ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Luiz Edmundo Alves


Poemas    

aniversário

 

é no outono que um homem percebe quantas vezes
sobreviveu e se reinventou, percebe também o quanto foi
natural seu percurso de lutas e esforços inúteis, ou de aclives
e declives. No outono um homem só precisa das cores do outono, do calor dos afetos e de ar nos pulmões, pra soprar com energia aquilo que desfolhou desde as mais remotas primaveras. no outono um homem pressente: o presente arrebata, mas não basta.

 

 

 

 

 

 

outra coisa

 

ana maria ama o caminho de casa e
os grandes espaços verdes. aos noventa anos
compreende, resignada, sua biografia de dor, de
luta, de abandono, sua pele de mulher negra e
humilde. ana maria ama a antena parabólica, as
novelas, a voz dos netos ao telefone, a roça,
a horta, os amigos e os cães pequenos.
eventualmente ela tem sonhos perturbadores com
netos e bisnetos perdidos pelo mundo:
o mundão não alivia para os negros, não! não!
um dia ela plantou hortaliças em uma privada
velha e disse: não se assuste, é canteiro e não
privada, é outra coisa e não a coisa.
a vida é novela, filho, a vida é novela,
novela e canteiro. não se assuste,
não se assuste. só assista, e plante.

 

 

 

 

 

 

Riso

 

raramente rio às gargalhadas
raramente rio com gargalhadas alheias,
não raro gargalhadas tem um quê de efêmero,
uma proximidade do choro ou do exagero,
proximidade com algum drama anunciado,
diferente do riso sereno, que contém uma
verdade que preciso decifrar,
onde leio um drama contido, uma alegria de
pálpebras, uma espuma de primeira infância.
gargalhem, gargalhem quando quiserem,
e deixem-me envolvido por essa espuma e
por essas dobras finas de pele que me
protegem como se fossem espinhos.

 

 

 

 

 

 

de pássaros

 

tenho muito apego a
pássaros e a poemas sobre pássaros,
quis ser árvore para receber pássaros, mas
outros poetas fazem isso melhor.
quis alimentar pássaros, mas pássaros alimentam-se por
conta própria e deram entender que é bastante suspeito
serem alimentados por um humano.
quis me enganar com a premissa de que existe
uma suposta fragilidade de pássaros, fragilidade incômoda,
carregada de temor, e percebi que o temor constrói defesas
necessárias, o voo é uma defesa contra a fragilidade,
o canto é uma defesa contra as fragilidades todas.
a poesia dos pássaros prende, queima, dói.
depois liberta, enreda, inspira, comove
como a queda de um pássaro abatido em voo de fuga
pofft!
tombo, penas.
poemas.

 

 

 

 

 

 

Dedos

 

uma emoção desprendeu-se de sua beleza.
aparei a emoção que desprendeu-se de sua beleza
com meus dedos, com naturalidade que munca tive.
escuta-me: a emoção que aparei foi romântica,
entrou por meus dedos, ruborizou-me.
agora quero ficar parado, ouvir um mantra,
rememorar seus dedos, seus dedos tão diferentes dos
meus dedos, tão menores do que os meus dedos
meus dedos, atraídos por seus dedos com a
naturalidade que os dedos têm.
uma emoção nova escorre por meus dedos:
novo lugar, novo perfume, novos sinais
que faço agora com meus dedos tão devotos?
agora que sinto meus dedos tão sentimentais?

 

 

Luiz Edmundo Alves formou-se em Psicologia pela FUMEC. Já publicou diversos livros de poesia, entre eles “Sopro” 1990, “Fotogramas de Agosto” 2005, “Uvas Verdes – poesia paixão memória”. 2009, “ Zum Zuns Zoom” 2012 todos pela anome livros. Tem poemas publicados em diversas antologias no Brasil e em Portugal. Criou e editou a premiada série de vídeopoemas “Lampejos” 1998, e também o site Tanto, pioneiro em literatura na internet. Atualmente vive na Fazenda Pouso Alegre, em Almenara, Minas Gerais. Mas sempre que pode vem a Belo Horizonte, onde viveu por mais de 30 anos. Alguns de seus poemas e e mais detalhes sobre este poeta podem ser vistos no canal ‘LUIZ EDMUNDO ALVES – POESIA E CULTURA” do YouTube.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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