ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Niels Hav


Oito poemas de Niels Hav e uma entrevista    

Da obra “A Alma dança em Seu Berço”, tradução de Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira, editora Penalux (SP).

 

MENTALIDADE HUMANA

 

A mentalidade humana é um hotel místico
com muitos andares, corredores, salas de reuniões
e instalações para conferências.
Na recepção, indiscutíveis regras do senso comum imperam
durante o dia. À noite, tudo é administrado
por um Neanderthal.

 

Todas as percepções da vida estão representadas neste hotel.
Em alguns quartos importantes, contratos são negociados,
reformas drásticas são planejadas. Atos criminosos e
assassinatos são contemplados. Se o recepcionista
bater nesta porta para fazer perguntas pessoais
ele será expulso com um rugido de escárnio.
Em outros quartos, vivem filósofos, malabaristas de palavras,
xamãs e crentes zelosos. O porão é assombrado
pelo grande baterista do nada, que mantém
répteis como animais de estimação. Em todo lugar há atividade febril.

 

Em situações cruciais, todos são chamados
para uma reunião, dia ou noite, para falar sobre
grandes problemas ou puras trivialidades.
Não há agendamentos ou chefes;
as questões levantam-se e desaparecem em rápidos tumultos.
Um argumento por cima de outro
cada um em seu próprio campo. Alguns usam a lógica
ou o senso comum, outros declamam com uivos,
choros, canções, maldições, súplicas e gritos de terror.
Espíritos antigos cantam resmas de palavras incompreensíveis
em línguas mortas. Raramente
espera-se chegar a uma conclusão definitiva.
De repente, todos retornam aos seus quartos
cada um imerso em sua própria confusão inabalável.

 

Na recepção, uma limpa e bem vestida
pessoa caminha. Ele chama a si mesmo de Eu
e sustenta que ele é o gerente; ele afirma
que todas as decisões são tomadas por ele; ele alega
que o hotel é gerido racionalmente
de acordo com princípios contemporâneos.

 

Ouça-o com um pouco de ceticismo.
Os demais habitantes do hotel não dão a mínima
para a autoridade dele.

 

 

 

 

 

 

EM DEFESA DOS POETAS

 

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

 

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

 

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

 

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

 

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

 

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

 

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

 

 

 

 

 

 

MINHA CANETA FANTÁSTICA

 

Eu prefiro escrever com uma caneta
encontrada na rua, ou com uma caneta promocional,
feliz por promover os eletricistas, os postos de gasolina
ou o banco. Não só porque são baratas (gratuitas),
mas imagino que tal implemento irá fundir minha escrita
com a indústria, com o suor de trabalhadores qualificados,
com os escritórios administrativos e com o mistério
de toda existência.

 

Uma vez escrevi poemas meticulosos com uma caneta-tinteiro
- poesia pura sobre o puro nada -
mas agora eu gosto que exista merda no meu papel
lágrimas e muco.

 

Poesia não é para maricas.
Um poema deve ser tão honesto quanto as cotações da bolsa
- um misto de realidade e puro blefe.
O que resta para fazer com a nossa sensibilidade?
Não muito.

 

É por isso que não perco de vista o mercado de títulos
e os documentos importantes. A Bolsa de Valores
pertence à realidade - assim como a poesia.
E é por isso que estou tão feliz com essa caneta de bolinha
do banco, que encontrei numa noite escura
na frente de uma loja de conveniência fechada.
Ela cheira um pouco a mijo de cachorro,
e escreve fantasticamente.

 

 

 

 

 

 

VISITA DO MEU PAI

 

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas malsucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

 

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!

 

 

 

 

 

 

DIGA ALGO

 

Aquele
que nada diz
imagina
que o silêncio
ao redor de seu silêncio
diz tudo.

 

Mas este silêncio
fala em sua própria voz
esse é o problema.

 

O mais importante acontece
na zona silenciosa
mas ninguém pode controlar isso.
Ali anjos e demônios falam em coro.

 

Se você deseja que algo seja dito
você mesmo terá que dizer.

 

 

 

 

 

 

MORRER NÃO É UM BENEFÍCIO MARGINAL

 

As pessoas morrem onde quer que lhes caiba,
no trânsito, na calçada, na guerra.
Mortes espontâneas ocorrem 24 horas por dia.

 

A maioria das pessoas prefere, sabiamente,              
morrer em seu tempo livre, desta forma,
evitando qualquer perda de salário.
Aquele que se permite morrer
imediatamente perde
o direito às horas extras, quilometragem
e ajuda de custos (agora que isso realmente

 

Vai ser útil). Viver é muito caro,
mas morrer é geralmente também
um mau negócio.

 

 

 

 

 

 

A TAREFA

 

Acordar no meio da noite com um cérebro
cheio de suposições insanas não é algo tão especial,
a maioria das pessoas tem que enfrentar um monstro.
Alguns precisam tomar medicamentos para suportar a dor,
para superar uma perda ou cair fora de uma depressão.
Eles sentem-se totalmente abandonados e sozinhos
com os ogros – assim que é.
O diabo anda ao redor, rugindo como leão.

 

Outros se contentam com qualquer droga que esteja
à venda no mercado: tabaco, café, álcool, orgias gastronômicas
ou ascetismo. Alguns conseguem desaparecer no trabalho,
ou em alguma outra paixão esplêndida.
Construímos pequenos impérios na esperança de que eles servirão
como instalações para nossos espíritos desabrigados no dia
em que deixarmos nossos corpos e entrarmos na eternidade.

 

Todos querem deixar seus rastros – como um agradecimento
por nos ter sido permitido pisar na terra e desfrutar de sua beleza;
por nos ter sido permitido amar e odiar em amplitudes normais
com um corpo que mora em uma casa normal.

 

Nossa tarefa é decifrar nossas experiências comuns;
todo horror e miséria que nos cercam, agarram-se
às nossas roupas e infiltram-se em nossos corpos.
Perceber o que acontece e, se possível,
dizer as coisas como elas são.

 

 

 

 

 

 

UM SEGREDO

 

Agora, enquanto essa chuva estúpida cai
e estamos todos ocupados morrendo
eu sinto vontade de fumar. Mas fumar
não é permitido no aeroporto de Belgrado.
Pedi ajuda a um dos funcionários.
Fumar mata, ele disse.
Sim, concordei, mas agora acontece
que não-fumantes também morrem.

 

Posso te contar um segredo,
ele disse: Vá para o portão A6;
embaixo tem um banheiro escondido.
É lá que fumamos.

 

Segui suas instruções,
elas funcionaram bem. Desfrutei do prazer
secreto de fazer algo que está proibido.
Por que eu deveria negar informações úteis
às pessoas que leem poemas? – a poesia já está
repleta de sabedoria esotérica.

 

Todos os poemas © Niels Hav
Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

 

 

Poesia não é para covardes

 

Entrevista com o poeta dinamarquês Niels Hav, realizada por Sander de Vaan.

 

Entrevistador: Onde você se “localiza” na poesia contemporânea dinamarquesa? (em comparação com seus colegas dinamarqueses)

 

Niels Hav: Eu nasci na costa oeste, muito longe da capital onde vivo atualmente. Então, de alguma forma, sou um recém-chegado aqui. Assim como os imigrantes árabes, paquistaneses e turcos que moram na minha vizinhança. Eu falava um dialeto rural quando criança. É claro que pertenço ao cenário literário da Dinamarca, mas nunca senti que fizesse parte de alguma geração ou movimento dentro da poesia dinamarquesa. Cheguei aqui com experiências completamente diferentes das que os poetas urbanos vivem. Me lembro como fiquei contente quando conheci os poemas de Ted Hughes e Seamus Heaney, por exemplo, eles escreviam sobre espaços mais amplos, além da periferia urbana e sobre experiências com a natureza e com animais que eu podia rapidamente identificar. Atualmente sou um pombo da cidade grande e me sinto em casa em Copenhague, mas talvez seja a esta posição que eu pertença, um tipo de forasteiro que também tem outras relações e habita outros contextos.

 

Entrevistador: No poema “Minha Caneta Fantástica” você escreve: “Poesia não é para maricas.” esse verso também expressa sua visão pessoal em relação à poesia?

 

Niels Hav: Essa é uma boa pergunta, com diversos níveis. É claro que a poesia é para todos, poemas são endereçados a qualquer pessoa. Mas neste verso estou falando sobre a profissão, o ofício, a prática diária de escrever poesia. Trabalhar nesta área pode requerer coragem e perseverança. E uma disposição a renunciar ao lirismo individual e o sentimentalismo desenfreado, que sempre ameaçam sufocar a poesia. Uma peculiaridade dos bons poetas: todos os poemas ruins que eles nunca escrevem.

 

O que eu quero dizer é: a poesia contém elementos de música e alegria, mas não apenas isso. O tempo passa, nós vivemos e morremos. O mundo está pegando fogo. Políticas, bombas, ideologias e religiões devastando o planeta. É sobre isso que os adultos estão conversando – e em seu núcleo mais íntimo o desafio para a arte é se juntar a esta conversa. Descobrir e entender o que está acontecendo, e se possível, dizer as coisas como elas realmente são.

 

Então, sim, poesia – a profissão – não é para maricas. Você deve encarar a si mesmo e olhar a realidade, Deus, ou o que quer que seja, direto nos olhos. O dever primário da poesia é ser uma conversa íntima com o leitor sobre os mistérios mais profundos da existência.

 

Entrevistador: Há algum outro poeta, que você acredita ter chegado realmente perto de um “entendimento” em relação ao que está acontecendo em seus poemas? (Se sim, poderia citar alguns versos também?)

 

Niels Hav: Existem muitos grandes poetas, alguns escreveram uma porção de excelentes poemas cheios de iluminação acerca de questões fundamentais da vida. Mas em nossa cultura parece haver uma tendência de isolar a poesia em uma área periférica. Um poeta que falou muito bem sobre coisas essenciais e insistiu na relevância geral da poesia é o Czeslaw Milosz. Em 2011 seu centenário de aniversário foi celebrado, não apenas na Polônia mas em diversos continentes. Acredito que seja porque ele refletiu profundamente sobre questões que continuam atuais. Mas se eu fosse citar um poeta aqui, seria o poeta chinês Li Bai (701-762). Ele falou algo sobre a importância da poesia e ninguém poderia dizer melhor hoje em dia:

 

“Poemas perfeitos são as únicas construções
que sempre se manterão erguidas.
Onde estão eles agora, os gloriosos palácios
que se destacavam aqui?
Quando o poder está comigo minha pena
agita cinco montanhas sagradas.
De que me interessa todas essas coisas
que as pessoas desejam de gloria, poder, riqueza e fama –
que é isso comparado a escrever poesia?
Antes de eu  ajoelhar diante delas o Rio Amarelo
deverá fluir na direção de suas nascentes.”

 

Entrevistador: Poderia nos dizer algo sobre a origem do poema “Visita do meu pai”, que possui estes versos maravilhosos: “Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas./Jogue isso fora,/ meu pai diz, elas sempre voltam.” E como ele foi criado?

 

Niels Hav: Meu pai era fazendeiro e coveiro (ele cuidava do cemitério do vilarejo), economia não era seu hobby, e geralmente sua carteira estava vazia. Quando o carteiro chegava, minha mãe segurando as contas perguntava o que fazer com elas. Jogue fora, ele dizia, elas voltarão. Meu pai morreu há muitos anos, mas em momentos solitários ele ainda vem me visitar para discutir a situação. E, assim como na fazenda, poesia não é a profissão mais lucrativa, raramente há uma boa quantia de dinheiro na poesia – mas talvez, afinal de contas, exista algum tipo de equilíbrio na vida; não há muita poesia no dinheiro também.

 

Esse é o estímulo pessoal para o poema. Mas se o poema deve interessar a qualquer um além do próprio poeta, ele deve ser, em certa medida, emblemático. Quando escrevo um poema sobre meu pai, o poema deve ser tão bem feito de modo que o leitor possa adentrar o poema e estar lá com seu próprio pai. Não estou cobrindo o leitor com minhas reflexões e sentimentos pessoais – Isso impediria que ele usasse o poema para qualquer outra coisa, e aí ele seria apenas sobre mim. O poema deve ser desenvolvido ou projetado para que o leitor possa se sentir em casa ali com seus próprios pensamentos e sentimentos, e transformar essas palavras em suas próprias palavras. Agora elas pertencem ao leitor ou à leitora. Então, no fim, minhas experiências pessoais são completamente sem importância, eu escrevi o poema e o entreguei para o leitor, para todos. Meu pai nunca teve um passaporte, mas esse poema já foi lido em palcos da China e em Dubai, e parece funcionar bem em árabe e chinês. Todo mundo tem um pai.

 

Entrevistador: Como você geralmente começa um poema? (A partir de uma palavra, um verso, uma imagem, ou outra coisa?)

 

Niels Hav: Poesia é uma atividade frustrada, tenho certeza que muitos poetas conhecem essa sensação. Minha esposa é uma pianista clássica, toda manhã ela senta-se ao piano, e eu vou para meu escritório. Na maioria das vezes nada acontece. Eu estou lá, as palavras estão lá, mas nada acontece. Em um dia bom minha confusão e dúvidas podem levar a um poema. É a prática diária e o contato com o material escrito que algumas vezes trazem eletricidade à linguagem e faz as palavras brilharem. Escrevo devagar ou em grandes jorros, mas as coisas são deixadas de lado muitas vezes antes de serem publicadas. Repousam ali e maturam. E às vezes é bem mais tarde que pego o material outra vez e de repente me dou conta de que ali está: isso é um poema. Quando isso acontece é porque o texto guarda surpresas até mesmo para mim. Então o processo ainda é, de alguma forma, misterioso. Um novo poema é um presente, ele pode acontecer de repente, na rua, no trânsito, enquanto você está ocupado com afazeres do dia a dia, uma pequena epifania. Mas um bom poema é mais raro do que um texugo morto na estrada ou um OVNI.

 

Entrevistador: Versos tão bonitos e verdadeiros como “ Os novos namorados beijam as digitais um do outro / eu sei disso.” – parece ter vindo de um bom observador. Você olha muito em volta em busca de inspiração?

 

Niels Hav: Beijar é um assunto muito interessante, obrigado por trazê-lo à tona. Quando nos amamos, nos beijamos. Neste jogo a maioria de nós somos espectadores e jogadores ao mesmo tempo. Não sei se realizei mais pesquisas nesta área do que em outras, mas percebi que novos namorados amam tudo que diz respeito um ao outro. O jeito como ela fala, a jaqueta dela, sua caneta e sua bolsa. É a risada dela, o pulso, os quadris, mas também a escova de cabelo dela, seus livros e músicas, sua bicicleta. É o jeito como ela come, suas unhas do pé. O mercado onde ela faz compras e a rua em que ela mora. É ela!

 

Então, voltando para sua pergunta: Não sei se procuro muito por inspiração. Na maior parte do tempo estou simplesmente vivendo e ocupado com as tarefas diárias. A inspiração aparece quando quer. Mas também escrevo contos, e quando se trata de prosa é claro que pode haver alguns detalhes que requerem alguma pesquisa.

 

Entrevistador: Você fala inglês muito bem. Seria capaz de escrever um poema nesta língua? Ou a poesia está ligada 100% à sua língua materna?

 

Niels Hav: Talvez não 100 por cento, infelizmente não sou tão bom assim em inglês. Escrevo quase que exclusivamente em dinamarquês, e meu dinamarquês ainda é influenciado pelo dialeto que eu falava na minha infância. Já escrevi uns poucos poemas em inglês. Estou ligado à minha língua materna – e estou preso no alfabeto latino. Mesmo que eu me comunique em inglês, continuo isolado do resto do mundo. Quantos alfabetos existem em nosso planeta? Ninguém sabe ao certo, mas sozinhos o chinês, o hindu, o bengali e outros alfabetos asiáticos são usados por mais de um terço da população do planeta. E depois tem o alfabeto árabe usado por um bilhão. Muitos escritores árabes e chineses têm vantagem em relação aos seus colegas europeus, eles são capazes de lidar com dois alfabetos. Eu queria que minha ignorância não fosse tão grande.

 

Então sou dependente de meus tradutores. Em inglês são: Per Brask, Patrick Friesen, Martin Aitken e outros. Na Holanda sou sortudo o bastante para ser traduzido por Jan Baptist, que é fluente em dinamarquês e profundo conhecedor das nuances de linguagem. Ele já traduziu clássicos como Andersen, Leonora Christina e J. P. Jacobsen – estar nesta prateleira é um privilégio.

 

Entrevistador: Quais são seus “objetivos poéticos” para o futuro próximo?

 

Niels Hav: Sempre faço muitos planos, mas meus planos geralmente afundam como barquinhos de papel… E claro, sou supersticioso como todo escritor, não me atrevo a falar sobre coisas ainda não escritas, mas estou sempre trabalhando em novos poemas e novas histórias. Eu realmente gostaria de escrever uma obra que reflita a grandeza e beleza do nosso universo, em agradecimento por me ser permitido andar sobre este planeta. Essa ambição colide sempre com a falta de habilidade e as realidades do mundo à nossa volta.

 

                                                                    *

 

Niels Hav vive na Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo e traduzido para diversos idiomas. A editora Penalux (SP) é responsável pela estreia de Niels nas prateleiras brasileiras, com uma coleção de poemas de sua autoria intitulada “A Alma dança em Seu Berço”,  tradução de Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira.

 

Tradução: Edivaldo Ferreira

 

 

Niels Hav, poeta e contista, vive em Copenhagen, onde já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea após ter contos e poemas publicados em idiomas como: Inglês, Árabe, Turco, Holandês, Chinês, Sérvio, Albanês, Persa e outras línguas. Em inglês uma coleção de sua poesia “We Are Here” lançada pela Book Thug de Toronto.
Crescido em uma fazenda no oeste da Dinamarca, Niels reside hoje na parte mais colorida e multi-étnica da capital dinamarquesa. Viajou diversas vezes para a Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participou de diversos festivais internacionais de poesia. Seus poemas e contos têm sido publicados em um extenso número de jornais, revistas e jornais em diferentes países.
Em seu idioma natal, publicou três livros de contos e seis coleções de poesia. Por conta destes trabalhos, Niels recebeu diversos prêmios de prestígio do Danish Arts Council.
“…Niels Hav's “We Are Here”, ...brings to us a selection from the works of one of Denmark's most talented living poets and is all the more welcome for that reason….”
-           Frank Hugus, “The Literary Review”
A editora Penalux (SP) é responsável pela estreia de Niels nas prateleiras brasileiras, com uma coleção de poemas de sua autoria intitulada “A Alma dança em Seu Berço”,  tradução de Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira.
Bibliography
“A alma dança em seu berço”, Editora Penalux, Brasil 2018.
“Shpirti vallzon në djep”,Shtëpia Botuese OMSCA-1, Tirana, Albania 2016.
“Şî'ri bo trisnokekan nîye” (Kurdish translation), Ktebxanai Andesha,  Sulaymaniyah, Irak 2016.
“   Al-Rooh Tarqos Fee Mahdiha”, Jordanian Writers Association, Amman, Jordan 2015.
“Zanʹhā dar Kupanhāk”, Butimar, Tehran, Iran 2015.
“Kopenhag Kadinlari”, Yasakmeyve, Turkey 2013.
“Grondstof”. Poetry translated by Jan Baptist, Holland 2012.
“Udate žene u Kopenhagenu”, Bosnia 2012.
“De Iraanse zomer”. Short stories translated by Jan Baptist, Holland 2011.
“Ḥı̄na aṣı̄ru aʻmá”. Poetry, Arab Scientific Publishers, Beirut 2010.
“Als ik blind word”. Poetry, Holland 2010
“De gifte koner i København”. Poetry – Jorinde & Joringel, 2009.
“We Are Here”. Poetry translated by Patrick Friesen & P.K. Brask, Toronto 2006.
“U Odbranu Pesnika”. Poetry, Belgrade 2008.
“Grundstof”. Poetry - Gyldendal, 2004.
“Nenadeina Sreka”. Poetry, Skopje, Macedonia1997. 
“Når jeg bliver blind”. Poetry - Gyldendal, 1995.
“God's blue Morris”. Poetry, Crane Editions, Canada 1993.
“Den iranske sommer”. Short stories - Gyldendal, 1990.
“Ildfuglen, okay”. Poetry - Hekla, 1987.
“Sjælens Geografi”. Poetry - Hekla, 1984.
“Øjeblikket er en åbning”. Short stories - Hekla, 1983.
“Glæden sidder i kroppen”. Poetry – Jorinde & Joringel, 1982 “   Afmægtighed forbudt”. Short stories - Hekla, 1981.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Foto de capa:

PAUL DELVAUX, 'Les ombres', 1965.


Paginação:

Nuno Baptista


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