ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Eloésio Paulo


Resenha: PEQUENO GUIA DO ROMANCE BRASILEIRO: Grande sertão: veredas e A viuvinha    

Incomparável, obra de João Guimarães Rosa é o maior romance brasileiro

 

         O metro para medir Grande sertão: veredas (1956) está além da literatura brasileira. Nem é viável comparar a obra-prima de Guimarães Rosa com qualquer outro livro publicado em português, à exceção de Os lusíadas (1572). A ambição do romance é desmedida, assim como a capacidade do autor de fazer-se jus. Mede-se o Grande sertão é pela Ilíada, pelo Ulysses de James Joyce.

 

         O que o romance tem de especial é a amplitude do tempo e do espaço, replicada e traduzida na amplitude da experimentação de linguagem do narrador, o ex-jagunço Riobaldo, apelidado Tatarana. O sertão é o mundo, diz ele: o espaço geográfico situado entre o centro de Minas e as divisas com Goiás e a Bahia se torna, por meio do andamento da narrativa e da diversidade de personagens e destinos que a ela comparecem, um universo capaz de conter o sumo da experiência humana. “Viver é muito perigoso”, repete Riobaldo umas tantas vezes, e nem um pouco por acaso.

 

         O narrador fala a um ouvinte que só sabemos ser homem da cidade. Com sua caderneta para anotações, este deve ser um alter ego do escritor, cujas expedições pelo sertão mineiro – a fim de documentar o ambiente retratado em sua ficção – foram, antes de mais nada, o meio de construir uma base realista para a imaginação galopante, que por vezes bate nas divisas do fantástico e do metafísico. Caso do problema existencial que perturba Riobaldo desde o princípio até fim de seu relato: ele teria ou não feito um acordo com o Diabo para poder derrotar o pactário Hermógenes?

 

         Sabedor de que a vida é “cheia de passagens emendadas”, Rosa estruturou a narrativa de modo a reproduzir os negaceios da memória e as falhas da própria capacidade de alguém se compreender e entender o sucedido. O relato vem e vai, meio labirinticamente, ao sabor do que Riobaldo lembra das escaramuças entre seu bando de jagunços, inicialmente chefiado por Joca Ramiro, e as tropas legais, depois entre os fieis ao chefe assassinado e os que seguiram os “judas” Ricardão e Hermógenes. A outra angústia de Riobaldo: a consciência crescente de seu amor pelo companheiro Reinaldo – Diadorim, apelido secreto que anuncia a revelação final e tardia: na  verdade, era uma moça travestida de jagunço.

 

         Qualquer resumo de uma obra tão intensa será pífio. Ler Grande sertão: veredas não é só conhecer o maior romance da língua portuguesa; é ter uma experiência transformadora – da consciência de si mesmo e das possibilidades de investigar a condição humana por meio do português brasileiro – que nem adianta perseguir por outros caminhos. Livros desse quilate existem, em qualquer cultura, pouquíssimos.

 

 

 

 

A VIUVINHA

 

Bom lugar para se estudar os rudimentos da forma narrativa

 

A fórmula é a do folhetim, com suas surpresas óbvias salpicando o enredo. Mas o escritor José de Alencar ainda não tinha desenvolvido aquela sua invencível prolixidade. Por isso A viuvinha (1857), publicado no mesmo ano que O guarani, está mais para as dimensões e o andamento de Cinco minutos (1856), conquanto lhe seja ainda inferior.

 

O narrador é o mesmo daquele livro inicial de Alencar. A destinatária também é sua prima, a quem ele escreve mais uma longa carta, desta vez contando a história de Jorge e Carolina. O enredo poderia até ser surpreendente, se o escritor dispusesse da retórica necessária e soubesse dosar o tempo narrativo de modo a não precipitar os fatos. Mas o livro vai mesmo aos atropelos, tanto que entre o final do capítulo 9º e o início do 10º se passam subitamente cinco anos, assim como da passagem de outro ano se dá conta em apenas uma linha do XV.

 

O drama desse casalzinho lembra o teatro mais rudimentar, quase circense, pela rapidez da ação e pela proporção relativa dos diálogos. Às vezes a conversa entre as personagens é quase um jogral. Isso não impede que o leitor encontre um esboço de ironia, por assim dizer, pré-machadiana, na conversa do Sr. Almeida, uma espécie de anjo da guarda do protagonista, com um militar reformado: o reumatismo de um e a ferida do outro “se achavam perfeitamente de acordo”, diz o narrador, na opinião de que era necessário eliminar os morros do Rio de Janeiro.

 

Como essa passagem é absolutamente uma exceção, predominando nas falas do narrador e das personagens os mais surrados estereótipos do Romantismo, vamos ao enredo, que consiste no seguinte.

 

Jorge é um rico herdeiro que, depois de levar vida boêmia e perdulária, se apaixona pela adolescente Carolina e resolve mudar de vida. Na véspera do casamento de ambos, o Sr. Almeida – responsável pelos negócios de Jorge – comunica ao noivo que este estava pobre e arruinara o nome de seu pai deixando de pagar-lhe as dívidas. O moço se casa, narcotiza a noiva na noite de núpcias e resolve se matar, sendo disso impedido pelo Sr. Almeida. A conselho deste, forja um suicídio e viaja para os Estados Unidos, onde reúne o capital necessário para voltar ao Brasil como negociante. Em seu retorno, adota identidade falsa e, depois de resgatar todas promissórias, apresenta-se à viuvinha virgem na forma de um misterioso vulto por quem ela se apaixona. Depois de um parco suspense, os jovens se reconhecem, e finalmente o casamento, como se dizia outrora, “consuma-se”. Pronto, felizes para sempre.

 

Horrível, não? Isso é tudo.

 

 

ELOÉSIO PAULO (1965). Brasileiro, é professor universitário e escritor. Além de oito livros de poemas e textos esparsos por inúmeras publicações, publicou os seguintes livros de ensaios sobre literatura: 'Teatro às escuras - uma introdução ao romance de Uilcon Pereira' (1998), 'Os 10 pecados de Paulo Coelho' (2008) e 'Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970' (2014).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Setembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Atanasius Prius, Bruno Flores, Caio Junqueira Maciel, Carmen Rosa Orozco, Conselho Editorial, Eloésio Paulo, Gilda Nunes Barata, Gonçalo B. de Sousa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Bateira, Jorge Vicente, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Luiz Roberto Guedes, Marco Aurélio de Souza, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Suely Bispo, Thássio Ferreira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'La sieste' (1892-1894)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR