ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Esses louros…    

Acho que foi a proximidade da primavera, com belas aves ora cantando nas árvores floridas, ora praticando tirolesa – esporte radical – pelos fios elétricos das ruas, que me fez terminar a crônica do mês passado falando em papagaios e começar a de hoje da mesma forma.  Dá-se também que esta semana o filhinho de uma amiga acaba de ganhar duas calopsitas. Eu sei que um é um e outro é outro; mas são aparentados. Então, dedico esta crônica a toda família dos psitacideos – incluindo as araras, maitacas, tuins, cacatuas e periquitos – pedindo que me perdoem, queridos pássaros, se não citei todos os membros de sua numerosa e inteligente espécie.

 

Tinha várias conotações a palavra papagaio, lá pelos meados do século passado: falava-se muito “Papagaio!” toda vez que se queria dizer: “Nossa!” ou “Puxa vida!” Era uma interjeição de surpresa e/ou espanto muito corriqueira, pelo menos lá em casa. Também havia o papagaio-pipa (brincadeira de meninos, naquela época), e o papagaio da linguagem comercial, sinônimo de empréstimo – usado até hoje nesta acepção, embora muito mais raramente agora; mas o papagaio mais conhecido sempre foi a ave mesmo, com algumas variedades brasileiríssimas, principalmente o papagaio-comum ou papagaio-verdadeiro, representado na ficção pelo famoso, matreiro e malemolente Zé Carioca, fanfarrão, esperto, persuasivo, “bom de bico”, “bom de papo” e “boa-vida”; no dia a dia nordestino  a ave aparece em aventuras narradas em cordéis deliciosos e, no Rio, protagoniza  piadas irreverentes, a maior parte delas desbocadas (língua solta...), “impróprias quando havia mulheres na sala” – no dizer dos patriarcas zelosos com a moral e os bons costumes familiares.

 

Até hoje existe uma enorme proliferação de “causos” e anedotas de papagaio sendo contadas. Porém nem tudo é piada na vida destes bichinhos tagarelas, tantas vezes acusados injustamente de “fofoqueiros” e inconvenientes... O que passo a contar é uma história verídica, que aconteceu há alguns anos com um amigo meu, poeta, crítico literário e jornalista famoso. Para preservar-lhe a privacidade, chamei-o aqui, hipoteticamente, de Fernando. Morava ele com a avó, cuja característica principal era ser uma mulher hipocondríaca – ela achava sempre que estava nas últimas, pronta a receber a extrema-unção. Todas as noites desfiava um rosário de sintomas – os mais variados e sortidos – e culminava dizendo ao neto, com voz grave, sua frase bombástica predileta: — Desta noite, não passo.

 

Na casa, havia um papagaio, muito diferente de todos os outros: era mudo. Jamais falara nada. Por mais que Fernando tivesse tentado ensiná-lo, ele fechava-se em seu silêncio e dele nunca se ouviu um único currupacopapaco. Aos poucos, meu amigo foi desistindo de ensinar-lhe alguma coisa e, com o correr dos anos, acabou por acostumar-se ao mutismo do seu louro. Sempre cuidadoso com ele, Fernando todo dia levava-o para o quintal pela manhã e o apanhava de tardinha, quando voltava do seu trabalho (era também jornalista).

 

Um dia, porém, devido a um temporal, meu amigo não conseguiu sair no horário de sempre do trabalho, nem teve como se comunicar com a avó (o telefone fixo estava sem linha – não havia celulares na época). A senhora, por nunca ter cuidado do papagaio, nem se lembrou dele, até porque o animal não reclamava de nada mesmo: nem miava nem latia... Quando Fernando voltou para casa, encontrou o papagaio molhado até a medula. Recolheu o bichinho, enxugou-o, mas, de noite, ele começou a tossir muito. A avó, "perita em doenças" diagnosticou que aquilo era uma gripinha à toa, em dois ou três dias ele estava bom novamente, ao contrário dela, cuja sina era padecer até o último suspiro neste vale de lágrimas...

 

Ao deitar-se, meu amigo fez um carinho no papagaio, que todo encolhido e murcho olhou para ele e, pela primeira vez, falou: — Desta noite não passo... Fernando ficou esperançoso ao ouvir-lhe a voz, mesmo que fosse para repetir a velha ladainha que ouvia todos os dias; errou portanto quem disse que “papagaio velho não aprende a falar”... a partir daí, ele havia de tornar-se um papagaio “normal”. No entanto, sua alegria durou pouco, porque no dia seguinte a ave amanheceu realmente morta. Falando comigo ainda muito abalado, Fernando saiu-se com esta “filosófica” observação:

 

— Vovó que fala o tempo todo em morte, continua viva... O papagaio que falou uma única vez na vida acertou em cheio no diagnóstico. Veja você – concluiu – a grande diferença entre as pessoas e os animais...

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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