ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Paulo José Cunha


Poemas    

Tráfego

 

a ansiedade deste encontro
(sempre o primeiro e o último
e os carros, a fumaça, os pneus,
os retrovisores
e as mãos suadas)

 

angústia de um ônibus vazio
ao lado do meu táxi

 

- e depois da curva, além da angústia?

 

a luz do freio acesa
na traseira daquele ômega

 

- não fale agora, não fale

 

uma ultrapassagem
e os olhos dela pulsando
na memória
as luzes dos sinais
as luzes dos faróis
as luzes

 

- isso me lembra uma música
uma música muito antiga
(que eu esqueci)

 

o calor, a grama seca
a falta de umidade
e ela aflita
as mãos pelo cabelo

 

- não dá para ir mais depressa?

 

que seria de mim sem aqueles olhos?
e as luzes, o calor, as mãos ásperas

 

- não me olhe assim, não me olhe

 

na curva, um ônibus lotado,
suor, saudade
uma saudade imensa
e este louco aí atrás buzinando
ultrapassou

 

-me beije agora, me beije

 

o vento pela janela
poeira fina, seca
os cabelos
entrando nos olhos vermelhos

 

as horas, as horas lentas, oleosas,
as unhas nos dentes,
o motorista com a barba por fazer,
o suor salgado nas mãos

 

- só lembro que era uma noite
de sábado
mas não me lembro
da marca do vinho

 

ranger de pneus, boca amarga,
o rosto dela no retrovisor
e tantos carros, tantos

 

suor frio debaixo do braço

 

- bonita, muito bonita, de uma beleza
assim... Catherine Deneuve, sabe como é?

 

os olhos úmidos
de fumaça, náusea
e, renitente,
pelo corpo melado,
uma vontade besta de morrer


 

 

 

 

 

A recriação da luz

 

chegou triste
com olhos velhos
tinha febre frio e medo
um jeito distante
como distante trazia
o corpo (quase arrastado)

 

foi-se aninhando
pássara assustada
(os olhos velhos velhos)

 

um soluçar de antigos sofrimentos
lágrimas de paixões nunca esquecidas
homens suados
prazeres

 

inteiramente só
a cabeça baixa
cabelos caindo no rosto
braços cruzados sobre o peito
e os olhos velhos

 

falei de barcos e fugas
da atração da morte
e das mulheres esplêndidas
que nunca cruzaram
a esquina do meu coração

 

tomou leite quente
algum conhaque
depois falou de angústias e traições
e sem saudade (até sorrindo)
lembrou de um passado inesquecível

 

tinha medo do passado e do presente
(do futuro não falou)

 

 

 

recordou sabores nunca renegados
mas que jamais mataram sua sede

 

isto tudo falou assim
até que lhe beijasse os olhos
úmidos e velhos

 

despediu-se com um ar distante
(como se não tivesse chegado)
apenas olhava o sofá a taça vazia o cinzeiro
e nos olhos velhos
havia o pedido
de um instante a mais

 

então beijou-me
beijou-me um beijo lento
(menos que um beijo,
mais uma procura )

 

o beijo escorreu da boca
e foi descendo até os pés
e ali
ao som de uma canção antiga
(na certeza de que não iria faltar cigarro)
entre as roupas que foram
lentamente
recobrindo o assoalho da sala
eu vi
nela toda
acender-se uma luz

 

 

 

 

 

 

Substâncias

 

Agora falo de substâncias.

 

Alguém já disse que o amor
é uma toalha molhada
estendida ao sol
num dia qualquer de agosto.

 

Ou seria o amor uma carta antiga
amarelada pelo tempo,
cheia de erros de Português.

 

Ou mesmo a flor seca
encontrada entre as páginas de um livro.

 

Ou, quem sabe?, não seria o amor uma taça de champanhe
quase vazia
com uma marca de batom?

 

Acreditar em todas essas mentiras, ah, isto sim,
talvez seja o amor
(todas coisas doces, todas ensandecidas).

 

Aqui para o meu gosto: nada tem a ver o amor
com toalhas, taças, cartas.
- O amor - agora sei - é apenas a brasa de um cigarro
que cai de minha mão nervosa
e queima o tapete
nesta madrugada abafada de abril.

 

 

 

 

 

 

Galo

 

No estandarte da crista,
a imponência de um marechal-de-campo,
o olhar superior, as esporas de aço.

 

E assim,
imbuído dos mais alevantados propósitos,
o comandante-em-chefe dos quintais subordinados
ergue a voz de comando sobre o silêncio dos telhados,
estufa o peito recoberto de alamares e condecorações,
ordena o arquivamento da noite, revoga as disposições em contrário

 

e declara aberta a manhã

 

 

 

 

 

 

O impostor

 

Deus existe.
Tudo que existe, começou.
Mas se começou, não é Deus.
Porque Deus não começou. 

 

Mas Ele existe.

 

E tudo que existe, começou.
Mas, se começou, não é Deus.

 

Então, quem é o impostor?

 

 

 

 

 

 

Un coup de dés jamais n’abolira le hasard 
                                                                                                                    

Escrevo
pra saber o que dizer,
na esperança,
acredito, 
de que o galope das palavras
diga
o a ser dito.

Não colho palavras: cavo.
E não me iludo, por inútil.

Assim, sem rumo,
no escuro,
apenas escancaro a porta.
E que o verbo 
ache seu prumo.

Nada disso, minto:
palavra alguma revela
exatamente o que sinto.

Sem pretender a clareza,
escrevo na claridade,
pois as palavras mais claras
são de todas as melhores
pra esconder a verdade. 

 

 

 

A deusa

 

Com olhos de enchente,
a deusa chega
de repente.

 

Atrás dos óculos escuros,
do alto das coxas torneadas
e da curva perigosa dos quadris
a deusa salta.

 

Bronzeada,
ancas duras,
firme, poderosa,
diante do painel de comando das turbinas dos seios,
a deusa surfa nas ondas
das calçadas
de Copacabana.

 

Indiferente
ao futuro da nação,
e aos homens
que vão caindo, um a um,
à sua visão,
em passos firmes
sobre o salto agulha,
a deusa avança.
E deixa atrás de si
um rastro
de desesperança.

 

A deusa
é um temporal
que contribui
para o aquecimento global.

 

A deusa
é uma epifania
que devasta,
desabriga e invade.

 

A deusa,
oh, meu Deus,
que maldade:

 

A deusa
é uma calamidade.

 

 

 

 

 

 

Bendita insônia

 

No amor, ao contrário da vida,
nada é melhor
do que uma noite mal dormida

 

 

 

 

 

 

Sentido

 

Aqueles riscos brancos
que os jatos deixam no azul 
e aos poucos vão se desfazendo
até sumirem no céu
devem significar alguma coisa.

 

Quem sabe,
o sentido da vida.

 

 

 

 

 

 

Amarantes

 

Paulo José Cunha e Zé Roraima

 

Pra onde vão essas lágrimas,
filhas da Pedra do Sal,
que brotam lá do sertão
e correm pro mar imenso,
herança de Portugal?

 

 

 

Debaixo do mesmo deus,
sob a espada e a cruz,
o Parnaíba e o Tejo
entre Amarantes e Oeiras,
refletem a mesma luz.
E do suor dos mafrenses,
navegantes, piauienses,
e da saudade das noivas
que ficaram por casar
nasceu o sal deste mar 
que separa e aproxima
duas terras distantes
de amantes e amarantes
de Oeiras e Portugais.  

 

 

 

Pra onde vão essas lágrimas,
filhas da Pedra do Sal,
que brotam lá do sertão
e correm pro mar imenso,
herança de Portugal?

 

 

 

Eu sei de onde elas vêm
e aonde vão nos levar
do Atlântico Oceano,
do sertão que já foi mar
do mar que já foi sertão...

 

 

 

Piauí, Portugal
Piauí, Portugal
Piauí, Portugal
Piauí, Portugal
Piauí, Portugal
Piauí, Portugal
Piauí, Portugal...

 

 

 

 

 

 

A seta insana

 

Para onde avança esta seta
que almeja sem descanso
entre as escolhas?
O que busca
e nunca alcança?

 

Quem lhe define
rota e prumo,
dá-lhe sentido
e aponta o alvo,
o rumo?

 

Que roteiro traça
pelo céu vazio
e deixa,
fresco na retina,
o risco perene
e súbito esquecido
na liquidez do instante
em seu voar
insone?

 

Atrás de qual meta
lança-se esta flecha?
Para onde se atira
a ponta desta lança?

 

O que pretende
achar, se achar, 
esta seta febril
que não descansa?

 

Um dia,
ela partiu de mim (sua gaiola).
E desde então,
abraçado nela
neste baile insano 
de canções perdidas
ela dança comigo
e me arrasta
embriagado
neste rodopio
a algum lugar
desconhecido.

 

 

 

Não-sei-que-seja
a lança-flecha,
nem pressinto
o aço
de que é feita.

 

Só sei que avança.

 

E seu desiderato
é o de seguir seu voo
sem cogitar retorno,
direção ou meta,
ditando o dela rumo:
meu destino.

 

 

Paulo José Cunha é poeta, letrista, jornalista, professor e documentarista. É do Piauí, mas está radicado em Brasília desde os anos 70. Seu primeiro livro foi publicado em 1978: “A Noite das Reformas” (livro-reportagem sobre o fim do AI-5, a legislação de exceção da ditadura militar brasileira). Depois vieram “Salto sem Trapézio” (poesia), o memorial poético “Perfume de Resedá”, “Vermelho – Um Pessoal Garantido” e “Caprichoso – A Terra do Azul”, ambos sobre a festa dos bois-bumbás de Parintins, “1001 Dicas de Português” (Tira-dúvidas para redatores, escrito em parceria com a professora Dad Squarisi) e de cinco edições da “Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês”, sobre a linguagem típica de seu estado. Trabalhou na TV Globo, em O Globo, na Rádio Nacional e no Jornal do Brasil. É âncora e diretor de programas na TV Câmara, onde dirige e apresenta o Casa das Palavras, sobre livros, escritores e política editorial. Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Entre 2005 e 2006 desenvolveu na TV Globo de Brasília um projeto de crônicas poéticas, com grande sucesso de público.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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