ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Katyuscia Carvalho


Um pedaço de chuva no bolso    

«Escrever é cheio de casca e de pérola.»
[Manoel de Barros]

 

 

 

Disse Barthes certa vez: “O texto, este só pode ser uma trança, levada de modo totalmente arrevesado, entre o simbólico e o imaginário. Não se pode escrever – pelo menos essa é a minha convicção – sem imaginário. O mesmo acontece, bem entendido, com a leitura.”

 

No livro «Um Pedaço de Chuva no Bolso», de José Geraldo Neres, Editora Kazuá, o discurso se faz nessa “trança” de retalhos cotidianos que convulsiona a nossa percepção de trágico e belo.

 

Há dentro dessa sua prosa poética uma narrativa que fratura, transcende qualquer cadência temporal, como se o tempo fosse ora um ente humano entre dois instantes num “calendário da noite”: “a mão esquerda rompe o casulo” / “o dedo indicador aponta a mortalha vermelha”; ora um momento em espiral, como a saia à qual os personagens se agarram, em “o tempo de saia amarela”. Ou, ainda, uma engrenagem na qual se acelera irremediavelmente o corpo da infância: “Chamo a infância para brincar. Ela não encontra suas pegadas. O chão passa rápido”.

 

Que linguagem pode apreender um corpo na existência?

 

Neres o sabe. E para dizê-lo, ele a veste de poesia.

 

Um sol se banhando num rio. O leitor à beira. Assim definiria sua escrita se corpórea. Imagem que não se olha sem que os cílios se incendeiem; leitura que nos secam os lábios. 

E de súbito, é já o rio correndo “nas veias do sol”.

Simbolista sua poética? Surrealista sua prosa? Não se sabe nem se cabe em classificações deste mundo aquilo que se escreve sob os tambores da ancestralidade afroameríndia. Como se com “um tambor preso nos dentes”. Mas se sabe e se cabe na fluidez, que para a sua linguagem seria a desse rio – se nele a profundeza e tudo que corre às suas margens conseguissem se beijar. Porque é isso que ele faz. 

A escrita de Neres é uma pedra de sol estilhaçando a vidraça através da qual nossos sentidos observam o texto. Essa vidraça é nossa retina. E a pedra não é apenas pepita: é o predicado que fora traçado nas linhas da mão de um erê. Nos percursos do livro, em dado momento, o erê é menina, ela própria estilhaçada. "O tiro de um anjo sádico quebrou minhas asas". O interior do seu corpo acumula um arsenal de desfechos que a gente vai lendo e se deixando partir em cacos e caos. A vertigem se dá porque, por mais que o queiramos onírico, o cotidiano no texto é, com toda latência, real.

“Maria não consegue mais se lembrar do rosto da mãe. – Minha mãe é a rua! Doze anos. Ela. Carrega uma boneca, presente de Natal. A miséria não dá trégua: a fome, rosto antigo, dentro de Maria. Virgindade tem valor. O suor daquele homem corre pelo seu corpo. O sol, um punhal modela seu rosto: a alma cortada. O choro, o grito, e nenhum anjo para escutar. Nenhuma lágrima. Hoje ela almoçou!”

Noutro momento, o erê é a criança que virá para continuar o arremesso da “rede apanhadora de sonhos: vazio, vazio, vazio”, para quiçá virar outra “pintura naufragada sem sapatos e infância”.

Neres parece desafiar o que disse Jean-Marie: “Um contracanto não se improvisa – incapaz de uma única frase realmente nítida que fique de pé e ao mesmo tempo corra”, e conseguir tal feito quando nos descalça para ler a língua líquida da sua chuva.

 

 

 

Katyuscia Carvalhoé brasileira, nascida no interior de Pernambuco, em 1977. Licenciou-se em Letras e atualmente reside na Suíça. É autora do livro de poesia «Vermelho Rupestre», pela editora Patuá. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias, coletivos, e em antologias brasileiras como «Porremas» e «Blasfêmeas», e na antologia intercontinental «Liberoamérica».

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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