ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Henrique Dória


O elogio do feio na arte    

 

Porque muito mais do que o riso ou a fala, ou a capacidade para fabricar instrumentos, que outros animais também possuem, a arte é um exclusivo do homem. Por isso JOHN KEATS pode escrever em ODE A UMA URNA GREGA:
“Beleza é verdade, verdade é beleza – isto é tudo o que conheceis sobre a Terra, e é tudo o que precisais de conhecer”.

 

Mas o que é a beleza como verdade? Talvez a melhor  definição possível seja a de KARL ROSENKRANZ, citado por LUIS CALHEIROS  a páginas 15 desta sua notável obra  que aqui analisamos, O ELOGIO DO FEIO NA ARTE: a negação dialética da beleza. Porque assim era entre os gregos, os primeiros grandes criadores de beleza: entre esses homens que iluminaram a história sempre houve o confronto entre o apolínio e o dionisíaco, entre o equilibrado, bem proporcionado sereno, bonito, fundado na razão, e o caótico, desproporcionado, intenso, embriagador, feio, fundado na emoção. O apolíneo Sófocles e o dionisíaco Eurípedes.

 

Defendia Platão que a arte tinha de mostrar o belo como bom e verdadeiro, porque a finalidade da arte seria formar bons homens. A arte seria razão, e a beleza criada pelo homem a sombra duma beleza ideal, essencial.

 

Mas  a verdade é que a VÉNUS DE WILLENDORF surgiu 25 mil anos antes da Vénus de Milo, e a tragédia nasceu como o canto do bode, de tragos (bode) odé (canto). Ora se há algo que não é bonito é o canto do bode. E não dizemos nós que um homem é feio como um bode, para significar um homem muito feio?

 

Bem percebe isso Luís Calheiros quando escreve a pp.45. desta sua obra:
“Ao fomentar a procura da força mais profunda que está na base da criação artística, que é “a síntese de um deus da vida, pagão, e de um bode, na figura do sátiro, do fauno”, um sonhador dionisíaco”

 

E ainda:”O feio artístico será um dos incontornáveis polos das grandes dicotomias estéticas, das políticas da Beleza, nascido da contradição antitética nietzschiana apolíneo versus dionisíaco” ibidem pp 45.

 

E não começou a arte do século XX, o século de todas as revoluções, pelo triunfo do feio na pintura? O que são aquelas mulheres de AS MENINAS  DE AVIGNON, da primeira grande obra cubista, senão o triunfo do feio na pintura? Aqueles rostos de mulheres, na realidade belas, mas deformadas na tela, rostos transformados em triângulos, retângulos e quadrados, olhos na testa como cíclopes, máscaras africanas conjurando os demónios,  como dizia APOLINAIRE,
“elementos tirados não da realidade da visão mas da realidade da concepção”.

 

são o grande princípio de todas as revoluções. Porque, na realidade, o impressionismo ou até o pontilhismo são mais a continuação do que antes existia  de bonito na pintura, traduzindo a realidade da visão apenas acentuada pela intensidade da luz, descurando a importância do traço. Monet, Manet, Renoir e Seurat pintam todos eles obras bonitas, como o faziam Ingres, Rafael ou Ticiano. É evidente a presença de Ingres em LE DEJEUNER SUR L´HERBE, de Edourd Manet. Mas a contestação de Ingres é tão manifesta como a presença africana  e as conquistas da ciência a partir das matemáticas que nos aparecem em AS MENINAS DE AVIGNON, a obra seminal da grande revolução na arte do século XX. Aquelas deformadas meninas de uma casa de prostitutas não são mais do que as lindas odaliscas de Ingres sob novas formas. Não são as meninas num banho turco na bela cidade de Avignon, belas como as odaliscas do sultão de Istambul, mas as pobres prostitutas de uma casa mal afamada da Carrer Avinyó, em Barcelona.
E, no entanto, há beleza nestas mulheres feias porque deformadas através daquele que foi o ensinamento de Cézanne de tratar o homem e a natureza através da esfera, do cilindro e do cone.

 

Porquê? Porque nelas há verdade, a verdade que quem quer compreender e viver o mundo tem de enfrentar. A verdade que a arte tem de enfrentar para não ser repetição, mas diferença, para utilizarmos as palavras de Giles Deleuze.

 

E a  perseguição da diferença, da individualidade, passou a ser o primeiro objetivo  de toda a pintura posterior a AS MENINAS DE AVIGNON. Ao contrário do que sucedia no renascimento e no barroco, começou a sentir-se, como nunca antes sucedera, a angústia da influência. Daí a premência do novo. Não bastava seguir uma escola: era necessário fazer diferente não só de outras escolas mas também dentro da própria escola. Tudo foi explorado: desde o inconsciente às tentativas de anulação da própria arte, da arte como máquina de produzir entusiasmo à arte que se bastava a si mesma, que ignorava o homem seu criador, a arte pela arte.

 

Para alcançar essa diferença assistimos na pintura do século XX, de Picasso a Francis Bacon, ao triunfo do feio, até do horrível. As escolas multiplicaram-se vertiginosamente como os mostra num excelente esquema LUIS CALHEIROS. Mas em quase todas as escolas surgidas após AS MENINAS DE AVIGNON, é o feio que predomina. O mundo da pintura expressionista é o melhor expoente desse feio na arte: os horríveis militares, padres e burgueses, as horriveis prostitutas, o horrores da guerra de Otto Dix, de George Grosz e de Oskar Kokoschka, a obsessão pela carne desmanchada, pela morte, de Chaim Soutine e Francis Bacon, os retratos impiedosos de Lucian Freud marcam a pintura do século XX.

 

Curiosamente, há aqui também o designio moral  que Platão atribuia à arte: a arte deve servir para formar os homens. E isto é tão verdadeiro naquilo a que na expressão de Luis Calheiros foi o “ seguidismo simplista e grosseiro da vulgata estética de utilitas do homo economicus soviético”  (pp. 61) imposta pelo doutrina jdanoviana –stalinista, como na tentativa de mostrar o horrível do mundo por parte dos autores expressionistas. Mas enquanto Platão pensava na arte como modo de educar através da beleza bonita de artistas como Fideas, Praxiteles, Miron ou Policleto, os expressionistas pensavam a arte, como refere Luis Calheiros (pp. 62) como meio para  “Transformar o mundo” (K. Marx) e “Mudar a vida” (J.A. Rimbaud). Os massacres da guerra franco-prussiana e da comuna de Paris tinham sido o prelúdio da primeira grande guerra. Depois desta, a ganância, o cinismo, o luxo e a degradação moral dos detentores do poder económico e social, a par do sofrimento inaudito causados entre os mais pobres pela guerra e pela devastadora crise económica que se lhe seguiu em todo o mundo não permitiam à arte fechar-se nela própria. Se o feio, nos tempos antigos, quer na Grécia quer em Roma, era associado ao “ Mal e a sua entidade transcendente o Demónio, enquanto simétrico contrário absoluto do Supremo Bem e do Bom Deus”   como refere Luis Calheiros, pp. 73,  para a arte do dealbar do século XX o feio na arte expressa “ a consciência lúcida e alargada de ser a vida não apenas feita de luzes, mas também de sombras...  na estratégia de “denúncia de Sísifo” de fazer ver as inúmeras iniquidades que fazem com que as sociedades humanas sejam condenáveis “ mundos às avessas”.

 

“Para materializarem as suas expressões, com mais força comunicativa e maior provocação expressiva, distorcem figuras, corpos, objetos, contornam perfis a negro, as linhas muito marcadas, o desenho nervoso e tenso, as figuras e composições de alto contraste, sugerindo pathos mórbidos e histéricos, numa espécide de registo próximo do histrionismo duma caricatura trágica” LC pp106

 

No mesmo sentido vão outros grandes movimentos das duas primeiras décadas  do século XX: a anti-escola, anti-museu, anti-arte que é o movimento Dada, com A FONTE e a GIOCONDA de Marcel Duchamp como provocações/tentativas de destruição da herança do passado artístico, em particular desse ícone da arte que é a GIOCONDA, colocando na reprodução de da Vinci um bigode e uma barbicha; e o surrealismo que é a evolução  no sentido da “construção” de algo para lá do dadaísmo recorrendo à importância do inconsciente e do sonho na vida do homem que Sigmund Freud recentemente descobrira. Movimento de síntese entre o passado e a sua negação feita pelo movimento Dada, o movimento surrealista assume-se como o movimento da liberdade e do amor, da luta pelo triunfo de Eros sobre Thanatos. Como movimento de síntese, o surrealismo, pretendendo o mudar de vida, como propunha Rimbaud, fê-lo, no entanto, recorrendo tanto ao belo/feio como ao belo/bonito o que é bem visível na obra  de muitos pintores, em primeiro lugar na obra do genial Salvador Dali, em que o horrível de O GRANDE MASTURBADOR  ou a PREMONIÇÃO DA GUERRA CIVIL, emparceira com a beleza clássica, apolínea, de A mão de Dalí puxando um velo de ouro em forma de nuvem para mostrar a Gala o amanhecer muito nu, muito atrás do sol. Trabalho estereoscópico.

 

Poucas correntes artísticas escapam a este desejo de mudar de vida, ou mudar o mundo. A mais importante de todas é, sem dúvida, o abstracionismo. Movimento iniciado por Vassily Kandinsky, pintor que saiu da Rússia para a Alemanha  desiludido com o caminho que levava a Revolução de Outubro, para quem a arte deveria bastar-se a si mesma, ser um fim em si mesma, recusando todo o compromisso com a realidade. Kandinsky considerava a  cor como a essência da pintura, na sequência do que outrora tinham defendido os impressionistas. E é a fixação na cor, que em Mondrian é a fixação na síntese das cores o real, escondendo a realidade nessa síntese. O limite do abstracionismo foi atingido quando se apresentou um quadro vazio anunciando o fim da arte.

 

Mas a arte não acabará. Até se aproxima mais do homem em tantos casos, ao ponto de tornar o próprio Homem em arte como o fazem ORLAN ( a francesa Mireille Suzanne Francette Porte, nascida em 1947, ou, de um modo extremo, o Dr. Gunther von Hagens, médico, escultor de cadáveres dissecados, mostrando a fragilidade humana num tempo em que se anuncia a possibilidade de a ciência vencer a própria morte.

 

Com eles, com tantos outros que criam uma arte que é hoje cada vez mais individual, a arte não acabará, continuando a mostrar a vida e a morte, o sofrimento e o prazer, o amor e a maldade, de modo tão docemente humano e tão cruel, grande e ridículo como o fez o genial Francisco de Goya y Lucientes.

 

 A arte não acabará “ Porque o sol e a lua continuarão a iluminar os dias e as noites. A chuva cairá dos céus e descerá as montanhas. Engrossará a água dos rios que correrão para o mar. a vida continuará o seu curso… E com ela continuará a Arte.”

 

utilizando as palavras de Luís Calheiros a pp. 198 deste excelente ELOGIO DO FEIO NA ARTE.

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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