ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Alfaya


Confisco    

Depois de vários meses de absoluto silêncio, a compulsão irrefreável de escrever.  Sobre o quê?  Para quem?  Por que sinos se dobram os meus dedos finos junto ao teclado, se nada de específico ou programado tenho a dizer?

 

         Mas sinto, quase feito uma dor, que tenho de escrever.  Sinto que tenho de escrever, assim como certamente esta noite terei de sonhar.  Se não escrever ou sonhar hoje, ameaço romper de vez o meu já tão precário equilíbrio.

 

         E, junto com a escrita, vêm as perguntas: para publicar onde, quando?  Para publicar?  Por que preciso publicar, já que minhas palavras aparentemente interessam a tão poucos.  Contudo, não adianta querer enganar a mim mesmo: a compulsão é dupla, tanto de escrever quanto de publicar.  Como se escrever e publicar fossem  dois aspectos de um mesmo corpo.  Não aspectos opostos; mas, complementares.

 

         Seja como for, está saindo a “coisa”.  O animal vem para fora sem grande brilho, sem grande consequência futura (por certo).  Mas vem.  E ao vir recupera-se a tola esperança de que amanhã poderá emergir matéria melhor, um monstro mais sutil, mais delicado ¾ talvez.  Quem sabe a tão cobiçada descoberta íntima, a revelação de um áurico conteúdo até então insuspeito.

 

         Porém, suspeito mesmo é que não.  Mas há que jogar o jogo, enquanto o tempo passa, ou melhor, não passa.  Amanhã será o mesmo novo dia de ontem (o eterno retorno de Nietzsche e dos estoicos).  Será igual, mas inventarei assuntos como inventei também hoje, para fingir que há novidades, que há algum riso escondido num dos cantos da boca, louco para sair e gargalhar.

 

         O que é isto?  Um poema, uma crônica, uma farsa?  Uma farsa ou uma falsa promessa sem dúvida.  Uma salada cáustica.

 

         Conforme o texto se aproxima do fim, recupera-se lentamente a calma.  Já não irei para a cama sem poder ao menos exibir um mínimo feito.  Um confeito, um confete, um confisco (diretamente do fundo do inconsciente para este programa, senhoras e senhores).

 

         A consciência é uma ilha pairando acima do mar do inconsciente.  Dizia o falecido psicólogo Eduardo Mascarenhas.  Dizia não exatamente com essas palavras ou talvez não exatamente isso, mas dizia sim.  Aliás, descobri ontem, vendo um documentário sobre a mente no Netflix, que a partir de um certo ponto em diante já não se pode confiar na memória. O passado se reconstrói conforme a nossa conveniência no presente. 

 

História ou histórias?  Gostava quando se dizia “estórias”, ao se querer significar as ficções, e “histórias” ao se desejar referir a fatos reais.  Um desses desacordos gramaticais acabou com isso, transformando tudo em “histórias” apenas.  Todavia, depois dos tantos questionamentos sobre a fragilidade da História (hoje entendida sobretudo como mero discurso) em contraste com a palpável realidade das ficções, dá para imaginar os motivos que levaram os doutos a considerarem inútil a existência de dois termos que, afinal, acabam por significar praticamente o mesmo.

 

         De toda sorte, encerro por aqui esta crônica sem chegar a qualquer conclusão.  Um privilégio das crônicas e dos poemas (embora, em ambos os gêneros, seja comum o “fechar com chave de ouro”).  Fosse uma dissertação, conclusão obrigatória.  Fosse um conto, por mais moderno que fosse, seria conveniente um final, em nome sei lá bem de que regra.  Mas isto é uma crônica (ou um poema em prosa).  É o que é.  É o que pode ser, ao menos por hoje, depois de meses da mais absoluta secura, e basta.

 

 

Ricardo Alfaya, Rio de Janeiro-RJ. Escritor, revisor e livreiro, com 37 anos de persistência na vida literária.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2019


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Paginação:

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