ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

André Balaio


Terra úmida    

Fernando viu uma nuvem desenhada na parede. Girava, descia e subia até o teto e logo em cima da porta virava flor. Tia Nalva reclamou do mofo na alvenaria, prédio feio, coisa precária, meu Deus. Através do vidro, o garoto observou que só tinha gente desconhecida na sala. Sentiu o empurrão da mão gorda de Tia Nalva no ombro. Vai logo, menino, entra.

 

Era tanto cheiro de flor que a respiração quase faltava. O zum-zum-zum irritou a tia e ela encostou o dedo indicador nos lábios fechados, bastou isso para ficar tudo em silêncio. Cinco homens e seis mulheres sentados em cadeiras de plástico conversavam por gestos de surdo-mudo.
A mãe estava deitada no centro da sala. Amália. Linda de azul claro, uma rainha. Braço macio, bom de deitar a cabeça como um travesseiro quentinho. O menino ficou na ponta dos pés e tocou o rosto, acariciou a testa e os dedos desceram pelo nariz, passearam nas bochechas e chegaram na barroca do queixo. Estava fria.

 

– Já são quatro da tarde, hora de ir – disse a tia bem alto.

 

Os cinco homens se levantaram, ficando três de um lado e dois do outro, parecia um jogo, e Fernando quis ajudar o lado mais fraco, mas a tia avançou e tirou a mão do menino da alça, ele é muito novo, não aguenta peso. Um deles saiu e voltou com o flanelinha da rua, magro que só, será que aguenta? Ergueram Amália com dificuldade. Alguns parafusos folgaram e as placas de madeira se abriram; ela quase caiu. Pousaram a mulher, pediram chaves de fenda emprestadas a um funcionário e reapertaram tudo. Nalva reclamou do INSS, material vagabundo, nem nessa hora a gente tem dignidade.

 

A nau partiu. Fernando foi à frente da pequena tripulação, um capitão de peito estufado, orgulhoso do barco.

 

Ela dormia. Sempre gostou. Antigamente ficava chateada quando tinha que levantar cedo. Às vezes, na madrugada, ele ia na ponta dos pés vê-la dormir, mas não estava, então ele ficava acordado na cama até ouvir o barulho da porta, fechava os olhos e fingia o sono, ela entrava devagarzinho e dava um beijo na testa. Na aula, a professora reclamava dos cochilos.

 

Tia Nalva agora é gorda, velha e diabética, mas foi amante de um funcionário do Detran que construiu a casa no Jardim Jordão. Nesse tempo, trabalhava numa camisaria consertando peças de roupas defeituosas e fazendo ajustes. O homem morreu, a camisaria fechou e ela teve que ganhar a vida costurando em casa. Logo arranjou clientela. O sobrinho era uma camisa tão nova já esgarçada por essa mãe sem juízo.

 

Na nova escola não conversava com ninguém e vez por outra falava sozinho. Achavam esquisito, criavam apelidos, inventavam histórias, roubavam a merenda, sentavam ele no lixeiro, davam petelecos, riscavam os cadernos, jogavam bolinhas de papel, colavam avisos de me chute nas costas e seguiam gritando Zé Ruela, Zé Ruela, quando Fernando passava. Nem olhava de lado, fingia que não era com ele, continuava a caminhar, às vezes até cantava.

 

Numa noite acordou com uma luz branca na cara. Amália estava em pé sorrindo, vestida de neblina. Fernando desceu e se atirou sobre ela. No instante do abraço sentiu a pancada no pescoço, a velha tia gritando, furiosa, respeite a minha casa, seu moleque, baixe a saliência no calção, vá pra cama agora, vá. Amália não estava mais. Sumiu e nunca mais voltou.

 

Num domingo de manhã cedo, a velha estava deitada quando escutou uma voz grave na sala. Devia ter sido sonho, não, ouviu de novo. Concentrou-se. O menino respondeu, a voz continuou. Nalva pulou da cama e abriu a porta. Fernando estava sozinho riscando um fósforo para acender uma vela. Enfileirou no chão uma mosca, uma aranha, uma formiga e um soldadinho, alguns ainda mexiam. Foram pacientemente endurecidos pelas gotas de cera quente.

 

– Olha aí, Gilvan, eu não disse? Meu museu de cera ficou uma beleza.

 

Devia ter ralhado, com fogo não se brinca, mas tudo o que Nalva conseguiu fazer foi voltar para a cama e tentar dormir.

 

Um cachorro seria a companhia perfeita. Nalva arranjou um pequeno vira-latas com a vizinha e Fernando deu o nome de Nosferatu, mas ninguém sabia chamar direito, o bicho virou Danado. Brincavam até tarde, tinham conversas intermináveis que às vezes envolviam Gilvan, dormiam juntos na cama. A tia gostava de ver o garoto feliz.

 

Depois de um tempo o bicho ficou doente. Danado, antes gordinho, agora era pele, osso e pelos. Pelos caindo, se espalhando pela casa. Em pouco tempo Fernando cavaria o quintal para enterrar o amigo, Gilvan sussurrando no ouvido, tantos passos para cá, tantos para lá, isso, aí mesmo. Foram dias de silêncio e reclusão. Tia Nalva pensou em conversar, só não tinha o que dizer. Em dois anos, o rapaz voltou às coordenadas e cavou, cavou até retirar o esqueleto do bicho. Fez uma limpeza cuidadosa nos ossos e os colou numa folha de papelão formando um mosaico que decorou a parede do quarto. Gilvan aprovou. A tia, não. Ele se fez de mouco e o enfeite ficou.

 

Quando terminou o Segundo Grau, Fernando arranjou emprego de office boy na indústria de confecções do antigo chefe de Tia Nalva. Levava documentos a cartórios, pagava contas, quebrava galhos. Sempre discreto, falava tanto quanto tinha amigos.

 

No corredor, começo de expediente, esbarra na nova assistente de Recursos Humanos. Isabel, nome quente, sorriso moreno, rosto solar. Fernando passa a viver na máquina de cafezinho ao lado da escrivaninha da moça e a observa no canto do olho. Às oito deseja os lábios de ameixa, às dez quer os braços de jambo, às treze sonha com as mãos de pêssego, às dezessete mira as mangas-rosa sob a blusa de algodão, à noite tem fome e sofre de insônia.

 

Nalva percebeu as olheiras, os livros de poesia embaixo do braço, as canções românticas em alto volume, as cartas aos montes. Aperreou-se com o sofrimento do sobrinho, mas depois se convenceu que era bom: namorada era coisa de gente normal.

 

Isabel analisava um documento quando fechou o rosto, virou-se para ele e fez um sinal. A voz não saía, mas uma torrente de saliva inundava os lábios, os olhos negros reviravam, o sorriso amarelava, a pele morena embranquecia, a língua vermelha descorava e virava caracol. Caiu no chão e a cadeira foi junto. Fernando saiu correndo, alguém acuda, chamem um médico. Já foi. Já era.

 

O povo do trabalho chorou abraçado durante o velório, tão nova e bonita, uma vida inteira pela frente. Menos ele. Ficou no canto, sentado sem dizer nada. Foi na frente do cortejo, peito estufado, parecia amigo de longa data. Saiu de lá sozinho, caminhando sem ideia até o primeiro bar que encontrou. Uma radiola de ficha tocava brega, dois casais dançavam colados e três mesas eram ocupadas por homens e mulheres barulhentos. Seria o primeiro porre da vida por causa de uma mulher. Cerveja e cachaça viraram água. Era madrugada quando decidiu ir para casa. Ouviu a voz: volte agora ao cemitério.

 

– Ah, Gilvan, pra quê? 

 

– Para encontrar Isabel.

 

– Tia Nalva já deve estar preocupada.

 

– Ela espera. Vá.

 

Cemitério fechado. Andou pra cá e pra lá, percebeu o portão menor encostado e o vigilante roncando tão alto que ele precisou se esforçar para conter o riso. Lembrou de ter visto à tarde um pequeno prédio em reforma, a porta aberta. Encontrou martelo, pá e punção, que levou ao túmulo de Isabel. Golpeou a parede ainda úmida com o martelo e removeu o cimento com a pá. Acertou o punção contra um tijolo e depois contra outro e outro, algumas lascas o acertaram no rosto, continuou até abrir passagem para puxar o caixão. Fez força. Não saiu do lugar. Lembrou do enterro de Amália. Seis homens a carregavam. Seis. Não conseguiria nada sozinho.

 

Não desista, há um jeito, foi o que Gilvan falou. Voltou ao setor em obras e achou uma corda enrolada numa bancada. Ao lado da sepultura tinha um jazigo de família importante, lembrava um templo grego. Passou a corda em torno das colunas como se fossem roldanas e a amarrou no caixão, puxou com toda a força possível. Saiu. Retirou as flores e quebrou a tranca da tampa. Beijou a boca forçando a língua contra os lábios imóveis. Com cuidado, tirou o vestido azul colado ao corpo e colocou a mão por debaixo, até as costas, soltou o fecho do sutiã e puxou as alças deixando à mostra os peitos com bicos morenos que lambeu devagar. Abriu as pernas, arrastou a calcinha para baixo e alisou a boceta de penugem negra. Tirou a própria roupa e forçou o pau duro. A moça estremeceu, os olhos se abriram, arfava e tossia, ria e chorava, soltou um grito que se espalhou entre as lápides, passou pelos jazigos, ecoou nas tumbas, revolveu as covas. Fernando trincou os dentes e saiu de cima. Correu, correu, correu. Até cair em algum canto. Nu e sozinho.

 

 

André Balaio, brasileiro, natural do Recife, Pernambuco, é escritor e roteirista de quadrinhos. Desde 2000 edita o site “O Recife Assombrado” (orecifassombrado.com). Com diversas histórias em quadrinhos publicadas e participações em várias coletâneas literárias, adaptou o livro “Assombrações do Recife Velho” de Gilberto Freyre para quadrinhos pela Global Editora. Venceu o prêmio literário internacional Off Flip 2016 com a história de fantasmas “O lado de lá”. "Quebranto", seu primeiro de livro de contos, foi finalista das prêmios literários brasileiros SESC e CEPE e venceu o prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras como melhor obra de ficção de 2018.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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