ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Caminhos Crônicos    

Às vezes me bate um cansaço da vida, sensação de estar muito tempo por aqui e não mais encontrar graça nas coisas. Poderia ser angústia, tristeza, agonia, deem ao sentimento o nome preferido. Chego a olhar a janela, imagino meu corpo caindo do oitavo andar. Seria um voo breve antes do baque fatal. Talvez a experiência inusitada, louca, sem propósito, pudesse trazer algum alento. Quem sabe naquele átimo temporal, fração de segundo em que a certeza do fim inexorável é única, vivesse momento mais intenso. Susto sem volta. Mas nem para isso sirvo, jamais conseguiria colocar um ponto final em minha própria história, sei apenas terminar textos e olhe lá. Contudo, a vista aqui das alturas atrai-me. Um vento, arrepio, pancada, rasgo de dor final. Mais nada. Silêncio. O calar imediato de problemas sem solução.

 

Mas não é desse caminho de poucos metros, aquele que poderia me levar de nenhum lugar para lugar algum meu interesse. Falo dos sítios por onde ando. Refiro-me à cidade. São Paulo. Posto de observação.

 

Quando afirmo serem meus caminhos crônicos, desejo falar do cotidiano. Os passos dados por ruas repetidas transformam o caminhar em idas e vindas quase iguais. Mas existe enorme percurso em tal quase.  Nunca as mesmas árvores, esquinas, vizinhos, calçadas. Embora estejam lá diariamente, eu os vejo com cores, tonalidades e feitios diferentes. Carrego humores diversos ao refazer os deslocamentos. Não sou o mesmo andarilho, suporto pesos distintos.

 

Ontem choveu. E eu tinha mesmo dentro de mim um temporal armado. Os pingos aparados pelo grande e incômodo guarda-chuva, pareciam cair não do céu, mas saltarem dos meus olhos. Apesar de não estar chorando explicitamente, pois a tristeza me vinha sem o manifestar de soluços e assoares de nariz, estando eu livre daquela coisa pegajosa e grudenta do desespero, parecia de fato verter gotas de lamúria. Não, nunca! Apenas caminhava triste, cabisbaixo, sentindo o universo debulhando-se em precipitação aquosa sobre mim. E ao necessitar seguir em passos rápidos para escapar da tempestade, perdi a paisagem, acontecimentos, a vida deixou de mostrar-se com a força capaz de me comover. Ninguém, apenas o entorno mudo.        

 

Hoje é diferente. Talvez a claridade do final de outono, atmosfera fresca e sem nuvens obstruindo o azul do céu, tenha sido competente o suficiente para transformar-me. Sigo bem-disposto para o metrô, repito a jornada diária com novo estado de espírito. Gosto de ouvir as palavras que me chegam de conversas estacionadas na esquina. Muitos apreciam trocar experiências no passeio, todo mundo precisa de ouvidos atentos vez ou outra. Às vezes paro, insinuo-me naquela troca de ideias, engrosso o coro de vozes dos indivíduos propensos a combaterem a solidão por meio de assuntos pouco importantes, ninguém se abre de fato nessas horas. Os temas são de fácil digestão: críticas políticas, resultados de jogos, trânsito, algum desastre. De preferência desastres, o povo ama catástrofes. Há nas devastações oportunidade de nos sentirmos vitoriosos: escapamos daquela incólumes. A vida não é feita somente de azares.

 

Amanhã não sei. Repetirei o trajeto, afinal meu deslocamento é crônico. E apesar da palavra nos lembrar doença, muitos males são crônicos, refiro-me aqui ao tempo, longa duração, já que percorro todos os dias a mesma rota. Ela me entrega à condução. Como um paciente com doença crônica, submeto-me passivamente ao destino de no mesmo horário sair de casa e seguir, continuar seguindo, sempre. Caminhos crônicos como a existência. Viver é um dia depois do outro, e mais outro, e talvez a gente acabe se esquecendo da verdade. Assim observou Rosa na terceira margem do rio: estamos em um barco a subir e descer, no meio do mundo, entre duas margens, sem muito objetivo, propósito ou razão.

 

E volto a olhar para a janela atraído.

Jun/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU. Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade. Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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