ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


Reviravoltas e imprevisibilidades em Com os dentes que ainda me restam, de Glauber da Rocha    

 

Glauber da Rocha, no seu livro Com os dentes que ainda me restam (Oito e Meio, 2018) finca seus dentes afiados de escritor na carne do real. Seus contos falam de verdades do mundo que nos cerca de forma reveladora e surpreendente. O final de cada conto é imprevisível, fazendo o leitor se chocar com a câmera escura do intenso cotidiano que nos amedronta. No grand finale, os leitores são conduzidos por labirintos frenéticos da realidade mais cambiante, pois há reviravoltas nos seus textos, ora passando da infelicidade para a felicidade, ora se absorvendo no caminho que vai da felicidade para a infelicidade, como observaria Aristóteles, na sua Poética, com relação à tipologia literária, como no cômico e no trágico. Temos sua tragicomédia da vida, dando por vezes tons cômicos em momentos de tragicidade e, por outras, dando seriedade a aspectos risíveis na nossa experiência com o real. Esse paradoxo é enriquecedor nas suas linhas fiáveis do texto, que atinge o contexto com grande desenvoltura.

 

No conto que abre o livro “Amores”, temos uma cena típica de nossa sociedade, a briga de um casal, perfazendo a cena cotidiana privada. O namorado não entende por que ela quer se casar com ele. Este tenta entender os motivos, trabalhando com as questões que surgem, unindo a tradição e a ruptura, se acometendo na crise e tensão dos diálogos chocantes de seu livro. Num processo de autocrítica, o namorado se negativiza para justificar o interesse ou não da namorada. Enquanto ele age pela diversidade de questões pessimistas e desastrosas, ela revela o otimismo do amor acima de tudo, inclusive os piores defeitos dele, criando-se assim uma ilogicidade que permeia o amor, que ultrapassa as fronteiras do racional. O discurso dele é sarcástico e corrosivo, querendo apagar a chama do amor dela. Temos o discurso irônico dele contra o romantismo da mulher. Ele até se humilha e se mutila, perante sua futura esposa: “Eu bebo, fumo, sou uma porcaria.” O pessimismo do marido é insano, pois mesmo se ela vivesse algo terrível com ele, acreditaria no “melhor de todos os mundos possíveis”, segundo a concepção do filósofo Leibniz, que é criticado duramente no conto “Cândido ou o otimismo”, de Voltaire. Aqui seria “Guilherme ou o pessimismo”. No conto de Voltaire, mesmo o personagem passando por várias desgraças, mesmo assim é um otimista e acredita num mundo perfeito e iludido.  A partir dos recursos da repetição, enumeração e gradação, Guilherme quer enfatizar o pior dele, o que é reconhecido de forma otimista pela mulher que sempre diz um “Eu te amo”. Só vamos saber dos reais motivos dele no final do conto, que é impactante e inesperado.

 

Em “Exu pagão”, temos um personagem que só se mete em roubadas por causa das mulheres, essas Evas sedutoras que o levam a um destino extremo. Aqui, temos o espaço, a espacialidade das personagens. A linguagem é nua e crua, nos fazendo lembrar mundo do realismo cruento das narrativas de Rubem Fonseca. O realismo das cenas se apresenta como um quadro, em que a cena se movimenta diante os nossos olhos, como se uma câmera de filmagem circundasse as personagens. Aqui encontramos o acesso às religiões afro-brasileiras, em que as linhas tênues entre o Bem e o Mal são quebradas. Nesta história aqui, a mulher quer que alguém mate o marido a partir de um trabalho, chegando por fim ao narrador-personagem. Aqui, nesta narrativa temos a pequena história do mito, como a religião se adensa no real, traduzindo um discurso dialógico entre o transcendente e o imanente. Podemos perceber também a comicidade da narrativa à ideia de morte, traduzindo um humor negro surpreendente e inesperado. O lado cômico do sinistro e do sobrenatural é enaltecido com grande maestria. Mas também temos as questões e dúvidas, o ceticismo frente às crenças. Ela questiona: “E se ele não morrer?”. Ele responde: “Se ele não morrer na macumba, eu mesmo o mato na paulada. Não será o primeiro”. O narrador-personagem-feiticeiro se desencanta pela própria aura do que é considerado como do espaço do sagrado. Mas ao mesmo tempo que o mito pagão perfura a matéria de suas páginas, temos o encontro fabuloso com a Bíblia, nos encaminhando por uma leitura hídrica e híbrida, ou seja, maleável e fluida nas suas misturas gestacionais: “No livro do Eclesiástico a gente encontra todas as respostas da vida”. Aqui o mundo é permeado pelo seu aspecto dual, de encontro entre diferentes rios de contenção e expansão. As personagens de Glauber da Rocha vivem e refletem sobre si mesmos, unindo a experiência e o intelecto.

 

“Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade”, disse Paul Valéry. O tema da solidão é o que aparece no conto “O sol na casa 12”, em que o narrador-personagem mostra o motivo por estar só no mundo, que nos aprisiona numa gaiola empírica. Ele diz: “Sou feio, muito feio. Sou gordo, careca e caolho”. Aqui, vemos a desordem e o desequilíbrio num mundo em que se busca a ordem e a perfeição. Há o questionamento das características físicas e psicológicas por ele mesmo, como o dom de ser “um muxiba avarento”. Aqui comparece novamente o sagrado a partir da astrologia, como o título já antecipa antes de chegarmos às palavras de seu conto maravilhoso. O esquecimento dele o faz ser um “Ninguém” face à multiplicidade que o circunda. Ele revela suposições se estivesse com uma namorada apesar do frio que ele detesta. Assim, o conflito neste conto envolvente de ser ler está instalado logo no início do conto. Ele reflete sobre sua própria pobreza linguística diante das mulheres: “Não saber conduzir uma conversa, ou simplesmente conversar, é ou era outro defeito meu”.  Mas mesmo assim, sua solidão é fragmentada pelo encontro que vai ocorrer, um preenchimento na vida dele, que descamba para uma situação constrangedora que os leitores lerão no final inesperado. Na mulher que ele encontra, temos um duplo dele, que se satiriza e se debocha, descaracterizando-o de forma agressiva, a mesma coisa das reflexões iniciais dele. O erotismo das personagens é intenso, quebrando os limites entre o erótico e o pornográfico, como pensado por Roland Barthes.

 

Em “O pior vendedor do mundo”, temos novamente a questão da reviravolta, pois do “melhor vendedor do ano”, o personagem passa por situações contrárias num curto espaço de tempo, o que dá densidade à narrativa. O narrador-personagem trabalha em excesso para receber um prêmio como o melhor vendedor do ano e acaba doente. Sua narrativa é feita de extremos, urgindo diferenças grandiosas que são utilizadas como pontes em sua narrativa, comunicando-se com a presença de sua linguagem marcante, clara e concreta, perfazendo a lógica do cosmos em meio ao caos. Aqui, temos a presença das diferenças de classes, entre o patrão e o empregado, em que a desumanidade, a força do capital nos esmaga numa sociedade extremamente capitalista. Encontramos nesse conto, além de uma história bem contada, uma crítica ferrenha à nossa sociedade, O final é chocante e nos faz pensar nas dicotomias entre o mundo do trabalho e do prazer, na doença e na saúde de uma sociedade doente que não procura se curar. Comparece neste conto excepcional a crítica à meritocracia do mais forte e capaz num mundo de plena selvageria neoliberal.

 

A sua eroticidade pornográfica é forte em “Porn Revenge”, em que o carnal é presença poderosa em sua narrativa, onde um rapaz de 16 anos filma uma vizinha nua com todo o seu erotismo explícito, que ultrapassa as fronteiras barthesianas entre esferas tão tênues. A tara e o voyeurismo do jovem personagem são marcantes. Além disso, nos é apresentada aqui a ambiguidade entre o amor e a tara, entre o sentimento sublime amoroso e o carnal, mesclando os dois num mesmo movimento incendiário. Há um realismo erótico nas descrições de zonas erógenas. Seu conto não apresenta nenhum pudor em mostrar as “taras amorosas” dos personagens. Seu livro não segue o falso moralismo da ordem estabelecida.  A desordem erótica conduz o amor à loucura. Outra ambiguidade existente é entre a religião e o sexo, pois Deus se mostra como culpado de o narrador-personagem só namorar garotas virgens, o que não o leva a perder sua própria virgindade: “Eu ficava revoltado com isso, perguntando por que Deus só colocava garotas virgens na minha vida – a Priscila era minha terceira namorada naquele ano – sendo eu virgem também”. Ele se equaciona na sua contrariedade, pois apesar de jogar futebol, símbolo da virilidade, não consegue chegar às vias de fato com as mulheres. Aqui, neste conto de Glauber Rocha, amor, ódio e sexualidade andam juntos.

 

No conto “Fiscalização” temos a distensão e a tensão, os jogos duplos da linguagem. Um dono de restaurante, metódico e disciplinado, tem uma mania de limpeza descomunal, conferindo tudo no estabelecimento ao extremo. Mas num momento da narrativa, o asco e o repugnante comparecem, manchando a ordenação de sua vida regrada. Ele é um fino observador do real, em todos os seus matizes, vendo com detalhes tudo à sua volta, até que um pesadelo kafkiano muda totalmente, dando um revés na sua vida padronizada. O certo se dirige ao errado e sua existência é virada ao contrário. No pesadelo, ele vê inúmeras baratas e no meio delas o fiscal. Um terror em meio à placidez ordenada de sua experiência com relação ao mundo. Citando Freud, a partir de uma relação fonte-influência, o universo dos sonhos adentra a carnadura dupla da realidade. O final do conto é dramático e nós leitores percorremos as ruas imundas do terror trágico. Nele, temos um dejà-vu surpreendente, colocando o dono do restaurante numa situação surpreendente aos olhos do leitor. A reviravolta é um sorriso kafkiano.

 

No conto “Na pele”, encontramos uma reflexão profunda sobre o racismo, criticando esse terror impensável e ainda existente na nossa sociedade. Zulu, um office-boy do pai, abandona seu emprego com seu familiar e vai buscar outros meios de sobrevivência. Só que a realidade é bem diferente com ele, passando por sofrimentos inimagináveis perante a nossa sociedade hipócrita e decadente. Passando por momentos vexatórios, mais aqui uma vez encontramos a reviravolta que o torna alguém melhor em nossa cultura. Ele passa por acidentes, agiotas, chantagens e preconceitos terríveis, que o mutilam na sua qualidade de humano. Mas ele consegue dar a volta por cima num final para lá de animador. Ainda bem que podemos acreditar que os sonhos são possíveis a todos os seres humanos, independentes de cor, sexo, religião etc.

 

Em “A loira do 74”, temos o tema do suicídio e sua força destruidora e avassaladora  de vidas que se esforçam por encontrar o equilíbrio psíquico. Glauber da Rocha, até cita, através de sua intertextualidade Soren Kierkegaard: “...Soren Kierkegaard diz que a pessoa se mata porque não consegue suportar  a angústia”. Esse processo citacional dá um aspecto mais denso na sua narrativa que é feita de estranhezas e familiaridades, ao mesmo tempo. O delegado que observa um homem se jogar de um prédio vai investigar os motivos que o levaram àquele ato extremo e descobre algo inusitado que o leitor terá o deleite de saber nas suas linhas costuradas com beleza e perfeição, onde as repetições, as réplicas se dão com outras personagens, numa sensação do já visto e vivido inicialmente por outros. A repetição e a diferença se abraçam ternamente, deixando a tensão ser envolvida pelas personagens de seus contos admiráveis e completos. No fim da história, temos o terreno da dúvida, entre a crença e a descrença, as vias de mão dupla, que cabe ao leitor decifrar e escolher.

 

Para fechar o livro com chave de ouro, temos o conto “Com os dentes que ainda me restam”, onde nos são mostrados os vícios e virtudes de um personagem. Ele, nesse conto, perde seus dentes por causa de brigas por mulheres, revelando que esta não é a tão desejável pelo homem, o sexo frágil. O homem é que é revelado em toda sua fragilidade que é representada metaforicamente, pelos dentes perdidos em socos e brigas com outros homens. O mundo da prostituição é exposto, onde os personagens da vida mundana são desvendados pouco a pouco aos olhos do leitor. Os dentes que ainda restam são sua possibilidade num mundo caótico e violento. O símbolo de sua fraqueza é transposto por sua coragem em assumir o real a qualquer custo. Portanto, nas suas narrativas cativantes, sensuais, trágicas ou cômicas, as reviravoltas como numa gangorra de sentidos, extrapolam o real para se fazerem presentes com intenso poder de linguagem e força literária, onde a imprevisibilidade é a marca maior de seus contos. Que sua literatura tenha vida longa para continuar a encantar os leitores e críticos, ávidos por aprenderem com suas narrativas instigantes.

 

 

A resenhista: Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior a distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente “A serenidade do zero” (Penalux, 2017). Tem poemas traduzidos para vários idiomas.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


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