ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Ir à lua e a insanidade    

Ir à Lua, a Marte, a Plutão, ao fim do Cosmos! A ideia que os chefes dos impérios transmitem aos súbitos é a do milenar grito de guerra: Vamos a eles porque somos mais fortes, temos as melhores armas, os melhores guerreiros! A eles, sus! Uma cruzada.

 

A conquista do espaço é uma acção da guerra permanente e eterna enquanto a humanidade existir. Não é outra coisa e não é boa ou má. Um rio que corre para uma queda de água não realiza uma boa ou uma má acção. É apenas isso. Podíamos esperar que os chefes da humanidade fossem mais inteligentes que um curso de água, mas a realidade é que não são.

 

A guerra faz parte da forma da espécie humana existir no triplo sentido da existência: na relação com os seres semelhantes, com os seres de outras espécies e com o meio ambiente.

 

A conquista espacial coloca a mesma questão que foi em português genialmente exposta por Camões no episódio do Velho do Restelo d’ «Os Lusíadas”, de que aqui ficam algumas estrofes:

 

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça (…)

 

Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

Que promessas de reinos, e de minas
D' ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Mas ó tu, geração daquele insano,

Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe, (…)

 

Também Eça de Queiroz refere o “fraudulento gosto” de mascarar a vã cobiça e enganar o povo néscio com promessas de reinos, de minas e de oiro quando tudo falta na terra de partida, em «Uma Campanha Alegre».

 

A propósito da glória e do império, da ida para as talhadas de África recebidas na sequência da Conferência de Berlim: “Ora a Portugal restava toda uma riquíssima província a amanhar, a regar, a lavrar, a semear – o Alentejo!

 

O mais belo e falacioso argumento para iludir a essência militar e de conquista do poder, de iludir a natureza da conquista espacial, é a dos benefícios para a ciência, o progresso tecnológico. É evidente que os objectos não são maus ou bons em si mesmos, é o uso que os homens lhes dão que determina a sua utilidade. Uma guilhotina tanto corta uma resma de papel como uma cabeça. As guerras são reconhecidamente um incentivo para os homens descobrirem novos objectos, materiais, novas utilidades que após cortarem cabeças podem ser utilizadas com lucro a alimentar as cabeças que serão cortadas na próxima guerra. Um motu continuo de descobertas, o dito progresso, que nos trouxe da seta ao míssil.

 

Iludidos pelos anúncios das conquistas que nos fornecem o incensado progresso, a fama, a vã glória, não refletimos se aquilo que nos apresentam como progresso é efectivamente progresso, isto é, se as ditas descobertas melhoraram a vida dos homens, a sua capacidade para conviverem e para viverem no planeta onde a espécie se desenvolveu.

 

A questão é pensar se as descobertas que há séculos nos são apresentadas como progresso e como estímulo para continuarmos a descobrir e ir mais além são o progresso.

 

Ele descobriu a pólvora. Ou: ele julga que descobriu a pólvora é um dito corrente para significar a descoberta de um produto, de uma solução já descoberta. A descoberta da pólvora foi um marco importante na história da humanidade, não pela energia acumulada que ainda hoje nos auxilia a lançar foguetes em dias de festa, mas porque possibilitou o fabrico e emprego de armas mais eficazes na imposição do poder dos que a possuíam. Foi um progresso numa guerra, não consta que tenha melhorado a vida dos homens. 

 

Isto é uma bomba atómica! A utilização da energia nuclear foi desenvolvida para fazer a guerra. É uma arma, tal como a conquista espacial. Não estou nada seguro que a bomba atómica tenha constituído um progresso para a humanidade. Embora haja quem, com humor negro, considere que pode mesmo ter sido a última grande descoberta do homem.

 

A noção de progresso continua a ser a descoberta de melhores instrumentos para o homem dominar outros homens, mesmo à custa de tornar o planeta inabitável?

 

Infelizmente, do meu ponto de vista e correndo o risco da acusação de demagogia, onde estou bem acompanhado por Camões e Eça de Queiroz, é mais fácil e lucrativo os demagogos optarem pelo uso dos recursos de que dispõem na vã glória de mandar, de impor uma vontade a outros, em vez de os utilizarem para realizar e promover o muito que há para fazer nas suas nações. Portugal foi à Índia, quando Portugal era um território inóspito e os portugueses um povo que vivia miseravelmente, mesmo para os padrões europeus da época. Portugal foi para África nas mesmas circunstâncias, sem sequer ser capaz de cuidar do Alentejo! Os portugueses continuaram pobres, a morrer sem amparo a não ser de extremas-unções, analfabetos, a emigrar. Ao deus dará, a saúde entregue à misericórdia das misericórdias e o conhecimento aos padres e frades.

 

As potências espaciais, dos Estados Unidos à Rússia, da China à Índia têm nos seus territórios alcançado o progresso que assegure cuidados generalizados de saúde aos seus cidadãos? Habitação? Educação generalizada? Bom ambiente com atmosferas saudáveis e águas tratadas? Reduziram desigualdades sociais?

 

A conquista espacial trará melhorias na sua vida aos cidadãos dos países cujos chefes se apresentam como os imperadores surgiam numa tribuna aos romanos, de peito feito e trombas graves, a anunciar mais uma expedição de legiões aos confins da terra conhecida?

 

Ou todos pertencemos, queiramos ou não, à geração daquele insano de que falava Camões, chame-se “aquele insano” como se chame?   

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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