ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Gonçalo B. de Sousa


Poemas II    

Da luz nostálgica das tardes

 

Lembro umas abóboras no telhado
e, quintal fora,
até onde começava um campo de couves,
os insectos luziam,
e uma latada evocava a raposa da fábula,
enquanto as ameaças, esporádicas,
residiam em algum lacrau de passagem,
ou na misteriosa presença de um poço,
lá no fundo do campo,
capaz de tragar as crianças desprevenidas.
Mas o que enraizou a poesia na minha infância
foi aquela luz nostálgica do entardecer,
da qual – como acontece com certas mulheres –
ninguém se despede sem desejar revê-la.


03-08-2019

 

 

 

 

 

 

Memória de uma gesta plebeia

 

O príncipe Valente ensinou, talvez, alguma geração a ter honra,
bem como aquela sensibilidade que faz a base da educação,
e a coragem – comum a Rindt ou a Pedro Rodriguez -
de quem vive em cada dia
até que venha o fim natural de mais uma encarnação.
Mas essa geração da honra não foi a minha,
antes o cinismo tomou conta do mundo,
corroendo o que tínhamos como garantido
demonstrando como o pano cai rápido e inesperado,
como na última madrugada de Pompeia.
E o resto? A poesia, a Ilha de Páscoa, as primeiras raparigas,
e a gestão de um sofrimento então visto como normal,
à luz de uma aurora que não deixava adivinhar
as catástrofes que viriam.

 

 

 

 

 

 

Atravessando o Sinai

 

De pé, na orla do deserto, a noite vem e tudo parece belo.
Há, entre as pedras, uma promessa de água escondida,
que mate as sedes todas que hão-de vir.
Porém, relato nenhum nos disse da aridez dos desertos de cimento,
onde então acabavam os anjos caídos em desgraça,
e lançados fora do jardim das delícias.

 

 

 

 

 

 

Ao longe, as montanhas azuis

 

Até as pedras gritam injúrias
a quem vai no caminho errado,
mas tu não me abandonaste
mesmo quando ninguém mais me conhecia.
Tudo o que me faltou foi então adquirido e,
atravessando montes, longe dos carreiros,
lá recuperámos o rumo,
sob as estrelas de um céu profundo,
que sempre abriga os seus,
no incondicional amor que a natureza
tão generosamente distribui.

 

 

 

 

 

 

On the road again

 

Quem regressa aos quinze anos tem sempre razão.
A pedra existe no teu âmago, como o fogo dentro dela.
Tudo o que é essencial o respiras do ar e em ti mora.
És um oceano que se desloca de um lado a outro,
e assim percorre o mundo, majestoso paquiderme,
que não teme, pois que não cultiva o medo.

 

22-08-2019

 

 

Sou um poeta e escritor português, nascido em Lisboa, em 1962. Cedo me tornei um leitor compulsivo, começando a escrever aos dezassete anos, idade em que a poesia se foi apoderando da minha escrita. Fazem parte dos meus principais interesses: o cinema, a música, a banda desenhada e também as humanidades. Recentemente, comecei uma série de artigos políticos, por dever de intervenção cívica, pois os tempos não estão para silêncios e omissões.
Em cada poema procuro transmitir uma ideia forte, de forma sintética, por vezes quase telegráfica, ou captar o instante, na sua pureza e intensidade, conforme as minhas influências orientais (especialmente Bashô). Nos últimos anos alcancei um ritmo de trabalho mais intenso, e explorei vários temas, do mais espiritual ao mais terreno, buscando mais ritmo, musicalidade e suavidade na construção dos textos, para os tornar mais harmoniosos à leitura e à declamação.
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Bibliografia (a solo): dezassete obras, sendo a primeira, a Canção do Exílio, editada pela Temas Originais, e as restantes publicadas na Amazon, em formatos e-book e papel: O Jardim Oculto (com edições em inglês e bilingue); O Caos antes da Luz; No Amor, de que Serve ter Razão?; O deus-palhaço; Uma Candeia na Janela; A Morte é uma Estação de Serviço; O Rumor de Todos os Livros; O Primeiro Instante do Mundo; Uma Remota Pátria; O Ciclo do Pão; Do Fim das Coisas; Através de Cem Bocas; Da Poesia, umas Palavras; No Inverno, as Aves Mortas; A Decomposição dos Defuntos; Cantando, pois que são jovens.
(participação em edições colectivas): Livro dos 5 poetas, uma edição dos autores, com José Félix, José Gil, Constantino Mendes Alves e Jorge Vicente. Dez antologias da Encontro de Escritas, de 2004 a 2013. Pela aBrace (Bianchi Editores, Montevideu/ Edições Pilar, Brasília), participou na Selecção de Contos Infantis Círculo Curumi 1 (2004) e Letras do Desamor (poesia-2005). Publicou alguns poemas na revista DiVersos nº 10 (Outono de 2006).

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Paginação:

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