ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


O que dizem os olhos    

Oh, sim! Os olhos dizem muito.  Revelam e disfarçam, mentem e ferem. “Os olhos são o espelho (ou a janela) da alma”, está escrito na bíblia. Mas quem primeiro disse ou escreveu? O livro rascunhado por tantas mãos registra a autoria para Mateus, Lucas e Isaías. Quem mais? Bem antes, os antigos egípcios riscaram na areia do tempo uma frase semelhante. Mas há quem credite a pensata a Leonardo da Vinci, com ligeiro acréscimo. “Os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo” disse o gênio.

 

Hoje os cientistas garantem que as emoções expressadas pelos olhos dizem muito. Refletem o que há no físico e nos sentimentos, males e saúde. Olhos amarelos podem refletir o efeito do cansaço, irritação provocada pelo ar seco ou poeira, mas a duração é de um ou dois dias. Infelizmente também indicam doenças graves, entre elas infecção do fígado, icterícia, hepatite, cirrose e até a pior de todas elas, o câncer. E a vermelhidão onde deveria ser branco imaculado? Simples insônia, bebedeira ou drogas mais pesadas? Mas como essa não é uma crônica médica deixo o diagnóstico para os doutores da sabedoria.

 

A frase, se na origem foi bem urdida, com o uso e abuso dos literatos sem inspiração caíram na vala comum dos clichês. Se escorar em frase feita é muleta para quem tropeça na criatividade. E surgem ditos extraídos do embornal da invencionice. Um deles: olhos verdes são desafiantes, escuros um enigma, azuis um sossego. Bestagens da literatice.

 

 E o que nos exibem os olhos nas telas do cinema? Quem aprecia filmes de faroeste há de se lembrar do duelo final entre os personagens vividos por Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef no filme The good, the bad and the ugly, aqui traduzido para Três homens em conflito. Eli Wallach é o mau, com o olhar astuto da raposa, Lee Van Cleef é o feio, olhos argutos de serpente, armada para o bote fatal e o bom, o mocinho que nem chega a tanto, estando mais para um anti-herói, é encarnado por Clint Eastwood, com visão confiante na ligeireza e aprumo na pontaria. O embate de olhares é tenso, longo, o auge de uma busca incessante a um tesouro roubado por alguns soldados desertores do exército confederado; e escondido em um cemitério, durante a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, na época desunidos.

 

 E os olhos de Carmem Miranda, a portuguesa que se tornou brasileira com a fantasia de falsa baiana? Eram buliçosos, dançantes, piruetando sempre, parecendo trombar nos cílios durante o canto de muitos rebolados. Os modelos – dizem que imaginados por ela – exibiam parte da barriga sem cintura fina, o que não era comum na moda da época. E a Goldie Hawn? A lourinha de muitas comédias e poucos dramas sempre aparecia de olhos arregalados, como se eles fossem um ser à parte. Expressão de eterno espanto, o que pode lhe ter tirado o brilho da carreira.

 

 Pior: o olhar mortiço de Sylvester Stallone, como se fosse um peixe exposto em banca de mercado.

 

 Ah, meus chegados, se é para destacar olhos inevitável citação se deve fazer a Lauren Bacall, a feiticeira com olhos de gata no cio. E a voz rouca, como se ronronasse chamamentos para o pecado?

 

E os olhos na música? “Teus olhos/São duas contas pequeninas/Qual duas pedras preciosas/Que brilham mais que o luar...

 

Os versos de Toquinho, cantados por Cláudia Telles ou Tito Madi fizeram sonhar quem amou em décadas do esquecimento. Contemporânea de Duas Contas, há o fado do português Francisco José, que se tornou tema e enredo de filme com mesmo nome. Em Olhos Castanhos se fala do significado das cores em cada olhar. Olhos azuis são ciúme/E nada valem para mim/Olhos negros são queixume/D’uma tristeza sem fim/Olhos verdes são traição/São cruéis como punhais/Olhos bons com coração/Os teus, castanhos leais.

 

E até revelo a pretensão de um boboca mal saído das calças curtas e já desfilando empáfia no Janaúba Esporte Clube, sede de lazer da defunta UDN, grei dos fariseus anteriores ao golpe militar de 1964, quando tudo se tornou a ARENA dos oportunistas e medrosos. Em uma noite qualquer apareceu no salão uma mocinha, parente dos Azevedo, que veio conhecer a cidade, então com pouco mais de cinco mil viventes. Pois a menina, em movimento mal calculado, tropeçou em uma cadeira no meio do caminho – certamente sem querer vivenciar o escrito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade – caiu e torceu o tornozelo.

 

 Sem graça e com dor, a ela acudiram duas amigas e um cavaleiro desmontado, já de olho em possível conquista. A guria foi sentada em outra que não a cadeira culpada e só não chorou porque a vaidade é própria das mulheres, por mais jovens que sejam. Ela, sofrendo e sem graça, alisava o mocotó dolorido e buscava com um olhar a solidariedade dos que a rodeavam. Encontrou os olhos castanhos do frangote que se inspirou no ator Rock Hudson em momento de ternura em um dos muitos filmes que protagonizou. Ele, o adolescente de topete à base de creme Glostora, esboçou o que imaginou ser um semblante de ternura, comum em tantas cenas amorosas do ator, que na época escondia o segredo, mas depois se soube que nem apreciava as moças e sim os moços. Nada contra, a opção hoje é entendida e respeitada, menos pelos brucutus do mando atual.

 

 Imaginem a cena: a mocinha fragilizada pela dor, o mocinho em pose de encanto e ela, simplesmente, mostrou a língua em sinal de revolta. Ou deboche, quem é que sabe? Não houve happy end como fantasiado pelos filmes hollywoodianos e sim uma tremenda decepção. Dele, não dela, que em minutos se esqueceu das dores e nele nem sequer reparou.

 

Bem feito, quem mandou dar o bote errado?

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates

é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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