ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Gilda Nunes Barata


10 poemas    

Amo os teus olhos de renda
Tigres que se fecham
Orvalho descalço no pranto
Espuma granítica
Entendimento que se inclina.

 

Olham como quem parte
O nevoeiro em dois caminhos
Que não distingue.
A inocência já não reaparece.
O frio entardeceu-os. Partiu-os.
Ninguém viu.

 

 

 

 

 

 

As mães não morrem.
Evanescentes,
Matam flores
Sem nada responsabilizar.

 

 

 

 

 

 

À Dra Manuela Fonseca

 

É na confiança
Que começa o olhar do mar.

 

É na confiança
Que vamos rasgando ramos
Para salvar folhas, desfalecidas flores
Nascidas para ser grandes.

 

E, como numa ferida,
Que se equilibra num arame,
É na confiança
Que nunca esperamos
O abandono
Do invariavelmente
Presente e imutante.

 

Passamos a ser
Aves de uma altitude profunda,
Estrelas que esquecem lágrimas aturdidas,
Tempestades que dissipam relâmpagos –
Na confiança.

*

 

 

 

 

 

 

Conhecer pessoas
trouxe-me sempre
a saudade da minha mãe
a uma elevada escala.

 

Muitas vezes, fiquei consternada
porque, lado a lado,
só a minha mãe
tinha o peso de uma alma.

 

Conhecer pessoas
sempre me deu
um desencanto adorável,
pois tantas ervas
não perfaziam uma montanha alva.

 

Pessoas
sempre subiram escadas rangentes
ao que eu lera em versos,
contudo faltava a nobreza do traço.
Coros funestos,
Amabilidades falsas,
Não tinham os olhos mansos da minha mãe -
A discrição de um pássaro.

 

Eu sonhava nos longos cabelos
Da minha mãe a natureza inteira.
Bosques velozes, estreitos,
requeriam consolação
para que eu voltasse
a ouvir o som das flautas.

 

 

 

 

 

 

Coral,
Neve,
Iodo.

 

Quem foi primeiro ao teu encontro?

 

Afeição.

 

 

 

 

 

 

De porcelana,
De safira remendada
À hóstia ideal.

 

Assim é o Amor.
Assim é a crispação.

 

 

 

 

 

 

E se a água
Criasse raízes
Quando eu e tu
Nos amássemos.

 

E pouco a pouco
Respirando à beira do chumbo
Uma pedra baixasse
a caveira à luz exacta.

 

 

 

 

 

 

Inspirado em Sokolov- Fundação Calouste Gulbenkian, a 6 de Março de 2016.

 

O que mais importa:
O anjo que não pica a rosa,
A rosa no magma absorto.

 

O que mais importa:
A roca no desfalecimento
De uma aurora.

 

O que mais importa:
Não magoar a coisa que já vai morta.

 

Falecer com modéstia
Na ternura que tanto importa.

 

 

 

 

 

 

Lassidão:

 

Já do corpo
Se deslaça
O que era parco.

 

Quem espancou a minha rosa
E asfixiou-a rente ao meu coração?

 

 

 

 

 

 

Lógica:

 

Fatigado
O Amor fuzila.
Cancela de abdicar.

 

Abdica,
Para não mais fuzilar.

 

 

Nasci em Lisboa.

Sou licenciada em Direito pela UCL (Universidade Católica de Lisboa).

Sou mestre em Literatura pela FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).

Sou doutorada em Filosofia pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa.

Participei em congressos, em Portugal e no estrangeiro.

Publiquei os textos destes congressos em publicações colectivas.

Desde 1999, foram editados livros em que verti a poesia que sinto, ora em livros de histórias ilustradas, ora em livros denominados de poesia, “stricto sensu”.

Trabalhei com Valentim Quaresma na criação de obras de joalharia e peças nascidas tendo por base oliveiras.

Comecei a desenhar, por intuição, um período antes desta incursão.

Contudo, e além de tudo, o que me define é um amor terno pela natureza; pelos animais e procurar, na arte e na vida, o genuíno.

A minha vida ficou muito bonita quando o Vivaldi entrou na mesma. Refiro-me a um cão que está sempre a compor dentro do meu coração.

Há uns dias, poder ver um cavalo-marinho foi antecedido por uma noite mal dormida, pois as profundezas do mar e do Ser são algo muito amado, mas inquietante, para mim.

Muito breve, os meus desenhos estarão em lenços. Lenços que os quero um pouco como aves: liberdade, beleza etérea.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2019


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Colaboradores de Setembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Atanasius Prius, Bruno Flores, Caio Junqueira Maciel, Carmen Rosa Orozco, Conselho Editorial, Eloésio Paulo, Gilda Nunes Barata, Gonçalo B. de Sousa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Bateira, Jorge Vicente, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Luiz Roberto Guedes, Marco Aurélio de Souza, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Suely Bispo, Thássio Ferreira, Waldo Contreras López


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PAUL GAUGUIN, 'La sieste' (1892-1894)


Paginação:

Nuno Baptista


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