ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Maria Emília Lino Silva


Aprendiz de feiticeiro e um conto    

Um dia minha mãe me chamou para me sentar a seu lado. Mostrou-me alguns sinais esotéricos e me ensinou seus nomes. Uma tarefa sem graça e sem sentido, que eu cumpria com o prazer de usufruir de um privilégio: minha mãe só para mim!

 

Eu devia ter sete, no máximo oito anos. O irmão mais velho, com onze ou doze, já estudava na cidade, em casa dos avós maternos. Havia também uma irmã de seis, outra cinco, e o caçulinha tirando a fralda. Minha mãe sempre muito ocupada! E eu a querendo tanto!

 

Morávamos na serra, a noventa quilômetros da cidade. Noventa quilômetros que significavam, nos anos 1950, uma viagem de dia inteiro, preparada com antecedência, com pausa para almoço no sítio de Dona Relinda. Íamos de caminhão. Meus pais e o caçula na boléia com o motorista. Minhas irmãs e eu na carroceria, com uns poucos funcionários.

 

Meu pai dirigia uma escola agrícola federal, onde filhos de pequenos fazendeiros e sitiantes estudavam o ginásio e aprendiam também, trabalhando, noções de agricultura, pecuária e zootecnia. Lugar lindo, clima de montanha, embora tão perto de Cuiabá, a tórrida. A população fixa - famílias do diretor, professores e funcionários - somava ao redor de mil pessoas. Havia um farmacêutico residente e um médico que vinha todo mês, ou algo assim. Grande acontecimento era a aparição do padre. Rezava missa no salão da escola, casava, batizava e se ia. Havia uma banda, sob o comando do Sargento Albertino. Tocava nas festas, tanto no hasteamento da bandeira com discursos, quanto nos bailinhos no salão de tudo. Das viagens à cidade meu pai trazia filmes que eram exibidos a quem quisesse ver, alunos e moradores.

 

Quando chegou a hora de eu ir para a escola, a igreja já estava construída. Eu era menina, não se justificava que fosse também para a cidade. Meu pai conseguiu que duas freiras fossem residir ali e ensinar na igreja. Havia duas lousas, uma para cada fila de bancos. As classes ficavam separadas, uma de cada lado, com uma das professoras.

 

Foi antes da vinda das religiosas que minha mãe me apresentou os estranhos sinais. Depois me ensinou a juntá-los. Shazam! Estava soletrando, formando palavras! Ainda não conhecia o termo magia, mas a vivenciei. Foi como quando a Emília do Lobato engoliu a pílula para falar. Nunca mais paramos. Naquele deserto cultural, entre uma garfada e outra, eu comia soletrando os nomes dos remédios à mesa. E pa re ma. Cho phi tol. Logo estava lendo correntemente. As professoras chegaram e fui ter aulas na igreja.

 

Em frente à minha casa, do outro lado de um extenso gramado, cortado pela estrada, ficava o Prédio, onde funcionava a escola. Quem foi que me contou que havia ali um lugar mágico? Era cheio de uns buracos de minhoca capazes de transportar para outras dimensões. Chamavam-se livros, e era só ir lá e escolher um. Tudo o mais ficou secundário. Brincar, inclusive. Lia e lia até os olhos cansarem. Deitava o livro no colo e era a minha vez de contar história, comigo como protagonista, ora pois. No início do ano letivo os funcionários vinham em casa e transportavam pilhas e pilhas para suas respectivas estantes.

 

Lembro-me especialmente de uma preciosidade, o Tesouro da Juventude, uma enciclopédia juvenil que tinha muitas divisões interessantes, inclusive o Livro dos porquês. O que eu devorava alucinada era o Livro dos contos. Que maravilha! Queria crescer para criar aquelas emoções, preencher vidas e mentes com aquelas intensidades. Assim, aos oito ou nove anos, escolhi minha profissão: escritora. Responsável, tornei-me aplicada estudante do instrumento de meu ofício: a língua pátria e sua gramática. Um dia meu pai me tirou das aulas das freiras e, durante um ano inteiro, me preparou para o Exame de Admissão.

 

Vim enfrentar o Ginásio em São Paulo. Estava na terceira série, às vésperas da prova semestral, que chegava a ser mais importante que a final, na contagem da época. A professora de matemática se dedicava a repassar a matéria e as alunas a apresentar dúvidas e mais dúvidas, sem avançar em nada de novo. Entediada, olhei para a janela ao lado, vendo o pátio vazio lá embaixo. Para fazer de conta que estava presente à aula, peguei caneta, caderno, e escrevi: “1960. Grande ano para o cenário nacional.” Prossegui comentando a mudança da capital. Uma página, talvez? A aula acabou, o semestre também, chegaram as férias em Cuiabá. Minha mãe, orgulhosa, mostrava as redações de sua escritora para as visitas, fazia- me ler para elas. Uma sua irmã gostou de "1960", levou a O Estado de Mato Grosso, e fui publicada aos treze anos. 

 

No ano seguinte encontrei um livro inesquecível. Estava na mesa de centro da sala de casa. Era de meu irmão, que terminava o Colegial. Título: O átomo. Devorei. Fiquei para sempre marcada pela revelação de que sou feita de bolinhas girando no vazio. Igual a qualquer outra coisa que existe. Seguro esta caneta e deixo nela minhas digitais. E ela, o que deixa em mim? O mundo das fadas e seus milagres não chegam aos pés da magia do mundo. E tudo isso cabendo em livros.

 

Vieram então as paixões que duraram décadas e se abrandaram sem perder a majestade. Henry Bergson. Herman Hesse. Sigmund Freud. Wilfred Ruprecht Bion. Muitos outros casos menores, tipo ler cinco ou seis livros do autor, como Sandor Marai ou Saramago. Ou terminar o livro na manhã seguinte, como Fera de nenhum lugar, cuja forma é para o conteúdo como o corpo para a alma, motivo para eu considerar sacrílega sua transposição para a linguagem cinematográfica,  e me recusar a vê-la. Como não vi o filme Capitu, para não concretizar os “olhos de ressaca”, imagem que ainda amo em Machado de Assis. Enfim, uma vida passional intensa e variada. Para não esquecer as mulheres, como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Virgínia Wolf e Chimananda Ngozi Adichie, entre tantas. Esta, um amor que nasceu em sua apresentação na  Flip - Festa Literária Internacional de Paraty.

 

Fui para o curso Clássico, o colegial voltado para Línguas e Humanas. As aulas de Literatura nos levavam à biblioteca municipal por livros especializados, consultados no local. Escrevíamos várias páginas sobre um livro, analisando autor, gênero, escola, enredo, personagens... Entregávamos com capa, às vezes com ilustrações. Sim. Brasil. Nem era uma escola famosa. Mas o aluno ainda era encarado como ser pensante, não como mão de obra. Copiar e colar nem tinha sido inventado.

 

Então, às vésperas do vestibular, a fada que não foi convidada para meu batizado ativou seu feitiço: a escritora iria se ferir na pena de uma caneta, e dormir cem anos. As canetas tinteiro tinham evoluído, não machucavam, só manchavam a roupa. A malvada teimou e fez outra coisa. Enquanto eu lia, ela sussurrava: "Quem você pensa que é? Você é medíocre. Nunca vai conceber olhos de ressaca. Pensa que pode criar um país como Macondo? Ou parir Macunaíma?" Depois de um ano de moratória, encontrei um Plano B: seria psicóloga.

 

Também a escolha da faculdade resultou de um livro. A propósito de uma pessoa de minha família, emprestaram-me Como conhecer e educar seu filho. Esqueci o nome do autor, e  sei que nunca o encontrei na Universidade ou depois. Defendia a tese de que para educar é preciso conhecer. Conhecer é diferenciar. Não se pode tratar um filho tipo A do mesmo jeito que o outro, tipo B. Então ele apresentava tipos e subtipos de modos humanos de ser. Decidi que iria trabalhar com isso: o fascinante mundo interno dos humanos. (Talvez, um dia... se chegar a ser escritora... esse estudo possa me ajudar? Mas, não espalha, já guardava e ainda guardo essa esperança. Nunca desisti de criar magia usando runas, digo, letras. Enfeitiçar alguém, como fui tantas vezes enfeitiçada... mantê-lo acordado enquanto os olhos teimam em querer fechar... encerrar as atividades obrigatórias e voltar correndo para ele, o livro inacabado, à espera na página marcada...)

 

O tempo passa. Tudo está em constante devir. Os feitiços também carregam seus prazos de validade. Quando o que foi lançado sobre mim perdeu seu valor, criei uma página no facebook onde coloco textos de até duas páginas. Ninguém me jogou tomates, e me atrevi a desejar escrever um romance. Já fiz três esboços, e estou animada com este último. Como quem já sofreu um feitiço não pode descrer de bruxas, resolvi me proteger. Entrei para a Escola de Encantamento Literário de Mestre Tiago. Encontrei uma turma linda. Muita varinha mágica de fazer inveja. Fiquei confiante. Logo, logo, conquistei uma.

 

 

 

 

 

 

Progresso

 

Dr Franck acordou de um sonho estranho. Pessoas alegres e bonitas passavam na rua. De um muro, sai uma forma trazendo bebida a um transeunte. Sai uma outra e carrega as compras de uma senhora. E assim várias silhuetas se destacam da parede, servem os que passam, e desaparecem. O cortejo prossegue seu desfile, animado e alegre.

 

Sem mais poder dormir, percebeu refletidas ali as acusações que ultimamente estavam lhe dirigindo.  Seus superiores contestavam todas elas, e o cumulavam de promoções e honrarias. Ele próprio estava muito orgulhoso, pois havia conseguido progressos extraordinários.  Lembrou-se da primeira vitória, quando recém-formado e recém-casado. Num concurso nacional, entrou como pesquisador em Engenharia Biológica de uma das multinacionais mais poderosas. Trabalhava com paixão havia já muitos anos. Graças a seus estudos, ele próprio e sua família, como seus assistidos, tornavam-se livres de dor, doenças e envelhecimento.  Fora de sua empresa, no entanto, lançavam-lhe duras críticas.

 

Dr Franck, liberto da dor física, conheceu naquela hora a dor moral. Conseguira domar o corpo, esquecido de que este não se compõe apenas de um conjunto de órgãos, sendo também a matéria para o espírito. Impõe seus limites e diversidades. Fornece os sentidos, a dor e o prazer. Ele ajudara a modelar corpos perfeitos, andróginos, como vinham surgindo nos sonhos coletivos do cinema. Sem doenças. Sem velhice. Com habilidades maravilhosas. Com ambição e competitividade.  Só que havia se esquecido da alma.

 

Agora entendia. Sua tecnologia campeã criara super-homens incapazes de empatia ou solidariedade para com os que continuavam a sofrer e a envelhecer. Felizes com a suposta superioridade e os privilégios adquiridos através dela, nem se percebiam como também sendo explorados, também tendo sugado seu tempo de viver. A produção e o lucro tornaram-se tão espetaculares que obscureciam o significado de ‘humano’ e até de ‘vida’. E assim passou a haver pessoas que valiam mais, e outras que valiam menos, ou nada, como acontece com mercadorias.

 

- Não era nisso que eu estava trabalhando!  Só queria que se libertassem da dor, que fossem felizes! Gritou no silêncio da noite.  

 

- Pensou que venceria a Vida e suas contradições, Franck? Pensou que venceria a mim?

 

O doutor se virou em direção à voz. Encontrou o sorridente rosto da Morte, fluorescendo a um canto do quarto.

 

Há um engano aí, Senhora. Nunca me dispus a criar vida nem a impedir a morte. Minha ambição mirava esse intervalo transcorrendo sem sofrimento. Meus alvos eram a dor e a velhice. Não previ meus esforços sendo desvirtuados por meus patrões.

 

- Quanta ingenuidade! Quanta pureza! Acreditou, mesmo, que seria regiamente pago para benemerência, e não para uma geração extraordinária de lucros?

 

- Acreditei no meu trabalho, Senhora. Combatia o sofrimento, repito. Não a fraternidade.

 

- Corrigia a Natureza. Não percebe a arrogância? 

 

- Não, Senhora, não percebo. Meu campo não é a Religião, mas a Ciência. E um cientista visa sempre o progresso.

 

A Morte riu alto, estalando os dentes.

 

- Francamente! Um cientista que não verifica os resultados de seus experimentos!

 

- Claro que verificava! Constatei progressos surpreendentes e consistentes!

 

- O progresso bom pode ser compartilhado com todos. Como a eletricidade. Se você cria uma super-raça, é evidente que ela vai dominar as outras. Por isso, a elite dos poderosos o exalta. Como conseguiu se convencer de que não sabia? De que não é cúmplice?

 

- Jamais tive as intenções de que me acusa.

 

- Sua couraça é bastante sólida. Vou lhe dar ainda muito tempo, para você entender os desdobramentos da situação que criou. Vou lhe tirar as vendas dos olhos. Até a próxima!

 

E desapareceu na parede.

 

 

Maria Emília Lino Silva nasceu em Ponta Porã, MS, Brasil, em 1945 e com onze anos foi morar em São Paulo, SP. Fez a graduação, mestrado e doutorado na USP, SP. Sua tese, Pensando o pensar com pensamentos de W. R. Bion está publicada como Pensando o pensar: uma introdução a W. R. Bion. Exerceu a clínica psicanalítica por 30 anos e a docência em pós-graduação em psicologia clínica por 20 anos na PUC-SP e PUC-Campinas. Coordenou o livro Investigação e Psicanálise onde participa com o artigo “Pensar em Psicanálise”. Publicou vários artigos em revistas de Psicologia e de Psicanálise. Mantém duas páginas no Facebook, uma ligada à Psicanálise (W.R.Bion por M.E.L.S) e outra ligada à Literatura (Livre pensar é só pensar). Publicou um conto na antologia Sós e está preparando seu primeiro romance.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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