ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Madrugada do adeus    

Um azougue. Melhor definindo: um corisco. Corria a casa toda, subia e descia as escadas com a pressa do fim do mundo. Poderia cair, se machucar? Sim, era uma possibilidade, mas nunca aconteceu. Era impressionante o equilíbrio, a agilidade das perninhas inquietas, saltitantes. Mesmo sem saber falar, se comunicava fácil com o olhar e o gestual de piruetas. Indicava a porta, adivinhava a hora do passeio na pracinha, onde corria sem limites, descobrindo motivos para se alegrar.

 

A pouca idade era a permissão para pequenas aventuras nas fronteiras da praça, quase toda gramada, macia, tornando suave o contato com os pés ariscos. Corria atrás de uma bola, ia e vinha sem nunca se cansar. As mulheres, acompanhantes de outros brincalhões, como ele, o achavam bonito, mais esperto do que todos. Sentiriam inveja? Talvez, mas disso não sabia e nem se interessava em descobrir, o que queria era brincar. E não parava um segundo. Sombra e água fresca. A sede exigia água, mas daquela não bebia, ouvia dizer que era impura, cheia de bactérias.

 

Sempre evitava as sombras da praça e das ruas, melhor era aproveitar a liberdade para correr à solta, ir de um canto a outro. Preferia aguardar o descanso em casa, onde já conhecia cada cantinho, tendo os preferidos: no tapete macio, nas poltronas fofinhas ou nas camas perfumadas. A moça, parceira e amiga sempre reclamava, mas pelo tom sabia que não era nada sério. Ela dizia:
- Já falei que não pode subir na cama...

 

Aquela não era fala de repreensão, era mais um incentivo para que ele continuasse rolando sobre a colcha colorida. Ele preferia a cama maior, com o cheiro gostoso dela, percebido à distância. E quando ela se deitava ao lado, um olho na televisão e outro nele? Os dedos cariciosos transmitiam ternura, faziam cosquinhas na sua barriga, falando com ele com os diminutivos das palavras.

 

 - Seu danadinho...

 

Ria quando ele se revirava na cama, pulando de folguedo. E se, por alguns segundos, quando escapava do raio de visão dela, sempre ouvia a pergunta, quase chamado:
 - Cadê você, seu danadinho?

 

E ele aparecia, rindo com os olhos, festejando com o corpo. Ela o abraçava e o beijava com a saudade de não se entender.

 

Não, definitivamente não gostava das visitas. Eram estranhos que diziam palavras de agrado, mas ele sentia, só de olhar, que era fingimento. Não gostavam dele, preferiam que ele não estivesse por perto. Ou que nem existisse, mas mentiam para agradar a dona da casa, que retribuía com copos cheios de um amarelo espumante, outros tilintando pedras de gelo, além de salgadinhos refinados. Não sei se ela percebia a falsidade, eu sim. O que será que ela pensava sobre aquelas pessoas barulhentas, que demoravam tanto tempo antes de irem embora?

 

A moça, com a sensibilidade exclusiva das mulheres, percebeu algumas mudanças. Seu miúdo parceiro, companheiro de segredos e de noites indormidas – embora ele nada entendesse – estava diferente. Ela já não ria, o via com olhos de preocupação. Um dia saiu com ele, andaram de carro, entraram em um prédio; ela disse um número e uma caixa começou a subir com os dois e mais gente. Foi olhado com simpatia por uma mulher e com estranheza por um homem barrigudo. Depois ficaram em uma saleta, esperando não sabia o que. De uma porta surgiu um homem de branco e eles entraram. Foi deitado em uma cama, o homem olhou sua língua, dentes, olhos e até encostou um negócio frio no seu peito. E ele disse que ela não precisava se preocupar, tudo estava acontecendo de acordo com minha idade.
 
Mas o que acontecia? Aquilo tudo só porque ele corria menos, se cansava mais, deixava sobras de comida? Um tempo depois voltaram à casa, onde começou a ser servido com uma comidinha especial, exclusiva dele. Nem precisava de dentes pra mastigar. Uma delícia de macieza! Comia, comia, até se fartar. E depois, satisfeito da vida, adormecia sendo acariciado por ternas mãos. Percebeu que ela o tratava com mais atenção e carinho, como se isso fosse possível. Era observado o tempo todo; cada gesto, som e até como pulava sobre a cama ou andava pela casa. O tempo muda comportamentos, cria outros, limita muitos. É implacável, não respeita afetos, nem ameniza sofrimentos. Ouvia seu nome sendo falado por ela; a conversa era na caixinha chamada de celular, pedia conselhos, informações, parecia ansiosa, como se temesse algo de ruim.

 

Um dia acordou com algo solto na boca, era um dente. Outros amoleceram, caíram. Ouviu quando ela disse a uma amiga que seis dentes já haviam caído. E que eu trombava nas pernas de mesas e cadeiras, parecendo não enxergar direito. Ela dizia meu nome e eu nem ouvia, apenas um zumbido indefinível. Pelo cheiro eu sabia quando ela chegava da rua, estava por perto, me envolvia em cobertor macio nas noites de frio e vento. O tremor das minhas pernas nem era de frio; é que já não tinha forças pra me manter firme; correr era coisa do passado, andar quase impossível.

 

Os sons, os cheiros, o sabor da comida, tudo se fora. A água era uma necessidade, mas bebia sem ânimo, poucos goles e arfava com um cansaço incompreensível.

 

Dormiu e sonhou. Parecia etéreo, pulando de uma nuvem pra outra, cabriolando no espaço azul.

 

De manhã a moça se aproximou já anunciando ternuras na meiguice da voz:
 - Acorda, seu danadinho ...

 

Dessa vez ele não acordou, já estava no paraíso dos cães.

 

Joca, o amado, diminuto e vivaz cão da raça Lhasa Apso, canídeo originário do Tibete, que pode viver de 12 a 18 anos, se foi aos 17 anos. O nome vem da capital Lhasa e o complemento Apso (ovelha) é devido à sua pelagem lanosa. O cão é considerado sagrado pelos monges, que desde sempre previam avalanches na cordilheira do Himalaia. Joca, o cãozinho abandonado doente na rua por um dono insensível, foi recolhido pela moça que lhe deu guarida, amor e carinho em todos dos muitos dias e noites enquanto dividiram a morada. Até a madrugada do adeus.

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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Paginação:

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