUAL DE COMPORTAMENTO DOMÉSTICO E ORDEM SOCIAL

 

Tenho seguido as orientações desde que me conheço por gente. São várias as atividades diárias, uma infinidade mesmo delas, mas para isso Eles, o Ministério, elaborou um manual que há gerações vem nos servindo de guia, seguro e detalhado, o que me deixa tranquilo e ao mesmo tempo apreensivo: é preciso estar atento, pois nunca se sabe.

 

O Manual de Comportamento Doméstico e Ordem Social tem pouco mais de 100 páginas, mas deixa claro tudo aquilo que devemos fazer em casa e nas ruas e, principalmente, nas atividades comemorativas e solenidades oficiais. É muito fácil, por exemplo, ir ao banheiro seguindo as orientações contidas no manual. Bocejar requer um ritual mais complexo, mas nada que impeça o sono. Difícil, às vezes, é tomar banho e repetir os gestos conforme o estabelecido, mas basta uma leitura atenta e tudo se resolve. Eles, o Ministério, sempre nos ampara em nossas pequenas e insignificantes necessidades.

 

A Ordem Social é a parte que mais me preocupa. Desde criança sinto uma apreensão irracional quando um evento é proposto por Eles, o Ministério: um bocejo fora de hora, um gesto mais largo, qualquer coisa que não esteja definida pelo Manual pode ter consequências inimagináveis. Muitos amigos desapareceram ou foram calados para sempre, isso é um fato. Eles, o Ministério, costuma colocar agentes infiltrados na multidão, e esses agentes, pela própria natureza da função, costumam ser implacáveis.

 

Gozo até agora de uma relativa tranquilidade em relação ao meu comportamento: venho seguindo religiosamente as instruções contidas no Manual. Mas resta ainda aquela sensação de um grande olho grudado nas costas, um medo de falar algo inconveniente, o temor de que um abismo me engula a qualquer momento.

 

 

 

 

 

 

PERMISSÃO

 

Fiz conforme o Manual Oficial de Solicitações, edição
Revista e Ampliada, julho/2007: utilizei lápis novo e fino número 2, grafite preto fosco apontado com Gillette Blue Blade. O formulário, naturalmente, era o padrão, em papel reciclado 90g/m², vermelho sangue clarinho, como mandam as recomendações e o Instituto Nacional de Burocratização Crescente adotado pelo país.

 

O preenchimento seguiu as orientações normativas d’Eles, o Ministério, das quais apenas alguns poucos são dispensados: nome completo, orientação sexual, religião, espessura do fio de cabelo, peso da alma, quantidade aproximada de palavras do vocabulário, diâmetro exato do testículo esquerdo e resumo da solicitação.

 

Escrevi lá, com a letra miúda que é a recomendada para esse tipo de pedido: “Solicito permissão para prorrogação de existência”.
 
 Faz anos que espero a resposta. Faz anos que não respondem. Isso pode significar uma negativa ou mesmo ignorância por parte d’Eles, o Ministério. Pode ser também exatamente o contrário, o que não aumenta nem um pouco as minhas chances de sucesso.

 

 

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor dos romances Gabriel e A Lua é um Grande Queijo Suspenso no Céu e também da coletânea de contos Delirium.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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