ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Para degustar a poesia que há na “Pele de Jabuticaba”, de Caio Junqueira Maciel – seis poemas do livro    

 

PELE DE JABUTICABA

 

Caio junqueira maciel
editora Urutau
primeira edição
2019
78 páginas
idioma: português
Brasil

 

Para a degustação de nossos leitores, seis poemas do livro “Pele de Jabuticaba”, a mais recente obra de poesia de Caio Junqueira Maciel, publicado pela editora Urutau em 2019. Estão acompanhados do texto de Maurício Meirelles,

 

_sobre este livro

Maurício Meirelles*

 

“Esta doçura / tem casca preta”, nos alerta Caio Junqueira Maciel num dos poemas deste seu pele de jabuticaba, nono livro publicado pelo autor. A metáfora, síntese da desconstrução poética que o escritor faz do mito brasileiro da democracia racial – que, para escamotear a tensão social e o preconceito, atribuiu ao negro uma suposta candura –, soa como ácida ironia diante do tema que organiza o núcleo dos poemas do livro: a revolta de um grupo de escravos contra seus senhores, ocorrida em 1833 numa fazenda do sul de Minas Gerais, terra natal do poeta.

 

O fato histórico é ponto de partida para refletir sobre nosso passado comum: “Escutem o galope daqueles cavalos / (e o golpe nas portas daqueles machados) / […] // Relinchos noturnos, obscuros remorsos, / memória estragada, lembranças que mordem”. É também um fluxo interno que, ativando a sensibilidade do poeta, coloca em movimento a engrenagem íntima de seu fazer: “Vem da bica este fluxo da memória, / o curso d’água, simplesmente rego, / que carrego comigo há tantas décadas. // […] tudo é penumbra, / banzos e martírios sem aleluias, / criaturas sem zelo na senzala.”

 

Como num antigo moinho de pedras, as rodas da memória histórica e da memória individual giram em direções contrárias, e o atrito produz a matéria poética que o autor nos oferece: “O que for resíduo / entra nesta escrita, / engenho, oficina. // Ele é minha tropa / puxando a carroça / do que é memória.” A ferramenta que o escritor maneja com habilidade, no entanto, é a linguagem, e seu artefato, uma poesia potente como o tropel que atravessa a “Cavalgada do insone”, poema de abertura do livro: “entranhas varadas por trôpegas tropas / fazendo das tripas uns trapos que fedem.”

 

O poeta é um caçador que, com a cadela “chamada ‘Lembrança’”, rastreia o tempo “que foge / que foge.” Não encontrando a presa, seu olhar crítico mira a caça de animais selvagens, prática cruel através da qual o passado também perdura no presente: “A caça é esporte… perguntem à veada” / […] / “perguntem se ela, tremendo de medo, / também se diverte com tanto galope.”

 

A partir da geografia rural do Sul de Minas, Caio Junqueira Maciel desenha uma cartografia subjetiva, feita de nomes de lugares misteriosos – Bela Cruz, Traituba, Favacho –, e, com sua imaginação poética, nos faz refletir sobre as lacunas, omissões e mentiras que compõem nossa (des)memória coletiva, povoada por fantasmas de cadáveres insepultos que perturbam o sono de todos nós.

 

(*) Maurício Meirelles é arquiteto e escritor mineiro, editor da revista Olympia, contista e autor de livro infanto-juvenil publicado pela Miguilim.  Autor do livro Birigui.

 

 

O Poeta

 

“Caio Junqueira Maciel, é pseudônimo e apelido afetivo de Luiz Carlos, um dos treze filhos de Juca e Nicota, nascido em Cruzília, Minas Gerais, em maio de 1952. Fez os primeiros estudos em sua terra; cursou o colegial no Instituto Padre Machado, de Belo Horizonte, onde obteve o título de mestre em literatura brasileira, pela UFMG, dissertando sobre a poesia de Dantas Mota.
Foi professor de literatura brasileira por quarenta anos. Foi editor, com Gilberto Xavier, dos Cadernos de literatura comentada, pelas Edições Horta Grande. Publicou ensaios em jornais e revistas do
Brasil e de Portugal – país em que viveu por quase um ano, em Braga. Obteve o primeiro lugar no concurso artístico Teixeira de Pascoaes, em 2017, outorgado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou livros de poemas (Sonetos dissonantes; Felizes os convidados; Doismaisdoido é igual ao vento; Era uma voz: sonetos só pra netos; Paiol). Participou de várias antologias com poemas e contos, entre elas, Jovens contos eróticos, da editora Brasiliense; Antologia Coletivo 21, pela Autêntica; Adolescência & Cia., pela Miguilim. Como letrista, tem parcerias com Zebeto Correa nos CDs Era uma voz, Trilhas da Literatura Brasileira, Recados de Minas e Poemas para cantar e dançar, além de um CD com Newton Maciel Ribeiro, Parceiros do tempo. Casado com a professora Francisca, com quem tem osfilhos: Pedro Luís, Ludmila e Oswaldo; e as duas netas: Helena e Ágata.”

 

 

Pele de Jabuticaba
(texto inicial, como preâmbulo)

 

“A revolta eclodiu na tarde do dia 13 de maio de 1833. Iniciou-se na fazenda Campo Alegre, de Gabriel Francisco Junqueira, então principal representante da facção “liberal moderada”, eleito deputado em 1831. Os escravos, liderados por Ventura Mina, mataram o filho do deputado [...] O grupo liderado por Ventura Mina logo se dirigiu à fazenda Bela Cruz e se associou a outros escravos daquela propriedade, assassinando oito integrantes da família do irmão do deputado, José Francisco Junqueira, incluindo três crianças e duas pessoas “de cor”, segundo os autos.
Marcos Ferreira de Andrade,
Elites regionais e a formação do Estado Imperial Brasileiro

 

 

 

Meu sangue é dos que não negociaram, minha alma é dos pretos
Carlos Drummond de Andrade,
Os bens e o sangue

 

 

 

 

 

 

CAVALGADA DO INSONE

 

Escutem o galope daqueles cavalos
(e o golpe nas portas daqueles machados)
cortando o silêncio da noite gelada
— seus cascos produzem estes fogos-fátuos,
gemidos que brilham no dorso das pedras.
Relinchos noturnos, obscuros remorsos,
memória estragada, lembranças que mordem,
por dentro serpentes, estranhas, medonhas
entranhas varadas por trôpegas tropas
fazendo das tripas uns trapos que fedem.
Galopam os cavalos com as crinas ventando,
das ventas fumaças que saem fumegantes,
sinais ou indícios de gritos de pânico,
de pés nos estribos de eras insanas,
espermas humanos no cio das éguas.
Os dentes rilhados, equino bruxismo,
bizarras risadas, cavalos que riem,
os negros nos troncos, os ranchos que rincham,
o sangue dos brancos coalhado de crimes,
o coice do ódio e a foice da inveja.

 

Escutem lamentos, processos escusos,
protestos perdidos em tempos escuros,
juízes, meirinhos, cruéis testemunhos,
a forca, os réus, a cadência das mulas:
mais acre que a terra o massacre de ideias.

 

 

 

 

 

 

PAREDES

 

Elas ouviram resmungos
e muitos dos impropérios
de quem se fazia de mudo.
Elas ouviram tramoias,
ásperos berros histéricos
de senhores e senhoras.
Elas ouviram castigos
e toda casta de súplicas
— da casta e dos cativos.
E a elas quem confessa
(pois elas são sem olvido)
fala das febres dos séculos.
E ficaram impregnadas
do atroz desenho de vísceras
da criança assassinada.

 

 

 

 

 

 

A CAÇA

 

Onças, veados e lobos
mal sobrevivem:
são perseguidos
pela matilha.
São eles, os veados,
com mais prazer rastreados:
os chifrudos catingueiros
os que mais correm,
levantados e desmoitados
por cães chamados “Biguá”, “Boneca”, “Cacique”.
Porém, nesta mesma terra,
no terceiro ano da terceira década
do século dezenove,
no dia treze de maio,
a caça foi
dolorosamente
outra.

 

 

 

 

 

 

INTIMIDADE

 

O contato mais estreito com os cativos
é feito na caçada, entre um tiro e outro.
O contato mais estreito com as cativas
é feito na alcova, entre uma foda e outra.

 

 

 

 

 

 

BENFEITORIAS

 

Casa para a tropa
cuidado com o estranho que chega
Casa para queijos
o burro transporta dois cestos
Chiqueiro
cadê o toicinho que estava aqui
Engenho de cana
para a vida amarga resta a garapa
Engenho de serra
portas, caibros, cruzes e cadafalsos
Fornalha
labaredas das almas penadas
Moinho
milho, fubá, angu e angústia
Monjolo
o pilão de socar mágoas
Olaria
a lágrima dissolve a argila
Paiol
a alma infestada de ratos
Senzala de pau-a-pique
calundus, batuques, levantes

 

 

 

 

 

 

O CARRILHÃO

 

De meia em meia hora
 a negrinha se assusta:
o relógio na parede estraçalha o silêncio
 e o chão se cobre com os estilhaços
da compoteira de louça.

 

 

Caio junqueira maciel, é pseudônimo e apelido afetivo de Luiz Carlos, um dos treze filhos de Juca e Nicota, nascido em Cruzília, Minas Gerais, em maio de 1952. Fez os primeiros estudos em sua terra; cursou o colegial no Instituto Padre Machado, de Belo Horizonte, onde obteve o título de mestre em literatura brasileira, pela UFMG, dissertando sobre a poesia de Dantas Mota.
Foi professor de literatura brasileira por quarenta anos. Foi editor, com Gilberto Xavier, dos Cadernos de literatura comentada, pelas Edições Horta Grande. Publicou ensaios em jornais e revistas do
Brasil e de Portugal – país em que viveu por quase um ano, em Braga. Obteve o primeiro lugar no concurso artístico Teixeira de Pascoaes, em 2017, outorgado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou livros de poemas (Sonetos dissonantes; Felizes os convidados; Doismaisdoido é igual ao vento; Era uma voz: sonetos só pra netos; Paiol). Participou de várias antologias com poemas e contos, entre elas, Jovens contos eróticos, da editora Brasiliense; Antologia Coletivo 21, pela Autêntica; Adolescência & Cia., pela Miguilim. Como letrista, tem parcerias com Zebeto Correa nos CDs Era uma voz, Trilhas da Literatura Brasileira, Recados de Minas e Poemas para cantar e dançar, além de um CD com Newton Maciel Ribeiro, Parceiros do tempo. Casado com a professora Francisca, com quem tem osfilhos: Pedro Luís, Ludmila e Oswaldo; e as duas netas: Helena e Ágata.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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