ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Dois sonetos e um cordel    

IDENTIDADE MINEIRA

 

Sou de Cruzília e sou um cruzado
do bem que nos faz esta tal de arte:
maravilhoso ver ao nosso lado
almas bailarinas por toda parte.

 

Guardadas as devidas proporções
Como Pelé, sou de três corações:
Um é prosa, outro é verso, outro goza
onde a linguagem é pele e sensações.

 

Aprendi que a fome de ouro, voraz,
um por um fez cair todos os dentes
enforcou e exilou os inconfidentes.

 

Saberei saborear sabarás
beberei da montanha cristalina
que jequitinhonha em Diamantina.

 

 

 

 

 

 

SONETO EM MEIA SOLA

 

Eu e meus sapatos somos assim:
Cansados. Com nosso couro curtido,
Caminhamos num caminhar aflito
Pra nenhum lugar, pra nenhum destino.

 

Eu e meus sapatos somos assim:
Largados. Órfãos do que é definido,
Nosso rumo à deriva é nosso rito
Nosso prumo é do luar a pino.

 

Eu e meus sapatos somos assim:
Famintos. E os caminhos percorridos
São mais fome e sede aos nossos conflitos.

 

Somos sempre os mesmos, desde meninos,
Eu e meus sapatos somos assim:
Todos passos seus em busca de mim.

 

 

 

 

 

 

CORDEL DE JANUÁRIO GARCIA

 

A conta de mentiroso
Sempre tem número sete
Mas ouvi do avô idoso
E muita gente repete
Uma história de sangria
Do Januário Garcia...

 

Foi lá no tempo do Rei
D. João VI bonachão
Ele via a sua Lei
Sendo arrastada ao chão
Pois numa serra mineira
Tinha macabra fieira...

 

Sete orelhas enfiadas
Num cordão impressionante
Todas elas decepadas
Pelo facão mais cortante
Criminoso desumano
Em vingança de seu mano...

 

Foi em São Bento do Abade
No sul de Minas Gerais
Um fazendeiro covarde
Matou um pobre rapaz
Com ajuda de mais seis
Barbaridade ele fez...

 

Era irmão do Januário
Morto, sem pele, no tronco,
Sofreu o maior calvário,
Pode haver crime mais bronco?
E seus sete matadores
Semearam mil horrores...

 

Um a um foi perseguido
Por Januário Garcia
Que, com fama de bandido,
Espalhou sua valentia
Sua lei do talião
Contra a lei de D.João...

 

Nas serras da Ventania
Onde muge a triste vaca
O Januário Garcia
Afiava sua faca
Mel vingativo de abelhas
Pra cortar as sete orelhas...

 

Durante mais de dez anos
Durou aquela caçada
As orelhas dos fulanos
Uma a uma era enfiada
Na fieira mais famosa
Nessa terra alterosa...

 

Ao faltar o derradeiro
Pro Januário se vingar
Ele topou com um tropeiro
Que dispôs a lhe ajudar
Causo que ele sofria
De uma espécie de embolia...

 

Januário foi levado
Pra fazenda hospedeira
Ali ele foi tratado
Com a cortesia mineira
E na hora de partir
É que foi descobrir...

 

O seu bom anfitrião
Era um dos assassinos
Como fazer judiação
Perto de muitos meninos?
Foi uma noite de agonia
Pro Januário Garcia...

 

Mas de manhã, decidiu
Revelar sua identidade
O fazendeiro mal viu
A fieira da ruindade
Saiu correndo pro pasto
Bala certeira em seu rasto...

 

Sete orelhas no cordão
Cumpriu aquela vingança
Não houve voz de prisão
Que calasse aquela herança
Mas a sina traiçoeira
Ia abrir sua porteira...

 

Um cavalo enfurecido
Acertou o Januário
Uma patada no ouvido
Reza o seu obituário
A ironia da morte
Faca cega em seu corte...

 

 

Caio Junqueira Maciel, mineiro de Cruzília, professor de literatura aposentado, poeta, escritor. Lança em setembro o livro Pele de Jabuticaba, poemas a partir de um fato histórico sobre uma revolta de escravos em 1833, em Minas Gerais.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2019


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PAUL GAUGUIN, 'La sieste' (1892-1894)


Paginação:

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