ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Manuella Bezerra de Melo


Poemas    

 

Meti a poeta na jaula
como macaca brava de circo
rosnava assustadoramente
faminta e incontornável
poetas devem ser sublimes
não feias, vulgares, mondrongas
poeta é tênue, intocável
não disforme, buguio, cacajao
Vez por outra escapava
pra me encher de culpa pelo poema
que não paga as contas do mercado
a comunista me viu acabrunhada
Reclamou:
— Você é poeta. O demônio tem medo
da poesia!
Taí a função da poeta primata


**

 

 

 

 

 

 

Pedaço meio luz
parte meio arte
tudo meio beleza
enfeitada de sorte
corpo todo torto
tudo despencou
pedaço de escuro
Coração que pousa
no marfim elefante
dribla a morte


**

 

 

 

 

 

 

A guerra reage ao nada com muitas coisas e
a piedade nos distrai pra que nos sintamos úteis
Inúteis, sobrevivemos da fome de morte
deitamo-nos fora de nós por exaustão
A guerra sacode nossos dejetos e nos renega
lápides; recorda o quão ninguém somos nem
fomos nem hemos de ser — controlados vivos
redesenhados úteis bélicos e sem querer servir servimos
auscultados pela indústria cardiogramáticamente
pulsamos jus às balas evocadas bombas explodidas
e ouro gerado dessa desgraça de sermos em carne
ou ossos o engenho vivo e morto da guerra


**

 

 

 

 

 

 

Despertar-te nu horizonte rigidez
pulso vibrante cilindro rosado
sangue nas passagens sementes
explosivas na extremidade, sementes
são seres humanos perigosos
não se sabe o que esperar delas


**

 

 

 

 

 

 

Disseram quando nasci nem chorei
gritei como hiena e pequena
já a postos com escudo e armadura
a me proteger de você à minha frente
cá prostrada de peito pro alto
esqueci o formato das nuvens
ouço dos pássaros as ultimas histórias
débeis sobre dribles em gatos
fui percebida e quase desviei do coice
do céu faustoso mas não foi possível hoje
demente segui com as marcas da pata
celeste na caixa torácica duas ferraduras
do lado esquerdo do peito


**

 

 

 

 

 

 

A mulher de sotaque vê novelas
o velho disse que só se ensinava
sa-fa-de-zas gays às crianças
não tenho televisão, mas me escondi
no banheiro até que passasse a dor


**

 

 

 

 

 

 

Nasceu pra deleitar
na desgraça da mulher
Mariana levou um tiro
o tiro se atirou sozinho
Virgínia tinha nove anos
você fingiu que não viu
Era puta, Virginia, putinha!
andava de sainha mostrava
a porra da calcinha
lazarento infeliz!
Num dia do teu sêmen
veio uma menina
uma linda princesinha
Agora o mundo tem que mudar
ganhou sua filha, única vagina
que vale a pena respeitar


**

 

 

 

 

 

 

Dormem os cumes das montanhas de Álcman
e lá os macacos e saguins; dorme a esfinge
de Gizé as lembranças de paz as mulheres
deprimidas e exaustas seus filhos raquíticos
os homens bêbados de testa nas mesas das
tabernas e as prostitutas entorpecidas das
suas camas insalubres. Dormem os rios em
seu leito, a foz que não desagua, os abissais
nas profundezas, serpentes de todas espécimes
humanas dormem nas árvores que também cochilam
aproveitando o vento da tarde; dormem como
crianças batedores de panela e dormem também
as crianças, porque essas devem mesmo dormir.
Dorme mais ainda a revolução e dormem todos
os outros à rivotril ou prozac; menos o poeta


**

 

 

 

 

 

 

Palco do espetáculo
desajustador de memórias
celebrado em cores
modo analógico e digital
jeito terno – e violento –
de calar a criança e conduzi-la
ao necessário e adequado
esvaziando-a de si
fonte do desejo
do poder
da fantasia
que já não vinha sozinha
eletrizante, magnética
mensagem que faltava,
mentira que sobrava
barbárie que se desenhava
diante da sua carnavalização
altar: num culto diário, móveis
toda família voltava-se a ela;
silencio dos afetos mudos

 

 

Jornalista nascida em Pernambuco, Manuella Bezerra de Melo foi produtora e repórter, especializou-se em Literatura Brasileira e Interculturalidade. É poeta e cronista. Viveu nas serras de Córdoba, na Argentina, quando publicou sua primeira obra, Desanônima (Autografia, 2017). Já em Portugal, publicou Existem Sonhos na Rua Amarela (Multifoco, 2018) e Pés pequenos pra tanto corpo (Urutau, 2019) e participou da antologia Pedaladas Poéticas (Aquarela Brasileira, 2017). Mora em Guimarães e dedica-se a um mestrado em Teoria da Literatura na Uminho.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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