ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

José Arrabal


O feliz encontro da Matemática com a Literatura    

Tinha nome imponente e sugestivo, Armando Nascimento, mas em nosso vilarejo, Santo Antônio das Paineiras, Espírito Santo, Brasil, no dizer de todos era Armando Puxa-Avante, o professor.

 

Puxa-Avante por ser desde há muitos anos o guia da Folia de Reis na cidade, folia que conduzia com seu costumeiro grito “Avante! Avante!” no decorrer da travessia dos foliões a cada seis de janeiro.

 

Grito igualmente repetido aos alunos nos desfiles escolares em datas cívicas, pois nunca julgou mau o apelido que até mesmo alimentava onde estivesse.

 

- Vamos avante! Puxa avante! – melhorava o ânimo da turma nas tensões de uma prova, trazendo riso, maior satisfação ao ambiente.

 

Armando Puxa-Avante, querido mestre, professor de Matemática no Ginásio Estadual Avelino Rodrguez, em Paineiras.

 

- Leciono graças a um arranjo de Deus que bem sabe o que faz! – justificava a vocação por ter nascido num certo 15 de outubro, dia do mestre.

 

Para as aulas trajava terno claro, gravata borboleta, camisa limpa engomada, sapatos encerados. Sobre a mesa de trabalho colocava o chapéu de feltro grosso que tirava ao entrar na sala. Ao sair, tornava a pôr o chapéu na cabeça protegendo sua vasta cabeleira grisalha.

 

Homem de estatura média, gordote, tinha traços de ágil gnomo, mais gestos elétricos de maestro de orquestra e palavras certeiras de exímio arqueiro.

 

- Fui professor de seu pai. Ele não gostava de Matemática... mas depois gostou... – confessou-me em simpático sussurro, justo no primeiro dia de aula.

 

Nada respondi, surpreso por ter adivinhado que eu também desgostava de sua matéria de ensino. Surpresa que me acompanhou todo o curso devido à sua profecia de minha afeição crescente pela Matemática.

 

Quatro anos estivemos juntos, ano a ano, num curso diferente do que podia prever.

 

No primeiro ano ginasial – hoje chamado de quinta série – não tratamos de somas, nem de frações, não vimos qualquer equação, não decoramos fórmulas, muito menos resolvemos problemas de aritmética.

 

Estudamos a aventura da Matemática, sua múltipla valia histórica para a Antiguidade, para a Idade Média e nos tempos modernos.

 

Tomamos conhecimento das biografias dos grandes matemáticos, a paixão de Pitágoras pelo Um, Arquimedes gritando “Eureka”, a tardia descoberta do Zero, a razão de ser dos caracteres numéricos de cada cultura da humanidade. Lemos pequenos contos em que a Lógica torna-se essencial à solução dos enredos.

 

- Avante! Avante! – nos seduzia o mestre com a Literatura servindo à Matemática.

 

Atravessamos a sexta série apaixonados pela leitura de “O Homem que Calculava”, histórias do escritor brasileiro Malba Tahan. Até inventamos novas situações semelhantes às desse livro inesquecível.

 

Cumprimos outras leituras de textos com conteúdos equivalentes, vivenciando enigmas matemáticos. Entusiasmados, visitamos Sherlock Holmes. Também nos encantamos com o conto “O Escaravelho Dourado”, de Edgar Allan Poe. Expressões do imaginário em que o raciocínio aritmético é precioso para solucionar as tramas em suspense. Percursos que nos aproximaram com satisfação de diversos conceitos da Matemática.

 

Nunca me esqueço de certa prova no meio do segundo semestre desse ano, prova com dez questões que levamos para resolver em casa.

 

O professor nos passou tão somente as respostas das questões. Cabia a nós inventarmos os enunciados dos problemas para essas respostas. O valor da nota era proporcional à complexidade de cada enunciado inventado por nós. Não foi fácil, mas foi muito divertido.           

 

No ano seguinte lidamos com poemas e canções, centrados nas métricas e nos encadeamentos das rimas, que transformamos em dados estatísticos, enquanto constatávamos surpresos que Música e Matemática têm almas irmãs.

 

Substituímos números por letras, de onde chegamos à Álgebra. Entrelaçamos formas e números, com o que alcançamos a Geometria. Com alguma facilidade dominamos noções de logaritmos, das constantes, da transformação de coordenadas, das derivadas de funções, das integrais básicas, da teoria dos conjuntos.

 

Rimos dos números irracionais.

 

E brincamos felizes com todo esse universo do conhecimento humano.

 

- Avante! Avante! – nos conduzia a batuta do maestro Puxa-Avante.

 

Na oitava série, último ano de nosso curso Ginasial no Colégio Avelino Rodriguez, num decisivo lance de dados, o mestre nos apresentou à mais permanente relação da vida cotidiana com a Matemática.

 

Dividiu a turma em pequenos grupos agora responsabilizados pela criação e condução administrativa de supostas fazendas agrícolas, fábricas, casas de comércio, provedoras de serviços, supostos bancos e bolsas de valores, até mesmo supostos organismos do setor público, todos associados às suas implicações com a economia familiar.

 

Assim nos encaminhou à consolidação da necessidade permanente da Matemática na existência humana, com o que construímos supostos mundos, visualizamos suas contradições.

 

Foi plena a nossa formatura no Ginasial. Seu sabor de vitória tinha o tempero da saudade impulsionando o porvir.

 

Oito anos depois, ao me tornar Engenheiro, passei cópia precisa do diploma ao Professor Armando Nascimento, certo de que meu curso universitário era fruto da semente plantada em mim por ele, mestre eterno em minha grata memória, que me fez gostar da Matemática, também ainda mais de Literatura.

 

- Avante! Avante! – nos despedimos felizes.

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Paulinas Editora), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora), “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2014). Blog: http://josearrabal.blogspot.com.br/

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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