ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Fabrício Marques ; Libério Neves


Dossiê Libério Neves: Vida e Obra Literária    

Uma homenagem ao poeta

 

 “O poeta brasileiro Libério Neves nasceu no Brasil, em 1934 na cidade de Buriti Alegre. Viveu desde 1952 em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde faleceu em agosto de 2019. Poeta, prosador e advogado. Licenciado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Membro do grupo artístico Vereda. Pertenceu à redação do «suplemento literario» do diário de Minas Gerais. Recebeu o Premio Cidade de Belo Horizonte (1964); o Prêmio Cláudio Manuel da Costa da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Minas Gerais (1969). Publicou sua poesia em “Pedra Solidão” (1965), “O ermo” (1969), “Força de Gravidade em Terra de Vegetação Rasteira” (1978) e “Circulação de Sangue” (1983), “Santa Tereza” (2011); sua ficção em “Pequena memoria de terra funda” (1971), “Mil Quilometros redondos” (1974), entre outros.”

 

A recente partida do poeta Libério Neves fez surgir esse dossiê informal que iniciou como uma homenagem. O dossiê surgiu de nosso convite a Fabrício Marques, que nos referenciasse. Prontamente atendidos e com delicadeza imensa, pareceu natural incluir alguns dos colaboradores de InComunidade convidados a nos enviar um poema de Libério à escolha de cada um. São escritores, leitores brasileiros de Libério Neves que colaboraram com esta publicação: Caio Junqueira Maciel, Hugo Pontes, Lino de Albergaria, Myrian Naves, Ronald Cláver; Silvana de Menezes, também sua ilustradora.
 

 

O ENCANTADOR DE PALAVRAS

 

Prefácio de Fabrício Marques para Antologia - Papel Passado - Libério Neves. Editora UFMG, 130 págs.2013.

  

Fabrício Marques

 

É provável que, ao terminar de ler esta antologia, com uma sequência matadora de clássicos instantâneos, o leitor, por assim dizer, se sinta enganado por críticos e especialistas: onde eles estavam que não chamaram sua atenção para Libério Neves, alguém com uma produção de quase meio século, contando 27 livros publicados, dos quais quatro de poemas – e sem considerar quatro que permanecem inéditos?

 

Uma parte desse silêncio em torno de Libério debita-se ao seu temperamento discreto e reservado. É quase como se ele tivesse feito um trato com a vida: de um lado, fingem não vê-lo; contudo, no seu canto, sabe-se Poeta, entre grandes, mas não espalha a notícia para ninguém. Não há ressentimento, muito embora concorde com Drummond, que o poeta é um ressentido, pois esse ressentimento de que fala traz o poeta ao nível de ser carne e sangue, absorvendo como esponja as “violências sutis e descaradas”, como observou em entrevista a Paulinho Assunção, em meados dos anos de 1970.

 

De fato, o poeta ainda não faz parte do cânone de nossa literatura também por um cochilo dos críticos e especialistas. Esse fato nem causa muito espanto: revela bem o espírito de nossa época. Pior para a época, alheia às criações deste goiano nascido em um lugar conhecido como Ribeiro das Antas, município de Buriti Alegre, em 1934. Goiano por pouco tempo, é importante registrar: ainda criança, foi se aproximando bem devagar, pelas beiradas, de Minas Gerais. Primeiro, mudou-se para Tupaciguara e, com 16 anos, para Uberlândia – ambas no Triângulo Mineiro -, até chegar, em 1954, a Belo Horizonte, de onde não mais arredou pé. Essa dupla cidadania valeu-lhe a alcunha, creditada ao poeta Bueno Rivera, de “goianeiro”, uma mistura do campo e da cidade transposta também para os versos.

 

A lembrança dos pais revela muito a fonte de sua lavra poética: seu Marinho era “homem dos currais e das longas pousadas, a alma feita de bois e os burros brabos”; dona Gabriela, “mulher da bica d’água e das gamelas, as grandes madrugadas do monjolo e a mão-de-pilão nas origens”.

 

Começou a trabalhar menino ainda, vendendo doces para a mãe e engraxando sapatos. Ao mesmo tempo, descobria a poesia, ouvindo um colega recitar Bilac: “achava bonito e não conseguia recitar bonito daquele jeito, a emoção da poesia me travava o queixo, a fala saía de arranco e todos notavam aquilo, aquilo me abatia”.

 

No início dos anos 1960, ajudou a fundar a revista Vereda, na companhia de alguns jovens poetas, como Henry Corrêa de Araújo, Vladimir Diniz e Maria do Carmo Ferreira. O objetivo era, sem prescindir da preocupação dos problemas sociais, fazer poesia mais voltada para os ideais do concretismo, como ocorre em seu poema mais conhecido, “Pássaro em vertical”, que figura ainda hoje em livros didáticos. Em seguida a Vereda, ligou-se ao “Suplemento Literário do Minas Gerais”, fase em que conheceu o poeta Emílio Moura. Entre os dois acontecimentos, publicou seus dois primeiros livros, ambos premiados: “Pedra solidão”, de 1965, e “O ermo”, de 1968 – e é na estreia que se verifica mais forte a influência concretista. O poeta afirmou em uma entrevista a Carlos Herculano Lopes, em 2007: “A grande conquista que adquiri com os exercícios e a experiência da poesia concreta foi o trabalho diante da palavra. Saber pesquisar a palavra, a sonoridade da palavra e as combinações que ela oferece. Daí julgo ter conseguido uma linguagem que, até certa forma, posso considerar original. A partir de “O ermo”, já não tenho mais aquele compromisso amoroso do início com a poesia concreta. Pude, então, dar meu grande salto para soprar a minha linguagem do jeito que gosto”.

 

Impressiona, de saída, a unidade que percorre esses livros inaugurais, até chegar ao inédito e mais recente “A lira madura”, esperando, há anos – pasmem – publicação. Nesses livros é possível perceber o arsenal criativo sem limites de Libério, do qual o ensaísta Antônio Sérgio Bueno destacou a variedade de ritmos, o deslocamento criativo, a pura musicalidade, a sintaxe inusitada dos versos, as paronomásias, a desconstrução de frases feitas, os finos jogos semânticos, os efeitos sonoros e o envolvente lirismo.

 

Em seus poemas, Libério criou uma estrutura de versos curtos incendiados por uma música verbal singular, que lhe permite ser sofisticado sem ser maneirista, exuberante sem ser barroco. Os pouco felizes que tomaram contato com sua obra de imediato reconheceram a qualidade dela, como, por exemplo, Affonso Ávila, Carlos Drummond de Andrade, Dantas Motta, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes, Oswaldo França Júnior e Silviano Santiago. Este observou que, na poesia de Libério, “O ser humano e a natureza se dão metamorfoseadamente em linguagem. (...) A linguagem poética serve de mecanismo de integração do homem no universo – seu ponto de apoio e seu sentido”.

 

Como amostra dessa relação, esta antologia destaca um possível arranjo para conhecer sua obra, dividindo os poemas em três eixos, à maneira de um grande haicai. Em todos eles, a memória lança “seu claro raio ordenador”, mas de modos distintos.

 

Em “O homem, ermos”, a paisagem interior fica em primeiro plano. É a memória de um “tempo fantasma/ tempo lesma/ sem plasma”, na certeza de que “o homem leva consigo coisas invioláveis”. É uma metafísica melancólica, em que a voz poética ora reconhece:
“os dias de minha vida/ são dias de pouca vida”; ora “me consolo/ da sobra do mundo”. Ou ainda: “Vã poesia dorme / no apogeu da aurora”. Não é lamento – nem lamúria!- mas constatação de que “o homem cresce de si mesmo, e a si retorna em seu ermo”. Ou: “chamamos o sangue em vida, sabemos terra na morte”. São perdas observadas por um relógio invertido com os ponteiros voltando para o ontem, na bela imagem do poeta. Outros poemas acenam para um erotismo vertiginoso (“os homens cheiram suas fêmeas como se mugissem touros, resfolegassem cavalos ou arrulhassem pombos”).

 

Na segunda parte, “A terra, bichos”, versos telúricos embalam a geografia do mundo rural e da vida citadina.  Paisagem interior cede lugar para éguas, cão, jumento, boi, peixe, formiga, pássaro, Coruja, coruja, arara, seriema, gato. A observação, sem condescendência, da animália permite ao poeta vaticinar: “Nós somos os tristes / e a nós consolamos / na dor que consiste / em sermos humanos”.

 

Finalmente, “O tempo, coisas” reúne poemas que falam do grandioso espetáculo das minudências, ou, usando uma expressão do poeta, da “vida menor”, pressentidas em uma folha de jornal, num rio que corta a cidade ou no hospital; em um sertanejo, um escravo, ou no Rio das Velhas, ligado historicamente aos Inconfidentes.

 

Outro motivo de Libério é de teor metalinguístico, que nos ajuda a entender sua poética e suas referências, aqui explicitadas: “João Cabral falou da cana, do canavial. Eu digo a cana cortada, sem o toco nem a soca. Só a cana moenda, gomo a gomo mais lenta na engenhoca”. Se em ambos há a busca da síntese, de uma poesia descarnada, o poema parece dizer que há uma sutil diferença entre eles, pois Libério buscaria uma poética dos cortes, de ecos, ligada à musicalidade das palavras. Um quase-simbolista para o século 21 (Vale acrescentar: além de Cabral, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira ocupam o lugar mais alto na sua escala de valores poéticos). Essa afirmação de estilo confirma que Libério seguiu o conselho de Emílio Moura, no início dos anos 1970: “você precisa ter muito cuidado porque você está se deixando levar pelo estilo do João Cabral. Você não precisa seguir ninguém. Você pode partir de todos, mas deve ter o seu caminho”.

 

Os 63 poemas aqui reunidos demonstram a relação de Libério com as palavras. Ao manejá-las, fica claro que é ele que assume o controle por autoridade natural e por sua força de poeta. Ele é um gentleman do verso: há uma classe, uma elegância que ele empresta ao que é dito e no como é dito, promovendo algo assim como um encantamento das palavras. Saímos estimulados de seus versos memoráveis e das questões que suscitam. Há uma justeza no modo como as pessoas e as coisas – pelo filtro da memória – são apresentadas, intensamente espontânea (lembrando de quanto trabalho é preciso para que algo seja lido como “espontâneo”).

 

Libério acredita no poder da poesia e cada poema seu é um convite para que o leitor experimente esse poder. Ainda é tempo de descobri-lo, ele que se aproxima dos 80 anos. Essa descoberta será uma alegria para o poeta e para os leitores.

 

 

Do ser o ser e ser seu parecer

 

 

 

Libério Neves

 

No quando em conversando assim contigo
e tido em ser um ser assim sincero
sou uma sombra boa, um vulto amigo

 

e sou, quando te falo, e quando sério
um grave ser sutil que nesta vida
transcende ao anjo, ardendo-se matéria

 

minha palavra então espessa vibra
ou tímida se evola, ou gruda como visgo
nos corações melífluos das pessoas.

 

Contudo quando durmo (quando em sonho)
ou quando em meus re-versos me componho
um outro eu, em mim, pulsa e ressoa

 

uma linguagem funda e diferente!
pois uma coisa é ter-se o meu retrato
que mostra o magro rosto externamente,

 

enquanto que mostrado, em raios-X,
o dentro é contraponto e ponte exata
entre o ser-se o que é e o que se diz:

 

bem mais que olhos mansos nas capelas
ser o suspiro posto à luz das velas
queimando entre ser alma e ser matriz.

 

 

 

*************

 

 

 

 

 

Escritores brasileiros leem Libério Neves

 

 

I.

 

Fabrício Marques

 

*
(Curador da mostra de poesia de Libério Neves em 12 + 1 poemas de Libério Neves; Poemas do site: http://www.vallejoandcompany.com/12-1-poemas-de-liberio-neves )

 

 

 

 

 

 

PAPEL PASSADO
 

 

Se, por acidente, moléstia ou velhice, algum dia eu vier a ver-me (resto) imóvel no lençol, a depender, por caridade ou pelo amor, do vosso gesto difícil, esse gesto de lavar meus panos de matéria e de limpar os meus resíduos deste mundo, assim constantemente no cotidiano de uma lenta espera do expirar de tudo, isto será profundo para vós e doloroso para mim.

 

E certamente é certo que não terei palavras, nem gestos, para vos agradar; é certo que os meus olhos lá serão de piedade, olhando as vossas fisionomias desanimadas olhando-me nos panos, e sofrereis demais e eu bem mais desesperadamente.

 

Antes que isto porventura ou positivamente ocorra, lavro a declaração presente, antecipada, de que no quando (eu) assim restar, imovelmente mudo, contudo ainda vivo, estarei a todo instante, em mente, beijando as vossas mãos em mim santificadas, nessa final humilhação do corpo, essencial talvez à filtração da alma.

 

 

 

 

 

 

DO SER O SER E SER SEU PARECER
 

 

No quando em conversando assim contigo

 

e tido em ser um ser assim sincero

 

sou uma sombra boa, um vulto amigo

 

 

 

e sou, quando te falo, e quando sério

 

um grave ser sutil que nesta vida

 

transcende ao anjo, ardendo-se matéria

 

 

 

minha palavra então espessa vibra

 

ou tímida se evola, ou gruda com visgo

 

nos corações melífluos das pessoas.

 

 

 

Contudo quando durmo (quando em sonho)

 

ou quando em meus re-versos me componho

 

um outro eu, em mim, pulsa e ressoa

 

 

 

uma linguagem funda e diferente!

 

pois uma coisa é ter-se o meu retrato

 

que mostra o magro rosto externamente,

 

 

 

enquanto que mostrado, em raios-X,

 

o dentro é contraponto e ponte exata

 

entre o ser-se o que é e o que se diz:

 

 

 

bem mais que olhos mansos nas capelas

 

ser o suspiro posto à luz das velas

 

queimando entre ser alma e ser matriz.

 

 

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ECLIPSE
 

 

Os dias de minha vida

 

são a pele de minha alma

 

respiro raios de sol

 

deito ao chão a lua branca

 

 

 

a pele é de pelos negros

 

os pelos têm poros fundos

 

os fundos são todos negros

 

 

 

os dias de minha vida

 

são dias de pouca vida

 

 

 

feitos de sol e de gelo.

 

 

 

 

 

 

O MAGRO
 

 

Eu me infiltro

 

por onde que eu for

 

me equilibro

 

no polígono menor

 

 

 

eu me visto

 

de o homem mais nu

 

e me sirvo

 

de vara e bambu

 

 

 

me consolo

 

da sobra do mundo

 

me retorno

 

mais fácil do fundo

 

 

 

eu me escondo

 

na sombra dum poste

 

e me aponto

 

mais leve na morte.

 

 

 

 

 

 

O ERMO
 

 

O ramo seca

 

último

 

em essas planuras

 

onde pedra a flora

 

 

 

o remo safa

 

ao fundo

 

ora essas canoas

 

e jangadas ora

 

 

 

a rima rima

 

resume

 

vã poesia dorme

 

no apogeu da aurora

 

 

 

a roma soma

 

corcunda

 

esse avaro câmbio

 

lei de aval e mora

 

 

 

o rumo some

 

só mundo

 

a esses duros nomes

 

repetindo as horas

 

 

 

 

 

 

RETRATO NAS MÃOS
 

 

1

 

 

 

Dez anos ando

 

me alongando

 

do presente

 

deste retrato

 

 

 

são seis anos

 

e mais quatro

 

que distancio

 

e ele sorri

 

 

 

2

 

 

 

bem mais ainda

 

este retrato

 

de fato e fixo

 

é só rir

 

 

 

seu olho vira

 

quando viro

 

olhando ponto

 

que não eu

 

 

 

não fez anos

 

nem sofreu

 

roído no amplo

 

riso sem véu

 

 

 

3

 

 

 

meus olhos indo

 

vou colhendo

 

o fio leve

 

que nos prende

 

 

 

fio mais leve

 

do que vento

 

é o fino

 

fio da mente

 

 

 

4

 

 

 

já o retrato

 

é semovente

 

e o seu contato

 

me alimenta

 

 

 

quanto sente

 

em suas mãos

 

antigas mãos

 

da memória

 

 

 

5

 

 

 

envolvemo-nos

 

e unimos

 

isto que somos

 

em nós outrora

 

 

 

6

 

 

 

e no remanso

 

de essa mansa

 

espuma em

 

que se fundem

 

 

 

nossos rostos

 

se confundem

 

no profundo

 

e mais afundam

 

 

 

7

 

 

 

mas esse tempo

 

fantasma

 

é tempo lesma

 

sem plasma

 

 

 

8

 

 

 

em meus olhos

 

me procuro

 

torno às falhas

 

da dentadura

 

 

 

retrato mole

 

molhado imóvel

 

olha seu ponto

 

longe e escuro.

 

 

 

 

 

 

AS PERDAS
 

 

Minha mãe afundou no lar

 

meu pai nos sertões de mundo

 

 

 

foi ela (só) de esperar

 

meu pai nas léguas do mundo

 

 

 

minha mãe, eu vi chorar

 

 

 

– ele, que o diga o mundo.

 

 

 

Ela dormiu (era a noite!)

 

e muita coisa ficou morta

 

muita fala ficou muda

 

 

 

parte meu pai neste dia

 

e muita coisa ficou fria

 

muita terra ficou funda.

 

 

 

Porém, por ela houve lágrima

 

por ele um vago profundo

 

 

 

se grave é perder a lágrima

 

retê-la é secar o mundo.

 

 

 

 

 

 

BALANÇO

 

 
Quando vais

 

eu sempre venho

 

sempre vou

 

quando te vens

 

 

 

de onde

 

para onde vais?

 

 

 

penso e calo

 

 

 

perguntar

 

(penso) jamais

 

 

 

que se igual

 

pergunta acaso

 

me fizeres

 

indo e vindo

 

 

 

dir-te-ei

 

eu vou e venho

 

 

 

não sei se vou

 

ou se venho

 

 

 

ir e vir

 

sem foz e fonte

 

 

 

seria um bem?

 

 

 

não sabemos

 

bem sabemos

 

 

 

do vaivém vivo

 

e te espero

 

no caminho onde

 

sorrimos

 

 

 

nossos olhos

 

indo e vindo.

 

 

 

 

 

 

VELADA EM LUA
 

 

Fundo sono cobre até o rosto

 

como um lençol de transparência.

 

Uma sombra pulsa, à luz exposto

 

ó corpo no seu úmido silêncio.

 

Nenhuma palavra, nenhuma

 

sílaba se põe entre a distância

 

de nossas bocas semiabertas,

 

em leve a sua e feita em ânsia

 

 

 

a minha. Todavia, deserta,

 

não pode a mão tecer o rumo

 

nem construir o ardor do gesto.

 

 

 

Suspensa imóvel sobre as plumas.

 

 

 

antologia2

 

 

 

 

 

 

CÍRCULO
 

 

(que sendo redonda a terra

 

um dia nos encontraremos)

 

 

 

1

 

 

 

Onde respira

 

o teu sonho

 

ali meu sonho

 

termina

 

 

 

da noite venho

 

e componho

 

auroras vãs

 

de menino

 

 

 

 

 

2

 

 

 

longo é o sempre

 

e nos domina

 

um susto simples

 

e estanho

 

 

 

visão vislumbro

 

e neblina

 

mas peso fundo

 

e montanha

 

 

 

3

 

 

 

caminhas vento

 

e horizonte

 

o olhar de azul

 

e de vinho

 

 

 

eu penso o rumo

 

da fonte

 

e enquanto espero

 

caminho.

 

 

 

 
in:  http://www.vallejoandcompany.com/12-1-poemas-de-liberio-neves/?fbclid=IwAR09knaYQTKOhJ57NI_aQfcqLVLGLFxuhYtYMdmkpVDDw2b1lB3oKuQkofw

 

 

 

 
II . Caio Junqueira Maciel:

 

Em: LIVROS NOS LEVAM LONGE (MMCXI)  A poesia de Libério Neves

 

 

 

 

 

 

Herança

 

 

 

1

 

Eu sou esse menino
e ainda me nino
colado no dilúvio
e olhando a nuvem

 

pisado no tempo
desta relva seca
pelo-me na têmpera
de ao sol a cera

 

meu olho vai-se
pelo além da fóssil
lenda dessa nuvem
uma quase chuva

 

2

 

sou esse menino
e ainda me animo
a erguer-me árvore
neste solo árido

 

haurido no sempre
ser a espera fosca
de fazer no vento
em folha o rosto

 

3

 

o tempo está de
me valer de espada
contra ser a nuvem
próxima dilúvio

 

e muito mais ainda
piso o céu unindo
terra que me pisa
e o mais liso azul

 

4

 

sou esse menino
e arvorar-me ave
de vazar por cima
o cimo desse azul."

 

(Libério Neves. Antologia poética. Belo Horizonte: UFMG, 2013)
*In memoriam ao grande poeta

 

 

 

III . Hugo Pontes:  DOIS POEMAS DE LIBÉRIO NEVES

 

 

 

 

 

 

SALTO NO CORCOVADO

 

 

 

I
Quando se eleva
nos avessos
de voar

 

pro fundo do abismo

 

II

 

quando se eleva 
no arremesso 
de sondar 

 

seu cataclismo 

 

III 

 

quando em nervos
alma os ossos
de afundar

 

no fim do adeus 

 

IV

 

quando em trevas
e os destroços
de evolar

 

nos pés de Deus.

 

 

 

In: SLMG, de 12 de setembro de 1970, nº 211, p.1

 

 

 

 

 

 

OS RESÍDUOS

 

 

 

Quando eu durmo
Mesmo quando 
eu durmo 
(existe luz 
no corpo 
mesmo quando)

 

e quando ando 
a esmo e quando 
ando 
(resiste lúcido 
no crânio 
o mesmo ânimo)

 

Quando no susto 
mesmo quando  
no susto 
(existo em nível 
e em prumo
mesmo quando) 

 

e quando escuto 
o vento quando 
ainda brando 
(brado profundo 
no silêncio 
mesmo quando)

 

Quando procuro 
mesmo quando 
procuro  
(consiste muro 
no sopro
deste quando)

 

e quando escuro 
o ermo quando 
escuro
(insisto e furo 
perfuro 
o ermo e ando)

 

Quando me acuso 
mesmo quando 
me acuso
(resiste o rosto
sua morte 
mesmo quando)

 

e quando escuso
o impulso quando  
ainda e grande
(existe sombra 
no âmago
ainda e quanta).

 

Libério Neves. In Suplemento Literário do Minas Gerais nº 184, de 7/3/1970, p.4

 

 

 

IV . Lino de Albergaria:

 

 

 

“Um poema do livro do Libério Neves, "Voa, Palavra", publicado para leitores infantis, mas de uma força universal, com forte parentesco com a poesia concreta.”

 

 

 

 

 

 

ARARA I

 

 

 

Araras nos ares
asas no azul

 

araras nas claras
luzes do sol

 

aéreas araras
em carrossel

 

sombras das araras
em vertical

 

araras aos pares
alegres em bando

 

Arara
ararA

 

indo ou voltando

 

cores em coral
no céu voando.

 

 

 

De Voa, Palavra (2012)

 

 

 

 

 

 

 

V .

 

Myrian Naves

 

 

 

 

 

 

DOAÇÃO
 

 

Dou minha matéria à terra.

 

Entanto antes apresento

 

o corpo a ti, doutor, para

 

a ciência dos teus dentros.

 

 

 

Tu vês o cérebro

 

em seus maciços de estanho,

 

mas não dissecas os versos

 

aí regurgitando

 

inconclusos ou inéditos.

 

 

 

Vês no avesso em mim a pele,

 

mas não seus arrepios

 

de febre ou dor ou medo

 

no amplo dos meus pelos.

 

 

 

E vê dentro das veias

 

o sangue escura sombra.

 

Os gens, tu não vislumbras

 

da ira funda contida

 

no amarrar-me amargo à vida.

 

 

 

Vês os nervos estendidos

 

com suas cordas dormidas,

 

e nunca sabes perceber

 

as vibrações mais vivas

 

dos meus íntimos tremores.

 

 

 

E tem em mãos o coração!

 

Mas não levas o poder

 

(indo além do endocárdio)

 

de reter estes impulsos

 

do meu secreto amor.

 

 

 

Então eu dou à terra

 

pulmões e unhas e ossos

 

e outras partes singulares.

 

 

 

Não posso dar os versos,

 

não posso meus arrepios

 

nem as iras e as tremuras

 

voando com os meus amores

 

dissolvendo-se nos ares.

 

 

 

Libério Neves, Papel pasado. Antologia poética.

 

 

 

VI.

 

 

 

Ronald Cláver:

 

 

 

PÁSSARO EM VERTICAL

 

 

 

Cantava o pássaro e voava
     cantava para lá
voava para cá
voava o pássaro e cantava

 

de
   repente
        um
        tiro
          seco

 

    penas fofas
     leves plumas
     mole espuma

 

      e um risco
      surdo
       n
       o
       r
       t
       e
       -
       s
       u
       l

 

 

 

  Libério Neves, em Pedra Solidão (1965)

 

 

 

VII.

Silvana de Menezes

 

 

 

Libério Neves

Fabrício Marques

 

Fabrício Marques é poeta memorialista natural de Manhuaçu, no território Caparaó, Brasil. Trabalha a relação entre o homem e a máquina para dar corpo à sua poesia. Foi editor do Suplemento Literário de Minas Gerais em 2004. Publicou os seguintes livros de poesia: “Samplers” (Relume Dumará, 2000, Prêmios Culturais de Literatura do Estado da Bahia), “Meu pequeno fim” (Scriptum, 2002) e “A fera incompletude” (Dobra Editorial, 2011, finalista dos Prêmios Portugal Telecom e Jabuti). Também é autor de “Uma cidade se inventa” (Scriptum, 2015, finalista do Prêmio Jabuti), “Dez conversas” (entrevistas com poetas contemporâneos, edição bilíngue, Gutenberg, 2004, finalista do Prêmio Jabuti) e “Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski” (ensaio, Autêntica, 2001). Organizou, para a Editora da UFMG, “Sebastião Nunes” (2008) e “Papel Passado” (seleção de poemas de Libério Neves, 2013). Juntamente com Tarso de Melo, organizou a antologia digital “Inventar la felicidad. Muestra de poesía brasileña” (Vallejo & Co., 2016). Participa de antologias e festivais de poesia no Brasil e no exterior.

Libério Neves nasceu em Buriti Alegre, Brasil, 1934. Viveu desde 1952 em Belo Horizonte, faleceu em agosto de 2019. Poeta, prosador e advogado. Licenciado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Membro do grupo artístico Vereda. Pertenceu à redação do «suplemento literario» do diário de Minas Gerais. Recebeu o Premio Cidade de Belo Horizonte (1964); o Prêmio Cláudio Manuel da Costa da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Minas Gerais (1969). Publicou sua poesia em “Pedra Solidão” (1965), “O ermo” (1969), “Força de Gravidade em Terra de Vegetação Rasteira” (1978) e “Circulação de Sangue” (1983), “Santa Tereza” (2011); sua ficção em “Pequena memoria de terra funda” (1971), “Mil Quilômetros redondos” (1974), entre outros.

Biobibliografia sugerida sobre a obra do poeta Libério Neves:
“A música verbal de Libério Neves”: https://issuu.com/suplementoliterariodeminasgerais/docs/liberioneves

Antologia – “Papel Passado” - Libério Neves. Editora UFMG, 130 págs.2013.

Castello, José. Libério vai ao médico. “Gazeta do Povo”. Caderno Gcolunistas. 17/08/2013. https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/jose-castello/liberio-vai-ao-medico-bie573o66lbs30n8yztfoc766/

Marques, Fabrício. O homem e os seus possíveis: Morte de Libério Neves faz relembrar a obra do poeta que escrevia como se jogasse snooker. “Folha de Sâo Paulo”. Quatro cinco um, A Revista dos Livros. 1set2019. https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/p/o-homem-e-os-seus-possiveis?fbclid=IwAR1kKSPhGE8nov9o9ylI5fSk4Qs9uC40AjycVHOQYUv5jPvn5brWsEem27U

http://www.vallejoandcompany.com/12-1-poemas-de-liberio-neves/

Além de Fabrício Marques, outros escritores, leitores brasileiros de Libério Neves colaboraram com esta publicação: Caio Junqueira Maciel, Hugo Pontes, Lino de Albergaria, Myrian Naves, Ronald Cláver; Silvana de Menezes, também ilustradora.

Myrian Naves (organização)

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


FICHA TÉCNICA


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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