ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Krishnamurti Goés dos Anjos


Djami Sezostre: um poeta alquimista    

Reza a lenda que a Alquimia foi uma prática a que os homens se dedicaram na noite dos tempos – uns 300 anos antes de Cristo -, a combinar os mais variados elementos com quatro objetivos principais. Um deles seria a "transmutação" dos metais inferiores em ouro; o outro a obtenção do "Elixir da Longa Vida", um remédio que curaria todas as doenças, até a pior de todas (a morte), e daria vida longa àqueles que o ingerissem. Esses objetivos poderiam ser conseguidos ao obter a Pedra Filosofal, uma substância mística. O terceiro objetivo seria criar vida humana artificial, os homunculus. O quarto objetivo era fazer com que a realeza conseguisse enriquecer mais rapidamente (tinha que ter sacanagem no meio). Reza a lenda ainda, que esse desespero do conhecimento humano gerou bons frutos porque contribuiu para que fossem desenvolvidos muitos dos procedimentos e saberes que mais tarde foram utilizados pela ciência e etc. e tal.

 

Que coisa! O livro “Óbvio oblongo” (Laranja Original/2019) do senhor Djami Sezostre nos faz lembrar vagamente da alquimia num sentido metafórico de experimentação. E bem sucedida por sinal, porque o que o leitor tem pela frente é um “eu” lírico que parte e transcende, de uma cosmovisão própria em permanente movimento espiral, em ritmos e sons, em sentidos e sentimentos, ou seja uma seqüência ao mesmo tempo musical, semântica e emotiva. Por outras palavras, o mundo interior do poeta aflora do ritmo nascido da conjugação de movimentos desencontrados, mas que formam em seu conjunto uma unidade a desvelar o reino infinito do espírito humano em seu desenvolvimento existencial. E neste movimento, transborda para um lirismo universalista, aquele que verdadeiramente importa ao homem e à Literatura perquirir em toda parte e em todos os tempos.

 

Sezostre é autor muito conhecido no atual cenário cultural. É criador da Poesia Biossonora e da Ecoperformance, onde explora a língua em sua metamorfose, através de um diálogo com a miscigenagem e a sua relação com a natureza e os seres humanos. Autor também de duas dezenas de obras publicadas e nesta última (assim nos pareceu), opta por presentear o leitor com uma espécie de retrospectiva existencial, coisa que o leitor poderá notar ante os belos poemas que transcrevemos. A começar por aquele que traz em seu título a idealização de James Hilton, em “Lost Horizon” (“Horizonte Perdido”) de 1933. Um lugar paradisíaco situado nas montanhas dos Himalaias, sede de panoramas maravilhosos e onde o tempo parece deter-se em ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre os homens.  Poema “Xangrilá”. Observe-se a sublimação entre o ideal e a realidade.

 

“E quanto mais eu crescia / Mais eu achava que era / Esquisito tão esquisito / Que eu achava esquisito / Quem não era esquisito // Um dia achei melhor / Virar um animal e par /  tir como um inseto par / a a floresta dos sonhos”.

 

O Poeta e ensaísta piauiense Rubervam Du Nascimento em texto de Prefácio escreve com muita propriedade sobre a poética de Djami, afirmando que é de uma radicalidade criativa, e “eficazmente utilizada como estratégia de fortalecimento do espírito da voz da palavra, em transe, em transito para a transcendência poética; poesia para acompanhar a inquietação de sua voz, a desordem de sua palavra.” Em suma; uma poética “que pede passagem a diversos significados, abre caminho a outros sentidos”. Veja-se nos poemas “Ogume”  e “A chuva”, os desdobramentos de experiências que envolvem sexualidade, a família, o amor e o sentido que se deu/dá à própria vida:
Poema “Ogume”.
“Eu pequei Senhor e peço perdão / Eu peço perdão porque pensei / Que ela tinha uma forquilha nas pernas / Eu peço perdão porque pensei / Que ele tinha uma forquilha nas pernas // Uma forquilha para beijar a natureza / E achar que eu sou ela a natureza como / Ela a natureza seria por exemplo // O sangue de São Sebastião, ogumeogumeogume”.

 

Poema “A chuva”.

 

O meu pai veio uma vez de longe / Apenas para me ver e ele falou // Que eu tinha que plantar // A minha mãe veio uma vez de longe / Apenas para me ver e ela falou // Que eu tinha que plantar // Eu então passei a plantar / Eu então passei a plantar // E plantei/ E plantei”.

 

E o plantio que o Poeta fez em seu interior foi, e continua sendo, no sentido de exercitar o seu processo genético de linguagem. Sezostre é positivamente um inconformado com as limitações expressivas das palavras. Desafia abertamente a ordem e a semântica. Recria seu próprio silabário, vocabulário, fremente e instável, aventurando-se num mergulho até aos embriões da linguagem.

 

Poema “O plantio”.

 

“Eu, o plantador de gente, / Plantei o menino na cova / E deixei ele lá na cova, plantado / Alado para dentro da terra // Eu, o plantador de gente, / Plantei a menina na cova / E deixei ela lá na cova, plantada / Alada para dentro da terra // Se eu, o plantador de gente, / Vivia de plantar gente, / Achei que devia plantar // Também os sonhos / E esperar pela noite / Para, então, dormir // E acordar pela manhã / Para regar o plantio — // A morte essa carpideira”

 

Poema “Jegue”.

 

“O povo era prascóvio / E quem não era prascóvio / Era também prascóvio // O gado era prascóvio / E quequem não era prascóvio / Era simtambém prascóvio // O povo como gado / O gado como povo // Gente como bicho / Bicho como gente // O menino vivia alado / Como se ele fosse // O filho eterno // Prascóvio como jegue O jegue um mormaço”

 

Poema “Estilingue”.

 

“Tirei, então, o meu coração / Lá de dentro da sua casa // Tirei, então, o meu coração / Para viver em paz sem ele // O meu coração que gemia / Como um passarinho, de // Repente, rasgado de pedras.”

 

O escritor concilia poesia experimental com poesia comprometida com a nacionalidade brasileira, de que é exemplo o poema “oL”, incluído na série de poemas “Currutela”. Quanto à esses poemas, vale acrescentar que em vários deles, vemos desfilar conteúdos do imaginário brasileiro sintetizados em linguagem experimental o que acaba por gerar novas apropriações  de sentido, iluminando outras possíveis visões. Sob este aspecto, seu texto é pura ousadia de formas quebradas e convoca o leitor de percepção mais privilegiada a juntar fragmentos, cogitar possibilidades múltiplas de significações.

 

Poema “yb”.

 

“O menino dormiu com a noite e sonhou com a noite / A noite deu um beijo no menino e achou que ele / O menino mio não era mais o menino mio // O menino miou e voltou a miar// A noite de repente virou uma estrela / E o menino começou a transar com a noite / Como se ele tivesse uma constelação de girassóis // A noite amanheceu e miou miou miou River Guarani”.

 

Poema “Clepsidra”.

 

“Eu andei por onde eu andei / E andei como anda um mineral / E cavei a terra para ser, então, / Não um ser humano, mas / Uma risca de mineral no coração // Eu andei por onde eu andei / E andei como anda um vegetal / E cavei a terra para ser, então, / Não um ser humano, mas / Uma risca de vegetal no coração // Eu andei por onde eu andei / E andei como anda um animal / E cavei a terra para ser, então, / Não um ser humano, mas / Uma risca de animal no coração // Para ser, então, um ser humano / E entrar para o ventre, água / Clepsidrar-me Clepsidra”.

 

Com efeito, observamos nessa obra o poeta alquimista Djami Sezostre elaborando seu universo poético como um mago do vocábulo, engendrando intensas e colossais orgias lingüísticas –  incluindo aí, o “eu” e o “você”, que somos a natureza mesma do cosmos – intentando romper limites, visualizar o caráter essencialmente contínuo entre seres vivos e espíritos, entre homens e mulheres, deuses, bichos, plantas e coisas. O alquimista poeta nos fala da fusão visceral entre palavra e mundo. Aí a pedra filosofal que a humanidade ainda não descobriu.

 

Livro: “Óbvio oblongo”, de Djami Sezostre, Editora Laranja Original, São Paulo/SP, 2019, 164 p.

 

ISBN 978-85-92875-58-9

 

Link para compra: https://www.laranjaoriginal.com.br/product-page/%C3%B3bvio-oblongo

 

 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador, e Crítico literário. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contosDoze Contos & meio Poema. Tem participação em 27 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional -  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações, dentre os quais: Literatura BR, Homo Literatus, Mallarmargens, Diversos Afins, Jornal RelevO ,Revista Subversa, Germina Revista de Literatura e Arte, Suplemento Correio das Artes, São Paulo Review, Revista InComunidade de Portugal, Revista Laranja Original, Revista Penalux e Revista Fórum. ////

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