ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Jalmelice Luz


Tornar-se mulher e morrer por ser mulher    

Mulheres são assassinadas no Brasil pelo fato de serem mulheres. Manter-se na submissão é um risco, tornar-se mulher de acordo com o pensamento da filósofa e feminista Simone de Beauvoir, uma ameaça. O “país tropical, abençoado por Deus”, segundo versos de uma canção popular consagrada, exibe a vergonhosa taxa no Atlas da Violência apresentado, em junho deste ano, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Um crescimento dos homicídios femininos, com cerca de 13 assassinatos por dia. Ao todo, 4.936 mulheres foram mortas, o maior número registrado desde 2007”.

 

Os dados são fartos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) exemplifica que “o número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres”. As mulheres negras, pobres, moradoras nas periferias das grandes cidades são as mais vulneráveis, além de vítimas de estupros quase cotidianos. É importante destacar que o Atlas da Violência foi constituído a partir de pesquisas e cruzamentos de dados, de 2007 a 2017.

 

Os autores desses crimes: companheiros, ex-companheiros, pais, irmãos e parentes mais próximos, vizinhos, na maioria dos casos, interrompendo vidas em todas as faixas etárias, de crianças a mulheres idosas. São Marielles, Ágathas, Marias, Palomas, Cecílias...silenciadas pela mão do opressor. Contudo, esse verdadeiro massacre, não ocorre sem denúncias e manifestações de diversos grupos de mulheres, das várias correntes do feminismo.

 

A irrupção do movimento feminista no Brasil é histórica, assumindo protagonismo ainda maior na década de 1980, nos debates e denúncias de violência, mortes evitáveis. Direitos foram reconhecidos e previstos na Constituição, hoje em frangalhos, retalhada. Leis, a exemplo da Maria da Penha, que prevê punição para o agressor, vista como desnecessária é alvo de frequentes tentativas de descaracterização no Congresso Nacional.

 

Maria da Penha, hoje com 74 anos, ativista pelos direitos das mulheres, é uma farmacêutica brasileira, natural do Ceará, região nordeste do país, que sofreu constantes agressões por parte do marido. Em 1983, o ex-marido tentou matá-la com tiro de espingarda. Ela escapou da morte, mas ficou paraplégica.

 

  Em tempos de obscurantismo, o recrudescimento da misoginia, do ódio visceral às mulheres e a outros grupos sociais e etnias (LGBTQI+, negros, indígenas, quilombolas, religiosos de várias matrizes etc) estão disseminados no tecido social brasileiro.

 

O ser mulher, autônoma, lutadora, consciente de seu papel no mundo, à qual se referiu Simone de Beauvoir, provoca a reação. A submissão daquelas que dependem de alguma maneira do agressor – econômica, emocionalmente – transformam-nas em presas fáceis; as crianças são vulnerabilíssimas, assim como as idosas. As jovens que vivem seu tempo tornam-se um perigo. A maneira que encontram para se livrar delas é deixando que o sadismo aflore, que o ódio predomine, que a bestialidade mostre sua face, para eliminá-las.

 

 Contudo, tornar-se mulher emancipada especialmente no Brasil, nesse momento, é um ato de resistência, de coragem. Resistência ao machismo, que infelizmente não é um comportamento só masculino – vide declarações de mulheres alçadas a cargos públicos – fazendo discursos e apostando no retrocesso.

 

 Tornar-se mulher é resistência ao patriarcalismo e às instituições de poder – Estado, governos e segmentos religiosos – que o alimentam; ao sistema capitalista, ao capitalismo financeirizado, que destrói postos de trabalho, que engole de forma insaciável possíveis recursos para áreas sociais. É enfrentar um modelo econômico que transforma o Ser em Ter, cidadãos em consumidores, que cria e necessita da iniquidade, inclusive do ódio e desprezo ao gênero feminino (denominação hoje bastante discutida) e a outros sujeitos que não se enquadram nos padrões normativos. Tudo passa a ser descartável. A alma? Ah! A alma é pequena, diminuta, inexistente como consciência e alteridade.

 

Submersos em fakes, embriagados pelo senso comum, alguns ainda indagam:
– Por que dessas mortes? Não será culpa das próprias vitimadas? Qual será o motivo?

 

Há nesse questionamento um laivo de estupefação, quem sabe de indignação. É necessário refletir que lugar é esse que culturalmente, ao longo de milênios, foi forçosamente destinado à mulher. O recôndito do lar, a submissão, o ser inferiorizado e frágil.  Na outra vertente, o estímulo ao homem para exercer o poder, o domínio. São questões antigas que voltam à baila. Mas esse tosco binarismo não é mais possível.

 

Outras estratégias são utilizadas dificultando o estar no mundo, destacadamente para as mulheres. A desobrigação do Estado de suas funções sociais, a precarização do trabalho, em muitos segmentos com maioria de mulheres, a exemplo das redações de jornais de onde vim. A proliferação de subemprego, com longas jornadas de trabalho vigiadas. A criação de uma escravização pós-moderna chamada flexibilização de trabalho, a boca e rota proposta de previdência capitalizada. As guerras e a recusa à ajuda humanitária a milhares de imigrantes. Creches? Nem pensar. Tomem armas, dedo no gatilho e a ilusão de poder. O escárnio é mais um “corpo estendido no chão”, feminino, preto e pobre. Não que as populações na favelas, principalmente jovens negros, não sofram um massacre diário. Sofrem e se calam. O silêncio também mata.

 

Escola para que? E para quem? Porque na visão opaca de alguns escola pública é gasto desnecessário. Quem não tem capital que se vire. Fora ideologia, leia-se fim do senso crítico e do humano sensível.

 

Para o célebre pensamento de Simone de Beauvoir que norteou gerações, inclusive a da qual faço parte, criou-se um panegírico de ideias distorcidas, onde não cabe a arte, a cultura, o livre pensar e expressar. Mas uma assemelhada prática de tempos de inquisição e acusações. O efeito disso é o crescimento assustador de assassinato de mulheres, a impunidade, os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

 

A naturalização da brutalidade e da eliminação aumenta a prática do feminicídio, palavra difundida na década de 1970, pela socióloga sul-africana Diana E.H. Russell (“femicide”, em inglês). Um conceito que desmascara a neutralidade presente na expressão “homicídio”, afirmam pesquisadoras e teóricas, que mantém invisível a vulnerabilidade experimentada pelas mulheres. Na verdade, são assassinatos com a complacência de Estado.

 

Essas aberrações são geradas pelo domínio do patriarcalismo que invade e fere nossos corpos, que implica na destruição, na eliminação. É preciso dominar e controlar os corpos, observa Michel Foucaut, em Microfísica do poder, para assegurar o controle e a manutenção do poder, a ordem, a obediência.

 

Contudo, as mulheres mantêm o protagonismo. São cidadãs de direitos que não se calam, cada vez mais fortes diante do ódio, da misoginia, do desejo de extermínio daqueles que se sentem ameaçados. As mulheres representam mais de 50% da população brasileira. Boa parte nas ruas, sem medo, tornando-se mulheres. Ah, o que seria se essa maioria assumisse seu posto e enfrentasse a barbárie dos tempos pós-modernos. Certamente, o mundo não estaria pior.

 

 

Jalmelice Luz é jornalista e escritora

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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