ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Suely Bispo


Poemas    

CHORO  


Não choro de tristeza
Somente essa vontade
De desaguar em ti
Mais um poema...

 

(Lágrima fora do lugar, 2016)

 

 

 

 

 

 

PALAVRAS E POETAS

 

De olhar triste
De quem viu o mundo
E suas lágrimas
Também chorou
Palavras sobre o papel.
Palavra é água
Pode também ser fogo
Palavras ao vento
Vagueiam pelo tempo
Do sono ao nada
Do nada ao mar e do mar
Ao ser...
As palavras
Descansam por um tempo
No silêncio adormecidas
Sonham poemas...

 

(Lágrima fora do lugar, 2016)

 

 

 

 

 

 

NOVEMBRAL

 

O céu sempre molha a terra
E suas lápides sepulcrais
Em novembro.
Quando os filhos da terra
Lembram seus mortos
Os espíritos banham-se
De novembral alegria.
Chora a terra
A alegria ancestral
Em novembro.
Benditas lágrimas
Do céu...

 

(Lágrima fora do lugar. Vitória: COUSA, 2016).

 

 

 

 

 

 

LUNÁTICOS - SONHANDO COM JOHN DONNE

 

A complexidade do poema
Não se pode apreender
O todo impenetrável
Como aquela mulher
Surpreendente e indecifrável
Em parte a sua fragilidade
Em outra imprevisível...
 Complexa mulher
De sonho profundo
De um amor que separa
A vida da morte
O homem da mulher.
Enquanto sem sono
Ele sonha em vencer
Se transformando nela:
Sonho de lunático falso.

 

(Lágrima fora do lugar. Vitória: COUSA, 2016).

 

 

 

 

 

 

DESEJO

 

Tremores corporais
Na mais tenra manhã
Dominical.
Ai, a saudade
Faz chorar ausência
Do seu corpo
Agora em mim,
No instante
Da agonia do prazer.
A umidade
Da casa cavernal
Dentre as pernas...
O desejo
(Lágrima fora do lugar. Vitória: COUSA, 2016).

 

 

 

 

 

 

INSÔNIA


Procurava algo leve
Tão leve como a neve
Mas não tão fria...
Desde então,
Buscava uma comprovação
Física do amor
Mínima que fosse
Como um pequenino doce
A aplacar esse fogo
Que me habita o ventre.
Na madrugada que se estende
E não é quente nem fria...
Acorda amor
Do seu sono profundo
E eu a tentar
Te acordar por telepatia.
Acorda logo amor
 E vamos amar
Antes do raiar do dia.
Ai! Como eu queria te acordar por telepatia...
(Lágrima fora do lugar. Vitória: COUSA, 2016).

 

 

 

 

 

 

FOGUEIRA

 

Venha se incendiar
Na torre do céu...
Você que despertou
O fogo quase adormecido
No esquecimento do tempo
Que passava vagarosamente
Na solidão.

 

(Lágrima fora do lugar. Vitória: COUSA, 2016).

 

 

 

 

 

 

Entrelinhas

 

Quando dois poetas
Se encontram
Um leve clima
Surge no ar
Enlevo.

 

Seja o poeta do meu corpo
Leia-me com seus lábios
E mãos.
Siga-me
com seus olhos tímidos
e desejantes
Sedução.

 

O selo sutil 
discreto prenuncia
O desejo voraz do beijo
Tão esperado
Nas entrelinhas.
Tesão.

 

Além do corpo a  alma.
Dois poetas quando
Se encontram tomara
Juntos possam escrever
um lindo poema de amor.
Paixão.

 

(–inédito)

 

 

 

 

 

 

CORPOS ASSINALADOS

 

 Já houve o tempo
Do ferro em brasa
Que marcava a propriedade 
Arbitrária dos senhores,
Nos corpos negros.
Agora vivemos “tempos brancos”
Com a marca  da magreza
Quase esquálida das modelos.
Profusão de corpos
Em fotos, blogs, flogs e TVS
No império da ditadura
Das imagens das modelos
Magras, muito magras, magérrimas.
Corpos, corpos, corpos....
Jovens, velhos, 
Magros, gordos,
Gordinhas “renoirianas”,
Ou morbidamente gordos.
Héteros, gays, lésbicas 
Bissexuais, transexuais ou assexuados
Todos passam efêmeros
Na fluidez eterna do tempo.  

 

(Desnudalmas. Vitória:GSA, 2009.)

 

 

A atriz e poeta Suely Bispo é formada em História e Mestre em Estudos Literários pela UFES. Com mais de vinte anos de carreira no Teatro e no Cinema, em 2016 chegou à TV interpretando Doninha, na novela Velho Chico, na Rede Globo.
No mestrado realizou o primeiro trabalho acadêmico sobre o poeta Solano Trindade no Espírito Santo. Tem diversos trabalhos publicados na área de História e Literatura. Em 2009 publicou seu primeiro livro de poemas Desnudalmas, pela GSA, e em 2016, Lágrima fora do lugar, pela editora Cousa.
Participa também do Sarau Afro-tons, em Vitória, e do Coletivo Louva Deusas, de produção de textos e desenhos eróticos de mulheres negras, que em 2015 publicou a coletânea Além dos Quartos, em São Paulo. Foi coordenadora do Museu Capixaba do Negro (MUCANE), no período da sua reinauguração em 2012. É autora também do livro Resistência negra na Grande Vitória: dos quilombos ao movimento negro, que terá lançamento em breve, da sua segunda edição.
Seja na História, nas Artes Cênicas ou na Literatura, seus trabalhos geralmente se relacionam com a valorização da cultura negra, cidadania e ecologia.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2019


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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'La sieste' (1892-1894)


Paginação:

Nuno Baptista


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