ANO 8 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Amoi Ribeiro


Até aonde vai a passividade do povo brasileiro?    

Desde 9 de junho o jornal The Intercept Brasil tem publicado uma série de reportagens baseadas em mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos e documentos judiciais, obtidos por uma fonte anônima, que revelam comportamentos antiéticos mantidos na força-tarefa Lava Jato. A Lava-Jato que tanto colaborou para empolar a fama do juiz Sergio Moro, como o herói da nação, homem íntegro, combatente da endêmica corrupção brasileira.

 

As reportagens tornaram evidente que o juiz acusador, no processo do ex presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, não foi um juiz imparcial e nem sempre agiu de forma legal. Sergio Moro insinuou a substituição de membros do Ministério Público Federal em audiências de processos da Operação Lava-Jato, interveio no planejamento e execução de atos de investigação criminal e de natureza cautelar, sugeriu estratégias ao Procurador da República, mencionou a necessidade de provas específicas, de seu conhecimento, para admissão de acusações e, hipoteticamente, antecipou juízos de valor sobre acordos penais ainda em fase de negociação.

 

A decisão de Moro de divulgar parte da delação do ex ministro Antonio Palocci, a seis dias antes do primeiro turno das eleições, chegou a ser questionada no Conselho Nacional de Justiça. Moro negou que sua intenção tivesse sido influenciar as eleições presidenciais. "Não deve o juiz atuar como guardião de segredos sombrios de agentes políticos suspeitos de corrupção", alegou Moro. Um mês depois, Sergio Moro aceitava a magistratura para ser ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Bolsonaro.

 

Os diálogos obtidos pelo The Intercept Brasil apontam que Moro considerava fraca a delação de Palocci, “difícil de provar”. Palocci alegou que Lula sabia do recolhimento de propina envolvendo empreiteiras, a Petrobras e partidos políticos. Também afirmou que as campanhas de Dilma Rousseff foram superfaturadas e receberam dinheiro de caixa dois. As mensagens ainda revelam que Moro atuou como chefe dos procuradores que operaram sigilosamente para evitar que Lula desse uma entrevista durante a campanha eleitoral por medo que pudesse ajudar a “eleger o Haddad”.

 

A parcialidade do juiz tinha a finalidade de excluir Lula do processo eleitoral (líder das pesquisas eleitorais). Para Juarez C. dos Santos, ex professor da UFPR, o juiz Moro cancelou princípios do processo penal para: condenar e prender Lula, garantir a vitória eleitoral da direita política nas eleições presidenciais e assegurar sua própria posse no cargo de Ministro da Justiça do novo Governo.”

 

E as revelações do material recebido pelo The Intercept Brasil não terminam por aí. O procurador Dalton Dellagnol, segundo as conversas no chat analisadas pelo jornal Folha de São Paulo, criou um esquema empresarial para arrecadar fundos e lucros com palestras fazendo uso da fama da Lava Jato e desviando dinheiro público. A ideia era abrir uma empresa no nome de familiares ou a criação de um instituto sem fins lucrativos para pagar altos cahês a eles mesmos, além de uma parceria com uma firma organizadora de formaturas para alavancar os ganhos do projeto.

 

Mas então, o mundo democrático e do Estado de Direito deve estar se perguntando: por que o atual ministro Sergio Moro ainda não caiu? São grandes e rentáveis os interesses econômicos nacionais e internacionais por trás do golpe de 2016. Análises de especialistas, como a de José Luis da Costa Fiori e William Nozaki, no artigo Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável, mostram que o Brasil, desde há alguns anos, tornou-se um cobiçado alvo na „guerra híbrida“, considerada nova tática dos EUA para a conservação do seu domínio econômico. Sérgio Moro vinculou-se aos planos norte-americanos desde 2009, quanto o Bridge Project estabeleceu a “colaboração” entre varas do Judiciário brasileiro e o Departamento de Justiça dos EUA. O governo populista dos EUA, na pessoa de Trump, apoia Bolsonaro e Sergio Moro. Mas não são apenas os EUA. Para o sociólogo Jesse Souza, a “luta contra a corrupção” sempre foi o principal pretexto da elite brasileira para corromper ela própria o Estado, e ainda apropriar-se de empresas públicas a preços irrisórios. Significa que o mercado apoia Sergio Moro. Também o exército brasileiro, que em novembro de 2018, ameaçou o STF, quando o general Eduardo Villas Boas deu a entender que prentendia intervir caso o STF concedesse Habeas Corpus para Lula, em 2018. Lula é considerado, pelos brasileiros elitistas e pelos poderosos da economia, o grande inimigo da nação, por tentar implementar programa mais eficaz de luta contra a corrupção, de limites de privilégios, e por se preocupar com as causas da população pobre, criando os programas sociais como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, as cotas para negros e deficientes, e, na área da educação, por exemplo, o então ministro  Fernando Haddad criou o ProUni (de concessão de bolsas em faculdades privadas), o Ideb (que mede a qualidade do ensino nas escolas), o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), o piso salarial para professores, o Ensino Fundamental de nove anos e a criação de 14 novas universidades federais.

 

A população que saiu às ruas fantasiada de verde e amarelo, inflada de patriotismo e incitada pelo antipetismo e pela suposta luta contra a corrupção, estes brasileiros estão agora calados, quietos dentro de suas casas. O atual presidente Jair Bolsonaro tem sua famíla envolvida com milícias, seu filho envolvido em desvios de verba de gabinete, e existem casos de financiamento ilegal de seu partido, e no entanto, estes brasileiros preferem ficar calados a admitir que erraram, a admitir que o PT continua sendo perseguido.

 

A esquerda desunida permanece atônita sem capacidade de desenvolver estratégias de oposição. A esquerda brasileira é desarticulada e até mesmo ingênua, e se perde em pautas identitárias e de gênero, em vez de combater o inimigo maior e comum: o capitalismo neoliberal irrefreado e a perda de direitos trabalhistas. A esquerda brasileira provou ser fraca demais.

 

O povo brasileiro, que poderia tomar o seu destino nas mãos, é na realidade subserviente e não possui experiência de luta revolucionária, a não ser as isoladas insurgências que foram aniquiladas, como a Inconfidência Mineira, Revolução dos Alfaiates, Guerra de Canudos, Revolta Paulista de 1924, Guerrilha do Araguaia, e assim por diante. Revoltas regionais populares que não obtiveram o apoio da população em geral. No decorrer de sua História, o povo brasileiro foi, e segue sendo, fácil de se manipular, devido à formação da sociedade brasileira fundamentada em princípios colonialistas e escravagistas, na forte manipulação midiática da Globo e, atualmente, também da igreja evangélica e na falta de conscientização de classe e de nação. A elite se orienta em valores e costumes estrangeiros, que dispensa o sentimento de pertencimento ao país. A classe média, equivocadamente, identifica-se com a elite que a explora. A classe média é inimiga da classe pobre, e a classe pobre é esmagada por todos.
 
Com as revelações dos audios, no jornal The Intercept Brasil, em parceria com Folha de S. Paulo, Veja e El País, provou-se que as eleições brasileiras de 2018 foram fraudadas e o país está sendo seriamente prejudicado. O poder aquisitivo diminuiu, a violência, os agrotóxicos aumentaram, a fome extrema voltou. Na área da educação, os cortes foram devastadores, praticamente todos os programas sociais foram cancelados. Inclui-se ainda a invasão das terras indígenas e o devastamento da Floresta Amazônica. Sem dúvida, a infraestrutura do país está sendo minada, entretanto, Moro continua no poder, apoiado por Bolsonaro, que depois de provar sua extrema incompetência como presidente de um dos maiores países do mundo, e a maior economia da América Latina, também permanece no poder.

 

O escândalo maior no Brasil não é a corrupção descarada, a falta de caráter, as vulgaridades e as bandidagens dos políticos, mas a sociedade brasileira que se mostra doente, insana, e incapaz de impor respeito a si mesma. Até quando a população aguentará? Até quando o Brasil aguentará?  

 

Amoi Ribeiro, pseudônimo
Berlim, 02/8/19

 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Agosto de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Amoi Ribeiro, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cida Sepulveda, Conselho Editorial, Demétrio Panarotto, Eloésio Paulo, Érico Hammerström, Flávia Fernanda Cunha, Flávio Otávio Ferreira, Gabriel Impaglione ; Rolando Revagliatti, entrevista, Gladys Mendía, Hermínio Prates, Hugo Pontes, Iza Maria de Oliveira, José Arrabal, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luiz Edmundo Alves, Manuella Bezerra de Melo, Marco Aurélio de Souza, Maria Emília Lino Silva, Marinho Lopes, Max Lima, Ricardo Ramos Filho, Sônia Pillon, Tereza Duzai, Thássio Ferreira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR