ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Thássio Ferreira


8 poemas    

Cartas ao pai desde a distância (in Itinerários — Ed. UFPR, 2018)

Primeira carta ao pai


Um homem pastoreia uma cabra
nas montanhas sem fim
de não sei onde.
Os nomes dos lugares
que importam ao poema?
A terra é sempre a terra, pai.
As fronteiras, os costumes,
as palavras
(e toda palavra é intraduzível)
fomos nós que inventamos.
Nós e nossos pais e os pais de nossos pais.
O vento não conhece cercas
e à relva que cresce
pouco importam nossas heranças
e títulos de propriedade.

Tu gostarias de ver o homem e sua cabra, pai
e de me ver subir os montes
deliciado em vento, filho teu feliz.
Sim, pai, feliz, aqui.
E tu, estás feliz?
Espero que estejas.
Descasco laranjas com mãos nuas
e têm o gosto de um beijo da mana.
Quando à noite, o frio vem
e somos os dois um só gemido.
Aqui tudo vai bem, pai
fica em paz.

 

 

 

 

 

 

Segunda carta ao pai


As noites daqui, meu pai
têm consistência palpável:
vive-se dentro de um fruto
com gosto do inexplicável

–- a mim ao menos, perdido
nos desvessos do mundo.

Toda partida é desvesso
desde a beirada da porta.

 

 

 

 

 

 

Terceira carta ao pai


Os dias aqui amanhecem
como plantas que crescem
entre as vielas da cidade velha.

Tudo em tons de terracota.

Andei também por um riacho azul
e uma cidade toda cor lilás.

E teus olhos, pai
que cores têm mirado?

Penso muito em não sei que
meu pai
nesta cidade terracota
nesta saudade terracota.
E tu, pensas em ti?
Tens que pensar em ti, pai.
Fica bem, fica em paz.

 

 

 

 

 

 

Quarta carta ao pai


Aqui há muita espera, pai.
Toda espera é um silêncio de algo
e ainda não aprendi essa muda
língua dura que o tempo fala.
Então, espero.

Espero tanto que tu
estejas bem, pai.

 

 

 

 

 

 

Quinta carta ao pai


Tem sido difícil, meu pai
ouvir os silêncios daqui.
Não sei que me dá.
Não oiço.

E vê que silêncios há:
os terraços
os recantos ornados
a língua que não alcanço
(palavras de arabesco desenhado)
as flores
a noite feito fruto palpável
(eu te falei dela, lembra?)

mas algo em mim
inquieta sem fim.

Então escrevo, pai
para ti
essas cartas daqui
de dentro de onde
não oiço o silêncio
para ver se intento
nos serenizar.

 

 

 

 

 

 

Sexta carta ao pai


Encontrei um rio, pai
chamei-o meu
ele veio
e dei-lhe a comer
de minhas tuas filhas mãos.

Dei ao rio frutos verdes
dos oásis que crescem aqui.
O rio gostou deles, pai
vi o rio sorrir.

Tu, como estás?
Ris aí, pai?

Conta-me de ti.

 

 

 

 

 

 

Poemas inéditos:

 

agora (depois)  
(in Cumprir o amor – inédito)

 

a casa está limpa dos teus sinais.
a playlist de canções tristes
com alguns saltos e muitos repeats
está zerada.
a conta conjunta está extinta
e a do gás voltará ao meu nome
mês que vem.
guardei três ou duas
camisas tuas
para mim
— gosto delas.
nossos retratos e os presentes
que me deste
estão no fundo do fundo
do armário
— alguns eu deitei fora
ou doei, porque doíam
mais ainda depois
que vi os presentes
que te dei e pedi
para levares contigo
jogados atrás do sofá
(farpa a mais na carne
desses dias).
teu travesseiro levaste.
teu riso levaste.
teu desamor também.
agora, só memória.

 

 

 

 

 

 

sem título
(in Cumprir o amor – inédito)

 

em pequenezas
feitas de
(ou desfeitas em)
desmemória
tu retornas:

 

numa letra
de marvin gaye
quando canta:

 

between the two of us guys
you know i loved you more

 

lembro de ti
(and you know i did):

 

tuas pernas compostas
da própria substância
insondável
da palavra suculência

 

teu rosto em gozo
teu dentro em mim
tua voz mesmo feia
(: amei também tua voz
e mesmo que não tenha
amado teus erros:
you know i loved you more)

 

teu sorriso a todos
e teus pés só meus
: que deles ninguém gostava
exceto o mais íntimo(:)
de meu desejo e
minhas incompreeensões:

 

que seguem
(sem ti)
incompreendendo

 

Thássio Ferreira (1982). Escritor radicado no Rio de Janeiro, publicou os livros de poesia (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Tem poemas e contos publicados em revistas (virtuais e impressas) e antologias, como a Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro — poesia tradução & crítica, Gueto, Mallarmargens e Germina. Seu conto “Tetris” foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito “Cartografias”, finalista do Prêmio Sesc 2017. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, a convite da Liga Brasileira de Editoras — LIBRE, e em 2018 e 2019 como realizador e debatedor da Casa Philos.

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Paginação:

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