ANO 6 Edição 84 - Setembro 2019 INÍCIO contactos

Jorge Bateira


Capitalismo e humanidade    

Durante milénios, as sociedades humanas mantiveram sistemas produtivos cujo impacto na biosfera tinha uma escala compatível com os seus mecanismos regeneradores. Porém, com o advento e a expansão do capitalismo, ocorreu uma ruptura Histórica em diferentes domínios. Karl Polanyi, um nome incontornável da Economia Política do século XX, explicou-nos o essencial: ao transformar (em larga medida) o trabalho, a moeda e a natureza em mercadorias, o capitalismo criou um enorme potencial de crescimento económico. A riqueza produzida cresceu exponencialmente, o que permitiu a alguns países alcançar, em poucas décadas, um nível de bem-estar inédito na História. Porém, tal sucesso teve custos que não podem ser ignorados. A exploração dos seres humanos destruiu milhões de vidas, da escravatura às guerras, criou pobreza em larga escala e de ordem estrutural, gerou desigualdades chocantes e lutas de classes que dilaceram sociedades, promoveu guerras locais e empurrou milhões de pessoas para a emigração intercontinental. A criação de moeda pelos bancos, e a sua aplicação em activos para uso especulativo, produziu sucessivas crises financeiras de consequências devastadoras para as sociedades. O crescimento industrial, alimentado pelo consumo de massa – ele mesmo objecto da manipulação pelo marketing –, foi sustentado pela extracção desenfreada de combustíveis fósseis, pela transformação do solo agrícola e da floresta em agro-negócio global, e pela degradação dos solos e da água com a utilização de produtos químicos, para além da acumulação de gases, resíduos tóxicos e produtos não recicláveis.

 

A lógica do lucro comanda o capitalismo e o motor da sua expansão é o continuado crescimento do consumo. Porém, este permanente crescimento económico colide com a finitude dos recursos naturais que até agora o sustentou e, ao mesmo tempo, colide com a capacidade do planeta para absorver os desequilíbrios que lhe são infligidos. Há quem defenda que o capitalismo pode adaptar-se e continuar a crescer, sobretudo através dos serviços, utilizando proporcionalmente menos recursos materiais. Contudo, a investigação mais recente não sustenta esta tese e conclui que o “crescimento verde” é uma ilusão 1.

 

Na realidade, o que temos pela frente é uma trajectória que, se nada de radical for feito, conduzirá ao colapso das condições de vida na Terra. A comunidade científica tem vindo a produzir documentos de alerta sobre a gravidade da situação em que nos encontramos, com destaque para as consequências calamitosas de um aumento da temperatura média global do planeta que ultrapasse os 2 ºC por comparação com a do início da Revolução Industrial. Isto implica uma travagem drástica das emissões de gases com efeito de estufa, ou seja, emissões nulas ou mesmo negativas (por recurso a diversas formas de captura do carbono) até ao final do século XXI. Em 2017, mais de 15 000 cientistas de 184 países produziram um sério aviso à Humanidade. Face à predação dos recursos do planeta, a comunidade científica afirmou que estamos a caminho de “miséria em larga escala e de uma catastrófica perda de biodiversidade.” Um aspecto poucas vezes mencionado é a natureza cumulativa das emissões de carbono. O que determinará a futura temperatura global, e as decorrentes alterações climáticas do planeta, é a acumulação das emissões passadas, das presentes, e as dos próximos anos. Portanto, não basta neutralizar as emissões de carbono dos países ditos desenvolvidos, é preciso travá-las à escala global, o que coloca o gravíssimo problema da reconversão dos modelos de desenvolvimento industrial nos países ‘emergentes’, e noutros que legitimamente pretendem alcançar melhores condições de vida.

 

Apesar da gravidade do que está em causa, os avisos dos cientistas ainda são formulados numa retórica de grande contenção para evitar questionar os fundamentos do sistema económico que, sendo a causa dos males do planeta, também lhes financia a investigação e o emprego. Nos documentos oficiais, as análises são quase sempre sujeitas a uma ‘edição’ que suaviza os termos mais fortes e procura preservar a teoria económica dominante que fundamenta as políticas económicas do capitalismo2.

 

Contudo, a devastação produzida pelo ciclone Idai em África (Moçambique, Zimbabwe e Malawi), as inundações com perdas da produção agrícola na Guatemala, Honduras e El Salvador, assim como a recente onda de calor na Europa, seguida do degelo na Gronelândia, os fogos na Rússia e no Ártico, e os furacões devastadores nos EUA – apenas alguns episódios de uma lista que poderia ser muito longa –, constituem fenómenos com impacto relevante para questionar políticas ambientais que não incomodam o sistema económico-financeiro predador do planeta.

 

Face à gravidade da situação, seria de esperar que os media ocupassem uma parte significativa do seu tempo a discutir as causas das alterações climáticas, a eficácia e o grau de cumprimento dos acordos internacionais, e a escala das mudanças a realizar na produção e na logística das actividades económicas, assim como o nível e a estrutura do consumo actual, incluindo o turismo por via aérea. Porém, a comunicação social de grande alcance, a dos canais de televisão, apenas responde ao que dá rendimento publicitário. O tema das alterações climáticas não é comercialmente interessante, e até pode ser incómodo para alguns anunciantes que contribuem significativamente para o problema que enfrentamos. Exibe-se a tragédia humanitária mas silencia-se a discussão séria das causas estruturais dos desastres ambientais.

 

Se pensarmos bem, não é difícil perceber o interesse das grandes empresas na manutenção do caminho para o abismo que estamos a percorrer. A cotação das suas acções na bolsa depende em boa parte das expectativas de crescimento da economia, sendo este em larga medida sustentado pelo crescimento do consumo, o que exige a exploração dos recursos finitos e a degradação do planeta. Há aqui um conflito de interesses e uma real ameaça à democracia. Os decisores políticos estão sujeitos a uma enorme pressão das empresas no sentido de manterem uma política de mudanças leves que não ponham em causa o status quo. Como alguns cidadãos já perceberam, este crescimento económico e financeiro só pode ser mantido através de uma poderosa rede comunicacional que seja eficaz na alienação das populações através do entretenimento vazio, e alimente a ilusão de que, através de alguns investimentos em energias renováveis, temos boas perspectivas para uma trajectória sustentável. Difundem um cenário de resolução do problema pela via do mercado das emissões e pela inovação tecnológica que está em curso. Através de um ‘crescimento verde’, o capitalismo reinventar-se-ia e a crise ambiental desapareceria. 

 

Na verdade, apenas uma transformação profunda deste sistema económico pode evitar o colapso da Humanidade. Isso implica grandes mudanças nos padrões de consumo, grandes mudanças nos sistemas agrícolas, grandes mudanças no sentido da desglobalização comercial (os transportes aéreo e marítimo são uma grande fonte de emissões) e, ainda mais importante, uma mudança no que entendemos por desenvolvimento. Para além de um dado limiar de consumo frugal, as políticas públicas deverão promover a busca do sentido da vida através da criação de tempo/espaço favorável a relacionamentos humanos de qualidade, uso de serviços e equipamentos públicos, fruição da natureza, investimento pessoal na organização e nas actividades da comunidade a que pertencemos, intervenção em diferentes níveis de debate e decisão no quadro de uma democracia participativa, em complemento de uma renovada democracia representativa, etc. Uma nova macroeconomia focada no pleno emprego, no desenvolvimento regional e local, na justiça social, e no respeito pelos limites e equilíbrios do planeta terá de informar as políticas económicas.

 

De facto, confrontados com um enorme risco de sobrevivência da Humanidade, bloqueados pelos interesses instalados que insistem no caminho para o desastre, enfrentando o silêncio cúmplice dos media que anestesiam os cidadãos, só nos restam a mobilização através dos media alternativos, e a realização no espaço público de acções mediáticas que abram caminho a novas iniciativas políticas. Por imperativo moral, o silêncio não é uma opção. A ideologia e o sistema de interesses que comandam as nossas vidas obrigam-nos a escolher: ou o Capitalismo, ou a Humanidade.

 

Notas

 

1 Schroder, E. e Storm, S. (2018), Why “Green Growth” Is an Illusion. Disponível em: https://www.ineteconomics.org/perspectives/blog/why-green-growth-is-an-illusion

 

2 Anderson, K. (2015), On the duality of climate scientists. Disponível em: http://kevinanderson.info/blog/wp-content/uploads/2015/10/For-my-website-On-the-duality-of-climate-scientists-submission-to-Nature-2015.pdf

 

 

Jorge Bateira é licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da UP e doutorado pela The University of Manchester. Leccionou em várias universidades, mais recentemente Economia Política Internacional na Faculdade de Economia da UC. É coautor do blogue “Ladrões de Bicicletas” e preside à associação política Democracia Solidária.

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