ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista com o escritor Tomas Rosenfeld    

1-)  A palavra arquitetar pode sugestionar a capacidade de fazer esboços, ou projetos. Kees enquanto tem no pensamento a planilha da casa com seus espaços abertos e vãos livres parece se sentir feliz. Porém quando a casa vai se fechando em paredes, visões fechadas, ele parece ficar deprimido com o resultado. Você trabalha muito bem esta potência de intimidade do personagem, indo ou esmiuçando seu caráter idealista, e sonhador. Como foi o desenho do personagem?

 

Gosto bastante dessa ideia do projetar. Entendo que é uma atividade que reúne tanto esse lado sonhador, como outro mais analítico, técnico. O personagem e a história vão crescendo em torno dessa tensão que existe entre faces diferentes da mesma atividade. Quando se projeta, tudo é futuro. Pode-se criar tudo usando a imaginação e o papel, mas quando as paredes vão se fechando – como você colocou – as possibilidades também se enrijecem.

 

O personagem do Kees reúne tanto a capacidade de imaginar, como de realizar. Ele é um empresário que ganhou muito dinheiro a partir da sua imaginação e capacidade de realizar. Ele se vê desafiado nessa etapa inicial e depois frustra-se. Essa necessidade de criar coisas novas parece movê-lo, mas também o imobiliza. Isso que já era uma característica dele fica ainda mais forte com a mudança de país. Para ele, tornar-se um imigrante intensifica uma série de questões e ele se vê afundando quando as frustrações aparecem.

 

 

 

2-)  Seu romance lida muito bem com os aspectos emocionais da relação a dois, E a dinâmica do casal é muito bem esmiuçada em suas especificidades de doação e pertencimento, Até que Karin propõe ao marido, uma troca de papéis, onde ele ficaria em casa cuidando das crianças e ela indo trabalhar. É a nova química parece por o casamento sob ameaça. O caráter masculinista de um casal, (  onde o homem parece ter mais voz), de uma relação ainda é para você e vendo sob o ponto de vista do romance na construção do enredo-conflito, o grande dilema de um casamento estável?

 

Acho interessante essa dinâmica de quando duas pessoas que se conhecem profundamente viajam e começam uma vida em um novo lugar. São várias camadas que vão se sobrepondo. Novos lugares, línguas, hábitos têm a capacidade de ir remodelando nossas personalidades. E acho que essa unidade que um casal forma acaba desenhando uma pequena bolha, que protege das mudanças externas. Mas ao mesmo tempo não quer dizer que as coisas fiquem estáticas ali dentro. No caso da Karin e do Kees eles tinham feito concessões pesadas no passado e coisas que estavam ali latentes, acabam emergindo outra vez com a sucessão de mudanças.

 

Essa questão do papel do homem e da mulher no relacionamento é mais uma das mudanças que eles se submetem. Existem demandas externas e internas que vão se intensificando e contribuindo para uma crescente instabilidade.

 

 

 

3-)  A família ou a base dela parece ser sustentada por arquétipos que são ideias núcleos que herdamos dos pais, tanto da família de Karin como de Kees. Esta estrutura arquetípica parece fechar em binarismos toda a emoção e afetividade de uma família. Karin, mesmo depois da traição, propõe para o marido uma reconciliação, pensando nas filhas. Queria que você falesse um pouco dese tipo de perpetuação cultural? principalmente na personagem Karin.

 

A família e a tradição sem dúvida têm um papel importante na história. Acho que elas fazem um contraste interessante com toda a ideia de novidade que permeia o enredo. Se por um lado os personagens mudam para o “novo continente”, cheio de esperanças e desejos, eles não podem deixar de carregar uma herança cultural. Acho fascinante o esforço de perpetuação de algumas famílias muito ricas e isso aparece no livro. A Karin procura romper com isso – ela não acredita que o dinheiro deve ser transmitido de geração em geração sem que haja esforço, trabalho. Mas ao mesmo tempo a família ocupa um lugar central para ela.

 

 

 

4-)  Você usa a narração das vozes do marido e da esposa, intercaladas. O que isso te possibilitou narrativamente para o romance?  

 

O casal Kees e Karin formam uma unidade na história, mas têm perspectivas muito diferentes de tudo o que vai acontecendo. Eu experimentei diferentes vozes para tentar retratar isso e achei que os dois narrando em primeira pessoa fluiu melhor. Para mim, o contraste, o choque, são muito reveladores. Acho que eles permitem ver coisas que não ficam claras olhando só por um ou só por outro lado. Ao colocar os dois narrando em primeira pessoa procuro fazer com que a história aconteça também entre as vozes, nos silêncios e contradições que aparecem.

 

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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