ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Marinho Lopes


A ditadura da verdade    

 

“You are not entitled to your opinion. You are entitled to your informed opinion. No one is entitled to be ignorant.” Harlan Ellison

 

Traduzindo a frase de Harlan Ellison: “Tu não tens direito à tua opinião. Tu tens direito à tua opinião informada. Ninguém tem direito a ser ignorante.”

 

A democracia, para se defender a ela própria, necessita de estabelecer limites às liberdades que oferece. Em particular, a liberdade de expressão tem que ser regulamentada de alguma forma.

 

Em 1945, Karl Popper escreveu em “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”:
“We should therefore claim, in the name of tolerance, the right not to tolerate the intolerant.”

 

“Portanto, em nome da tolerância, nós temos que reivindicar o direito de não tolerar o intolerante.” – O argumento parte da observação de que uma sociedade que tolere tudo irá permitir que apareçam grupos de indivíduos intolerantes que podem destruir a tolerância. Dada a altura em que foi escrito o livro, não é difícil de adivinhar parte da motivação de Popper.

 

Trata-se na verdade de uma consequência do “Princípio de Ofensa”. Segundo John Stuart Mill:
“The only purpose for which power can be rightfully exercised over any member of a civilized community, against his will, is to prevent harm to others.”

 

“A única ocasião em que o poder pode ser legitimamente exercido sobre um membro de uma comunidade civilizada, contra a vontade deste, é para evitar danos a terceiros.”

 

O problema está na definição de “dano” ilegal. Se por um lado todos concordamos que matar, roubar, violar, agredir, etc. são “danos” causados a terceiros que devem ser considerados ilegais, já difamar, caluniar, insultar, mentir, etc. podem por vezes ser permitidos. Onde é que devemos demarcar o limite? Não é fácil defini-lo pois pode ser necessário considerar a magnitude, a intenção e as consequências da ofensa.

 

A ilegalidade da mentira parece-me um assunto especialmente delicado. Primeiro é necessário determinar o que é verdade, o que não é de todo trivial em muitas situações. Assumir que a verdade é uma entidade única, independente e imutável é uma visão ingénua da realidade. Pelo contrário, a verdade pode ter várias formas, permitir várias interpretações, pode depender de quem a observa e pode ainda transmutar-se ao longo do tempo.

 

Visto que me dedico à Ciência, estou a pensar em particular na verdade científica e no seu impacto social, ainda que o que se segue se possa aplicar a outros domínios.

 

Podemos definir a verdade científica como sendo aquilo que resulta do consenso da comunidade científica. Não se trata de concordar por maioria democrática, mas antes constatar aquilo que a maioria das evidências e respectivas interpretações parecem indicar. É importante compreender que não obstante o facto desta verdade científica poder ser falsa, ela é a melhor aproximação que temos da verdade dados os meios de que dispomos num dado momento.

 

Se o leitor se deparar com um facto novo que contradiz o seu senso comum, é natural que não o aceite de imediato. Ser-se céptico é uma virtude. Contudo também precisamos de bom senso. O nosso pragmatismo deve-nos convencer a acreditar nas fontes de saber credível, uma vez que não temos disponibilidade para verificar a veracidade de todos os factos que povoam o mundo em nosso redor. É claro que as fontes de saber credível são os cientistas: aqueles que investiram toda a sua vida a explorar os factos em questão. Não querer acreditar na Ciência vigente é simultaneamente uma atitude arrogante e absurda. Argumentar que os cientistas também se enganam é como decidir deixar de comer porque uma vez uma refeição nos fez mal.

 

Não obstante, é necessário fazer aqui uma chamada de atenção que creio que explica em parte a falta de confiança social que hoje se faz sentir na comunidade científica. Grande parte das notícias sobre Ciência que chegam ao grande público focam-se nos limites da Ciência moderna: “Um novo estudo mostra que…”. Ora, em muitos casos, estes novos estudos debruçam-se sobre questões onde ainda não existe consenso científico, onde portanto ainda não existe uma verdade emergente. Por isso é razoável que destas notícias seja difícil extrair confiança. Essa confiança deve antes alicerçar-se na Ciência estabelecida, aquela que a História filtrou e que se traduz em muitos dos confortos da vida moderna.

 

Vivemos um momento histórico que parece inspirar-se em distopias como “1984” de George Orwell ou “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Trump, por exemplo, repete as mesmas mentiras tantas vezes que muita gente assume que deve haver algum fundo de verdade no que diz. No Reino Unido, o Brexit ganhou o referendo em parte por a população não ter sido devidamente informada (bem como por ter sido aliciada com mentiras). Neste caso o próprio referendo não fazia sentido, pois não é sensato oferecer este tipo de decisões ao público. Michael Gove proferiu uma das frases mais irresponsáveis da campanha pela saída da União Europeia: “I am asking the public to trust themselves. […] People in this country have had enough of experts…” (“Estou pedir ao público para acreditarem neles próprios. […] As pessoas neste país já ouviram o suficiente dos especialistas.”)  Isto é o mesmo que afirmar que quanto mais nos informamos sobre algo, menos devemos confiar na nossa opinião. Em conformidade, após o resultado do Brexit, uma das questões mais procuradas no Google no Reino Unido foi “what is the EU?” (“o que é a União Europeia?”).

 

Não, nem todas as opiniões têm igual validade. Existem grupos de pessoas cuja opinião vale mais que as opiniões dos outros numa dada área do conhecimento: refiro-me aos especialistas dessas áreas. Se tivermos um problema com o carro, consultamos um especialista: o mecânico. Em geral, para cada problema temos pessoas especializadas que nos podem ajudar: médicos, electricistas, advogados, canalizadores, etc. Utilizar os seus serviços é uma forma de elitismo? Talvez seja, dependendo da forma como definamos “elitismo”.

 

Um exemplo que ocorreu em Portugal no ano passado: a maioria dos portugueses queria acabar com a mudança de hora. Muitos indignaram-se com a atitude sensata de António Costa, que disse que preferia seguir a opinião científica apresentada pelo Observatório Astronómico de Lisboa. Há razão para indignação? Não, há mas é razão para preocupação por se ter uma sociedade que acredita que deve ser ouvida numa questão onde uma verdade técnica pode ser apurada. (Não obstante, a “verdade técnica” pode incluir uma vertente social que pode ser apurada com sondagens públicas.)

 

Os meios de difusão de informação têm um papel preponderante na forma como a sociedade se vê a si mesma e nos direitos opinativos que revê em si própria. Dar tempo de antena à sociedade para esta se expressar sobre um assunto em que é ignorante equivale a dar um sentido de legitimidade à ignorância. Os debates podem ser igualmente perigosos, dependendo da forma como são formatados. Por exemplo, debates sobre Criacionismo versus Evolucionismo ou sobre alterações climáticas podem dar a impressão de que são questões onde ainda não existe um consenso científico. Pelo contrário, nestes debates tem-se por norma um cientista a tentar desconstruir as falácias do oponente. Contudo, também não se pode proibir a difusão da ignorância, pois é importante usá-la para informar. Proibir é perigoso pois por um lado não podemos confiar de forma cega no conhecimento de quem proíbe e, por outro lado, devemos estar cientes que a proibição pode sobrevalorizar aquilo que pretende banir.

 

Em conclusão, a verdade e o conhecimento não são democráticos, mas para defender a democracia é crucial defender a verdade. Não é igual estar-se certo ou errado. Mentir pode ser crime dependendo das consequências que advenham da mentira. Estar mal informado pode, em certas circunstâncias, ser considerado uma negligência ilegal. O nosso futuro depende da verdade, quer o reconheçamos ou não. Importa, por isso, informar e edificar espírito crítico na sociedade.

 

 

“Querida, não podes acreditar em tudo o que lês. É o que está aqui escrito na internet!”

 

 

Marinho Lopes é Doutor em Física pela Universidade de Aveiro

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Paginação:

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