ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Jorge Vicente


A alma de um contista    

Segundo a nota biográfica retirada do site da revista cultural portuguesa Incomunidade, o escritor brasileiro Hermínio Prates é jornalista e ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação, escrevendo contos, crónicas e vários artigos para jornais mineiros. Essa informação, embora não suficiente, explica muita da extraordinária capacidade para Hermínio Prates captar a alma brasileira, alma essa que se pode manifestar no jovem delegado que inicia a sua actividade numa cidade do interior; ou nas esperanças de um jovem aspirante a jogador de futebol que vê a sua ainda incipiente carreira destruída pela inveja dos colegas; ou ainda nos sonhos de um jovem trapezista que almeja o sucesso, mas que alcança apenas a miséria do esquecimento. Disse que a informação sobre Prates não é suficiente na medida em que a sua maravilhosa arte de contar histórias, herdada dos anos de jornalismo, não explica a sua ainda mais notável capacidade para captar a alma brasileira de uma forma extremamente comovente. De facto, os seus contos mergulham nesse fundo e com tristeza, ironia, humor, alegria e, muitas vezes, dureza apresentam perante os nossos olhos de leitores, essa realidade e também essa magia do povo brasileiro.

 

Nos primeiros dois contos (“A amante de Drummond” e “A solidão do poeta”), a presença de um dos maiores poetas brasileiros do século XX: Carlos Drummond de Andrade, natural da cidade mineira de Itabira1. Se, no primeiro conto, o ambiente amoroso dá o mote para reflexões literárias interessantíssimas sobre a disputa entre Drummond e Manuel Bandeira, no segundo o próprio Drummond é personagem central (“O homem, o poeta maior, está sentado em um banco na praia de Copacabana”).

 

Já o terceiro conto inaugura esse mergulho na interioridade mineira, mas também a deslocação para seres não-humanos como personagens principais. Em “Bois, mulheres e brigas”, é o cavalo Trovão que narra a história de Bira, primeiro neto de fazendeiro, amante das delícias femininas e com “físico de derrubador de boi, sem medo de nada”.

 

Esse mergulho assume um tom quase sobrenatural e memorialístico em “Cemitério de lembranças”, conto em que se evocam as memórias de Ezequiel Medeiros da Silva, jagunço do coronel Lorico. É um dos melhores contos do livro e evoca muita da mitologia da interioridade brasileira que nós, portugueses, bem conhecemos da Literatura e da televisão.

 

No conto seguinte, “Comício na poeira das ilusões”, destaca-se o confronto entre a vida do interior e as ilusões da vida urbana que, contra todas as expectativas, não garantem os sonhos de felicidade e de riqueza2 que tantos desses habitantes do interior esperam alcançar: “no tranco, que nem carro velho, aprendi que cidade grande é um abismo. Quem vai pra lá, sem ofício, parentes ou pelo menos um amigo, é um condenado sem culpa”. No entanto, também a vida na cidade pequena é uma triste ilusão: a falta de água3, as promessas secas da política e a pobreza crónica relegam a vida dessas terras e dessas gentes ao esquecimento. Salva-se, porém, aquela sanfona que nos dias de festa ajuda a esquecer as tristezas.

 

No conto “Asa partida”, o jovem baianinho, “filho de uns baianos arranchados lá perto da estação de trem” e com uma capacidade imensa para os chutos de bola, é o triste exemplo de que não basta sonhar e ter talento, mas também ser aceite pelos seus.

 

Muitos outros contos merecem destaque: “O trapezista” (uma maravilhosa incursão no mundo do circo), “Três peixes e uma cascavel” (um dos melhores contos do livro, numa história deliciosa de duas pescarias no mítico e mitológico Rio São Francisco), “Sambas, amores e dores” (uma incursão pelo universo das escolas de samba), “A cor das blusas”, “Sal dos olhos, sal da brisa”, “Feitiço dos olhos verdes” e “O filme do mocinho Badu” (as ilusões do amor e da dureza da vida quotidiana), “As traições de Helena” (numa deliciosa incursão pelo universo do jornalismo e da política), “Não confie nas curvas” (sobre o universo dos camionistas e da prostituição), e “Senhores do atraso e a viúva” (talvez o melhor conto do livro, onde são perpassados temas centrais da política brasileira como a impunidade dos corruptos, o crime organizado e a luta inglória e justa dos Trabalhadores Sem Terra, cujo maior pecado consiste em desejar ter um quinhão de terra que possa lavrar e cuidar, sonho esse destruído pela sanha assassina dos donos da terra e do latifúndio4). E tantos outros contos deliciosos que fazem deste livro de Hermínio Prates uma imensa lição de humanidade e bem escrever.

 

Jorge Vicente

 

Notas

 

1 Curiosidade: o próprio Hermínio Prates escreve para o Trem Itabirano.

2 Será riqueza ou será apenas algo mais consistente do que a sobrevivência?

3 Outro sofrido, mas esperançoso, o mais surrado dos três lutava contra a falta d’água no pedacinho de terra herdado dos avós e pais”.

4 A luta do Movimento sem Terra (MST), embora com alguns pontos discordantes, assemelha-se em muito com o movimento pela Reforma Agrária no Alentejo, Portugal.

 

 

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros publicados, sendo o último cavalo que passa devagar (voltad’mar: 2018).
Contacto: jorgevicente.seacarrier@gmail.com

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Setembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Atanasius Prius, Bruno Flores, Caio Junqueira Maciel, Carmen Rosa Orozco, Conselho Editorial, Eloésio Paulo, Gilda Nunes Barata, Gonçalo B. de Sousa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Bateira, Jorge Vicente, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Luiz Roberto Guedes, Marco Aurélio de Souza, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Suely Bispo, Thássio Ferreira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'La sieste' (1892-1894)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR