ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Flávio Sant’Anna Xavier


O movimento pendular da História    

Os velhos revolucionários russos, que promoveram a maior revolução do século XX, ensinavam que todo salto do progresso técnico deixa o correspondente desenvolvimento intelectual das massas um passo atrás; e com isso produz uma queda no termômetro da maturidade política. Em períodos de maturidade “é dever e papel da oposição apelar às massas. Em períodos de imaturidade mental, somente os demagogos invocam o juízo supremo do povo”, escrevia Rubashov na prisão, o protagonista do romance “O Zero e o Infinito” (Arthur Koestler), inspirado no mais talentoso dos bolcheviques e assassinado por Stalin: Nikolai Bukharin. 

 

Quem sabe nesta velha lição se encontre a resposta à indagação que não só o Brasil, mas boa parte do mundo, lança: por que, praticamente, inexiste reação ao governo Bolsonaro? Por que as ruas estão tomadas por um silêncio eloquente, quase avassalador de uma concordância tácita a uma escalada de autoritarismo e perversão?

 

Motivos não faltariam para que as ruas estivessem cheias de revoltados. Há os problemas estruturais que se agravam diante de uma recessão econômica duradoura e total ausência de política voltada aos pobres. Somente entre 2014 e 2017, o Brasil ganhou um contingente de 6,27 milhões de “novos pobres”, assim considerados pessoas que perderam o emprego e passaram a viver em situação de pobreza, com renda do trabalho de menos de R$ 233 por mês (58 dólares), conforme dados do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, sendo esta, talvez, a face mais visível desta estagnação que penaliza sempre os mais vulneráveis. E também os novíssimos problemas decorrentes da total destruição do aparelho estatal com o avanço, organizado e predatório, dos interesses privados, com a liberação desenfreada dos agrotóxicos dantes proibidos, a grande queimada da floresta amazônica, a censura aos agentes governamentais de cultura, a reforma da previdência que praticamente inviabiliza a aposentadoria dos trabalhadores que entram muito cedo no mercado de trabalho, o sufocamento orçamentário das Universidades, dentre tantos outros assuntos, numa diversidade desconcertante.

 

A popularidade do governo Bolsonaro cai de forma repentina, sendo o governo pior avaliado da recente era democrática, mas não se transforma em objeto de revolta e oposição. É difícil identificar apenas um motivo para essa anemia das massas, hoje em aparente estado de letargia e desespero contido.

 

Talvez o fio de Ariadne seja a penalização das camadas médias durante os últimos mandatos petistas pela singela razão que foram elas que invadiram as ruas com a bandeira nacional e depuseram o governo Dilma. Podem-se debater os interesses intrusados da velha elite, mas parece indiscutível que sem a invasão das ruas dificilmente qualquer processo de impeachment prosperaria.

 

Nesta semana repercute o último livro do francês Thomas Piketty, Capital e ideologia, ainda sem tradução no Brasil. Ele comprou uma briga com setores do Partido dos Trabalhadores (PT) há alguns anos ao contradizer a tese petista que a desigualdade social havia caído no Brasil nas últimas décadas com o ganho de renda dos mais pobres e a perda de renda dos mais ricos. Sua nova tese seria que a melhoria da situação das pessoas de baixa renda decorreu inteiramente em detrimento das classes médias, mais precisamente dos grupos sociais situados entre os 50% mais pobres e os 10% mais ricos. Em entrevista à revista Época, ele afirmou: “as políticas sociais foram financiadas pelas classes médias, e não pelas mais ricas, pela boa e simples razão de que o PT jamais conseguiu combater a regressão fiscal estrutural do país, com pesados impostos e taxas indiretas sobre o consumo (indo, por exemplo, até 30% nas faturas de eletricidade), enquanto os impostos progressivos sobre as rendas mais altas e os patrimônios são, historicamente, pouco desenvolvidos.”

 

Como o Bolsonarismo se alimenta ideologicamente do antipetismo não parece difícil visualizar que grande parte deste apoio advém da decadência das camadas médias durante aquele período, e cuja repercussão ideológica se entremeou com a luta contra a corrupção, tão explorada na gestão petista, principalmente na maior empresa brasileira, a Petrobras.

 

Também é de se ressaltar um dado novo e pouco debatido: nos governos petistas os indicadores sociais em geral melhoraram, menos um: o da criminalidade. Tais índices pioraram, principalmente em relação aos homicídios, sendo este o único indicador positivo do governo Bolsonaro, o que guarda enorme repercussão nas camadas médias, em especial nas metrópoles. No primeiro semestre houve queda de 22% no número de mortes violentas enquanto na gestão petista esta taxa aumentou 11% (entre 2005 a 2015).

 

É verdade que se percebe um nascente grito em defesa da natureza, da Amazônia, mas que ainda não encontra eco em movimentos organizados, tampouco na oposição, em especial porque nos governos petistas também se experimentou enormes retrocessos, com aliança do agronegócio e a liberação dos transgênicos, inexistindo prioridade da agenda ambiental.

 

Ou seja, a queda abrupta e constante da popularidade do governo Bolsonaro não implicou, até o momento, no fortalecimento da oposição ou na volta das massas às ruas gerando enorme vácuo na sociedade. Disso resulta uma provável radicalização do governo, na busca “demagógica do juízo supremo do povo” enquanto a oposição se encolhe no único sussurro ainda ouvido e que prega a libertação de Lula. Pode parecer paradoxal, mas a própria campanha de libertação de Lula, crescente em face dos diálogos captados por The Intercept que desnudaram as relações promíscuas entre o juiz Moro e o Ministério Público, alimenta a radicalização das classes médias pró-Bolsonaro, num debate imaturo entre corrupção versus legalidade.

 

Os velhos revolucionários russos cometeram inúmeros e irreparáveis erros, mas não se pode duvidar de sua capacidade de galvanizar enorme apoio popular num país gigantesco e atrasado. Eles diziam que quem quiser evitar a sensação de atordoamento, que parece nos embotar neste momento crítico brasileiro, deve entender a “lei do movimento do balanço”. Um movimento pendular da história, balançando do absolutismo para a democracia, da democracia para a ditadura absolutista, ou mais recentemente, à ditadura eleita, como é o caso Bolsonaro e tantos outros avatares no mundo.

 

O pêndulo começa a se mover no Brasil, mas não se sabe ao certo para que lado.

 

Flávio Sant’Anna Xavier é procurador federal e escritor

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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