ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

André Luís Câmara


Poemas    

O vai e vem dos amigos*

 

Amigos têm muita vida, mesmo se parecem mortos, somem e ganham o mundo,
vão pra os mais distantes portos em surpreendentes segundos.

 

Como eles têm muita vida, reaparecem pra um papo, uma bebida, e ficamos de novo mais juntos
a ouvir suas histórias e dicas.

 

Nos cobrem de unguentos ou de cortes de faca.

 

Um dia, só a falta deles fica.


 

 

 

 

 

Um grito guardado*

 

Não é de suicídio o grito que eu agora imagino:
amanhece em engasgo, pigarro o grito durante anos contido.

 

Às vezes o grito disfarça, se oculta na voz represada, como mágoa na garganta
que, aos poucos, acaba em doença.

 

Mas de outra forma procuro o que me explique o silêncio que leva este grito guardado a ensaiar novos cantos.


 

 

 

 

 

Ruínas urbanas*

 

Tambores do Vidigal reinventam o batuque, permanecem os tiros e a intolerância.
Por que não aceitar a diferença? Há mesmo um mapa que mostre como desarmar a violência, como desfazer toda ganância? Eis a desolação que nos desune.

 

O saxofonista do Largo da Carioca mistura
belas partituras
de Chiquinha Gonzaga, K-Ximbinho,
também de LuizAmericano e Nelson Cavaquinho.

 

Quantos receios me silenciam, mas sorrio para o gari, que canta com sua voz de baixo, é mais um dia de detritos do convívio
por decadentes recantos
da cobiçada cidade em que reconheço o morador de rua com cheiro de éter, a florista das rosas e cravos murchos, personagens excluídos, refugiados em nosso remorso.

 

Dou uma rasteira no tédio, perambulo por becos imaginários, onde ainda resistem os mistérios dos lendários sebos,
dos curiosos antiquários e dos botequins discretos,
que decerto hoje são raros.


 

 

 

 

 

Rua sem saída*

 

Na minha rua
passam contrastes da vida, passa uma bala perdida, passa uma noite sem lua.

 

Na minha rua,
entre tensões divididas, o cinismo é uma ferida e o pânico se perpetua.

 

Na minha rua,
a delicadeza esquecida, sem sucesso, sem guarida, passa contida e ainda crua.

 

Passa ela nua
de passagem, de partida, eu passeio sem saída
na minha rua.


 

 

 

 

 

Encontro com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro*

 

Quero ir pra Lisboa de 1915,
com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, embriagado de Orpheu o tempo inteiro,
a pensar que é dor a dor que o poeta finge.

 

Na Hora absurda do heterônimo,
em frente à Tabacaria ou na Dispersão em Paris, estarei com o Livro do Desassossego, feliz,
no Martinho ou na Brasileira, polifônico.

 

A Confissão de Lúcio, Opiário, Mensagem, conversas com Soares, Campos, Reis, Caeiro, estarei com Pessoa e Sá-Carneiro
a me desprender desta engrenagem.

 

Veremos Oswald, Mário, Caetano e Gil no desembarque da Semana de 1922 e de toda a Tropicália,
saudaremos esta língua que se modifica e se espalha entre amigos da Bethânia, como o Buarque.


 

 

 

 

 

As asas de João Cabral**

 

É deAntônio Augusto Fontes a foto bem mais que retrato, nela o poeta se oferece
em imagem de instante, estalo, quase surpreende essa entrega de quem se dispõe a dizer
de sua poesia intestina
e desse cante sem mais nada, parece que é pausa, intervalo o momento ali captado,
para engolir uma aspirina como se tragasse um cigarro, é deAntônio Augusto Fontes, que entende a beleza do cacto, a paisagem que assim, severa, se impõe diante da enseada,
recusa a Urca, o Pão deAçúcar, para ver em sua lembrança apenas o canavial,
mas é o poeta ali na sala, e atrás dele duas escadas
que são dessas que se usa em obra, servem a pintor de parede
ou a alguém que conserte, no alto, um cano estourado, um reboco, escadas que, atrás do poeta, montam a imagem estranha
quase como, sei lá, um anjo, mas um anjo assim meio torto,
não o das sombras, de Drummond, mas um anjo de versos curtos, ríspidos, cortantes, certeiros, minha mulher, olhando o livro,
me diz: “foto do AntônioAugusto”, mostra assim, nesse plano exato, toda a poesia do menos
percorrida pelo Secchin, a proposta dessa antilira estudada por Costa Lima, horas e horas de conversa
mantida com José Castello, João Cabral de Mello Neto tem por detrás duas escadas abertas num “V” invertido
e que juntas formam um “M”,
o que vemos, em preto e branco, é inventivo, é um espanto inusitado e cotidiano,

 

eu veria apenas escadas, Antônio Augusto, grande artista, vê mais além, clica e eterniza
o poeta e seu par de asas.


 

 

 

 

 

Antes que a noite que se alonga**

 

Depois da chuva, os passarinhos passaram sobre esse jardim,
na cozinha eu lavava a louça, e até pareceu possível
falar da beleza do instante, que ficou fora de lugar assim que romperam ataques
dos que, em nome de Deus, da Pátria, difamam, agridem quem tenha
outra versão dos mesmos fatos, desmantelaram o país
e contam com gente de bem, têm apoio dos meus vizinhos,
eu conheço alguns desde a infância, preferem investir no horror
e defendem seus preconceitos, cultuam falso moralismo,
mas sabem que o dinheiro é sujo, e então se banham com perfume e mantêm a aparência limpa
e vigiam a liberdade,
dão valor mesmo é ao status, a um poderzinho idiota, fecham os olhos à tortura, nostalgia da escravidão, desprezam a diversidade,
manipulam, blefam, controlam nosso espanto, nossa impotência, há os que nem sempre suportam, caem bêbados na piscina,
é um descalabro essa inércia, apagamento de alegrias, criemos o encontro, a festa, antes que a noite que se alonga deixe mais tristes nossos dias.

 

*Poema reunido no livro “Rua sem saída”, lançado no Brasil pela Editora Patuá, em julho de 2018, e que pode ser encontrado no sítio da editora neste link: https://www.editorapatua.com.br/produto/8460/rua-sem-saida-de-andre-luis-camara

 

O livro também se encontra disponível no sítio daAmazon: https://www.amazon.com.br/Rua-sa%C3%ADda-Andr%C3%A9-Lu%C3%ADs-C %C3%A2mara/dp/8582976119/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD
%C3%95%C3%91&keywords=rua+sem+sa%C3%ADda&qid=1570627592&s=books&sr=1-1

 

**Poema inédito que estará no novo livro do autor a sair ao longo de 2020.

 

 

André Luís Pires Leal Câmara é poeta e jornalista. Brasileiro, nasceu em 1965 no Rio de Janeiro, onde ainda reside. É mestre e doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 2018, aos 53 anos de idade, publicou seu primeiro livro de poesia, “Rua sem saída”, lançado em seu país pela Editora Patuá. Cinco poemas desse livro estão reunidos aqui, além de dois poemas inéditos. Logo após a publicação de seu primeiro livro, iniciou uma parceria musical com o escritor, compositor e também poeta Leonardo Almeida Filho. O autor mantém um canal no YouTube onde costuma fazer leituras de seus poemas e que pode ser acessado neste link: https://www.youtube.com/channel/UC9vyozfj49xajOZxuyc_ZoQ

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Colaboradores de Outubro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Balaio, André Luís Câmara, Beatriz H. Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Piscarreta, Cláudio Parreira, Elizabeth Olegário, Fabrício Marques ; Libério Neves, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Henrique Wagner, Hermínio Prates, Jalmelice Luz, José Arrabal, José Carlos Dinardo, Katyuscia Carvalho, Leila Míccolis, Luís Nogueira, Marinho Lopes, Niels Hav, Paulo José Cunha, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Vera Lúcia de Oliveira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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