ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: AUTOAJUDA    

Aborreço-me com autoajuda. Sejam livros, frases, qualquer texto capaz de lembrar o gênero deixa-me indisposto, imediatamente o senso crítico fala mais alto, irrito-me em demasia. Impressiono-me com a capacidade dos conselhos cada vez mais divulgados nas redes sociais serem geralmente lugares comuns, quase sempre clichês. Os escritores, aqueles que se dizem ser mas em verdade não o são, os fazedores de livros destinados a influenciar o comportamento dos leitores, descobriram fórmulas de sucesso, jeito de enriquecer, utilizam-se da ingenuidade e da fé de pessoas, muitas vezes desesperadas, para aumentar a conta bancária. Ensinam o sujeito a ter liderança, relacionar-se, a ser paciente (incitando mesmo o ligar o foda-se!), a ter sorte (vejam só!), a ser feliz (como se a felicidade não fosse subjetiva, quase uma abstração).

 

Viajando pela Internet encontro coisas como: “Quem divide multiplica”; “Lembra de beber bastante água e tomar conta de si próprio”; “O homem vale pelo quanto evolui e não pelo que é ou aparenta ser num dado momento”; “Seja o amor da sua vida”. Vou encontrando tais coisas e me envergonhando de pertencer ao gênero humano. Vergonha alheia de minha espécie. Quando penso que acabou, fiquei livre dos pensamentos tolos, encontro mais lixo. Misturam algumas ideias com religião, só para acabarem de me enterrar: “Dirige os meus passos no teu caminho para que minhas pegadas não vacilem”; “Enquanto Deus me guiar jamais sentirei solidão”; “Seja fiel nas pequenas coisas porque é nelas que mora a sua força”; “A bondade é um rico manancial que brota lágrimas ao toque da menor comoção”. Confesso que nem sempre consigo alcançar toda a filosofia existente no bestialógico disponível, embora, precise dizer também, nem chegue a tentar.

 

Vejo muita gente reclamar, considerar as discussões políticas verificáveis diariamente nos aplicativos violentas demais, destruidoras de famílias, clamar por paz. Não me incomodam os debates. Vivemos em um Brasil podre, comandado por gente podre, eleita por gente podre. Não vou deixar de me indispor com aqueles que estragaram meu país, não tenho a menor ideia de onde deixei a bandeira branca, vou sempre bater nessa turma, até criar calo na mão. É o mínimo aceitável, precisamos estar atentos para as barbaridades cometidas cotidianamente, é mesmo no grito que estará a chance de sermos ouvidos com mais atenção. Como se dizia antigamente, eu sento a pua!

 

Prefiro discutir com os imbecis que votaram na homofobia, no racismo, no fim da cultura, pelejar com os misóginos capazes de aplaudir a violência contra a mulher, duelar com os moralistas evangélicos capazes de odiar em nome de seus deuses, xingar os que ofendem damas lindas do teatro,  bloquear parentes estúpidos que esqueceram suas origens, a encontrar diariamente este espírito pacífico e sórdido existente nas “belas” frases motivadoras.

 

Esse negócio de ser o amor da minha vida me cheira a onanismo. Sou casado, gosto de mim moderadamente, até por conhecer meus defeitos, amo mesmo é minha mulher. Não acredito em Deus, talvez por isso conviva bem com a solidão. Muito por ser difícil atualmente encontrar boa companhia. O mundo emburreceu, as pessoas estão lendo menos, perderam o finesse. Ou escolher o presidente vigente não é estupidez, falta de leitura, cafonice? Brota-me lágrimas quando vejo o presidente, uma comoção de raiva.

 

10/10/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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