ANO 6 Edição 85 - Outubro 2019 INÍCIO contactos

Vera Lúcia de Oliveira


Poemas de Vera Lúcia de Oliveira    

1.

 

Do livro Minha língua roça o mundo (Editora Patuá, São Paulo, 2018)

 

nasci de uma aranha
que me fisgou por dentro
com seu fio de visgo
que defende a greta
aberta na madeira

 

o brilho felpudo
enlaçou meu pulso

 

e aprendi ali
que toda beleza
tem custo
 

 

***

 

 

 

 

 

 

toda ausência
é um cão
que gane
sem despedaçar
o silêncio
 

 

 

 

 

 

***

 

disse hoje vou mais cedo
e foi-se bem antes do normal
varou a cidade pelo meio
em busca de algum punhal
que a matasse, mas sem dor
pensou, chutando seus passos
que nem isso é favor 
 

 

 

 

 

 

***

 

paredes se fecham
a noite abraça os postes
em silêncio sombras saem
de fendas da mobília 
sentam-se no ladrilho
e narram vidas
que não tiveram
 

 

 

 

 

 

***

 

pertenço às ruas frias
de vento e geada
em que algo de mim
se incorporou aos portões
e a esses cães famintos
que rosnam para os passantes
a esses tetos que pungem o céu
com suas antenas parabólicas
mandando mensagens a Deus
 

 

 

 

 

 

***

 

memória é medo
que se entreva
entre as teias
do corpo
memória é osso
sem carne
que cobrimos
da melhor forma
possível
para que não
sangre
 

 

 

 

 

 

***

 

entrou em casa
chutando a sombra
e se fechou no banheiro
encostou o rosto no frio
ferido do espelho
e foi comendo a noite
sem fazer ruído
 

 

 

 

 

 

***

 

esperar na porta
que o vento passe
e traga nele sua voz
já que os trilhos do trem
foram arrancados
as ruas não me levam
o ar parado se perde
como água que adoece
e o telefone mudo
espera que você
entre nele com
seu chinelo
 

 

 

 

 

 

***

 

mastigar dois dias o bocado
não faz com que desça rápido
pelo gargalo da boca
mas de certo
com a saliva o bolo
se torna lama
em que a língua
afunda
a fala
emana
 

 

 

 

 

 

***

 

poesia vem
de mansinho
como onda
que avança
(não de mar
que descansa)

 

e começa a boiar
por cima do olho
até naufragar
com o que tinha
dentro
 

 

 

 

 

 

2.

Poemas inéditos

 

país de palha
onde me fiz
em beirada de cama
vendo o pai morrer

 

levou de mim
o que nem me deu
nessa dor comida
com garfadas de feijão
com arroz

 

país de estopa que a mãe alvejava
e no branco aberto muitos dos
pássaros me ensinaram a voar

 

país de grama e terra molhada
país de arame farpado
que nos enrolou a língua
país de facas apertadas
nessa garganta limpa

 

 

 

 

 

 

***

 

esses bichos que ninguém quis
esses homens que ninguém quer
essas mulheres que ninguém olha
esses velhos que ninguém tolera
formam uma procissão de pedintes
andam em grupos ou se dispersam
quando sentem que são demais
e não vão entrar
em nenhum lugar
 

 

 

 

 

 

***

 

A notícia

 

         A Meirielle
 
da ponta da caneta
foi saindo o sangue
lento pingado
formando poça
no papel

 

gotejou na cadeira
escorreu em fio
de formigas loucas
por todas as pontas
das linhas
do jornal

 

 

Vera Lúcia de Oliveira Maccherani nasceu em Cândido Mota (Brasil) e reside na Itália desde 1985. É poeta, ensaísta e professora de Literatura Brasileira na Universidade de Perugia. Formou-se em Letras no Brasil e doutorou-se em Itália. Escreve em português e em italiano e tem poemas publicados em vários países. Sua obra aborda temas como os processos de alteridade, deslocamentos, desterritorialização, marginalização de indivíduos. Recebeu diversos prêmios, entre os quais: Prêmio Sandro Penna (Perugia, 1988), Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2005), Prêmio Literatura para Todos (Brasília, 2006), Prêmio Internacional de Poesia Pasolini (Roma, 2006). Entre os livros publicados: Geografia d'ombra, 1989 (poesia); La guarigione, 2000 (poesia); Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro, 2015 (ensaio); A chuva nos ruídos, 2004 (poesia); Verrà l'anno, 2005 (poesia); A poesia é um estado de transe, 2010 (poesia); La carne quando è sola, 2011 (poesia), Vida de boneca (infantil), 2013; O músculo amargo do mundo, 2014 (poesia); Ditelo a mia madre, 2017 (poesia); Minha língua roça o mundo, 2018 (poesia).

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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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