ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Assange e os estados terroristas    

Votámos há pouco. Todos os líderes políticos, editores de jornais, fazedores de opinião nos incentivaram a votar. Votando decidimos o nosso destino, o nosso presente e o nosso futuro. Vivemos num estado de Direito. Um Estado de Direito regula-se pelo direito e o primeiro direito é o da liberdade e a primeira das liberdades é sabermos e sermos informados do que faz o Estado de Direito dos nossos direitos.

 

Mentem-nos. Não com uma mentira absoluta, relativa, é certo, mas e sobre o essencial. O Estado de Direito não o é. Votamos, mas temos direito a saber o que o Estado faz, como gasta o nosso dinheiro, como respeita os princípios que apregoa, os que votámos e os que constam das nossas cartas fundacionais, as Constituições.

 

O Estado, a organização política da sociedade, pessoa de bem, dizem-nos, aquela respeitável instituição que corporiza a soberania no território onde são içadas as bandeiras nacionais, onde cantamos o hino e cujos jovens juravam defender com o sacrifício da própria vida, é em boa (má) medida uma organização criminosa até ao âmago. Uma organização ao serviço de uma estratégia de poder total, que conduz guerras em que os fins justificam todos os meios. Nós, os cidadãos, somos meros meios. Peças de caça que, quando se atrevem a exigir os seus direitos são abatidas sem dó nem piedade, à margem de qualquer regra.

 

O Caso Assange é um exemplo tenebroso de que os nossos Estados são organizações terroristas. E não se tratará de Estados quaisquer. São Estados que nos são apresentados como exemplos da nossa civilização. Desde logo a gloriosa Inglaterra, a mãe dos estados constitucionais, da Magna Carta, do parlamentarismo, das garantias, do individualismo, onde até há algum tempo os cidadãos nem aceitavam ter um bilhete de identidade. E depois a Suécia, a progressista Suécia do amor livre, da igualdade de homens e mulheres, da sexualidade liberal. E depois a Austrália, a pátria de Assange e, por fim os Estados Unidos da América, a cabeça do império do Mundo Livre, com uma estátua da liberdade logo à entrada. Bullshits!

 

Estados terroristas. Bastou um jovem programador levantar-lhes as saias e deixar sair o fedor que de lá veio com as suas operações secretas, as suas traições, os assassinatos, as mentiras aos seus cidadãos, a corrupção no âmago das suas instituições mais poderosas – forças armadas e serviços secretos - para as prostitutas e os seus patrões perderem o verniz de senhoras sérias. Para arriarem a giga, em linguagem popular.  Apoiados no aparelho judicial. Crimes dentro da lei.

 

Assange, um programador informático australiano, está numa prisão de alta segurança do Reino Unido, a pedido dos Estados Unidos por publicar a verdade sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão e foi preso por uma senhora sueca, de maior de idade, o ter acusado de assédio sexual! Da acusação de assédio de uma mulher de maior idade, liberal e informada à prisão de alta segurança do Reno Unido foi um rápido sem direitos. O terror da justiça em alta velocidade. Tudo isto perante a complacência cúmplice do Estado de que Assange é cidadão, a Austrália.

 

Assange, passado o ridículo da acusação de assédio sexual, que serviu para o deter, e o manter encarcerado na embaixada do Equador, foi vendido por este Estado sul-americano e está preso numa cadeia de alta segurança em Inglaterra, agora acusado pelos Estados Unidos de ter publicado o número real de civis mortos no Iraque e no Afeganistão, milhares de civis vítimas de bombardeamentos, mutilações e tortura. Publicou também informações sobre jornalistas mortos por tropas ocidentais, incluindo José Couso, espanhol morto no Iraque pelas tropas americanas (os espanhóis depois foram pressionados pelos Estados Unidos a não pedir uma investigação). Negócios e tráficos também foram motivo de acusação. Segredos de Estado. Assange está preso para servir de exemplo a outros jornalistas. O terrorismo de Estado e os crimes do Estado são boas ações! Sejamos ceguinhos e crentes.

 

Ele enfrenta a extradição para os EUA, para um julgamento que pode condená-lo à morte, por publicar informações de interesse público para os cidadãos de todo o mundo. Os aliados dos Estados Unidos são cúmplices. Assange, um cidadão australiano a viver em Inglaterra está a ser acusado, pelos Estados Unidos com base na sua Lei de Espionagem, usada pela primeira vez contra um editor. Uma lei americana ultra liberal, que não permite que se use como defesa o argumento de interesse público! (Mas o Maduro da Venezuela é que trata mal os cidadãos! E ditaduras são a Venezuela e Cuba!)

 

Nós, todos os europeus, somos cúmplices. Os nossos Estados são cúmplices da utilização do terror para esconder o terrorismo de Estado. E votamos!

 

Todos os Estados Europeus carregam crimes às costas, não sejamos ingénuos. Por isso não tomemos como justiça o que é terrorismo, nem como política o que é crime.

 

Em Portugal, a DGS e as suas antecessoras eram organizações de terrorismo de Estado. Não falemos de estados ditatoriais, terroristas por natureza, mas de Estado ditos democráticos e de Direito. Aqui ao lado, a Espanha já democrática utilizava os Grapo como instrumento de política de terror. A Inglaterra com as ações na Irlanda. A França do SDECE (os serviços secretos do conde De Marenches, do gaulismo, do SAC, da Mão vermelha, da Aginter Press do assassinato do marroquino Ben Baraka, a Loja P2 de Itália, a Gládio da NATO…das ações no Congo, no Biafra, na Líbia…) Gente de bem e associações de escuteiros. Em quem votamos para nosso bem!

 

As pessoas a quem os dirigentes do Estado tratam por bom povo gostam de acreditar na fantasia do Estado entidade de bem e para o bem. Na realidade, o Estado é uma matilha. Hesitamos em aceitar a hipótese de terem sido agentes de um Estado autores de crimes com a única finalidade de esconder outros crimes. Mas é assim que os Estados funcionam.   

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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